Este é um automóvel cuja biografia se entrelaça com a própria história de Portugal. Trata-se do Mercedes-Benz Type 770 que esteve ao serviço da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) e que foi adquirido para transportar António de Oliveira Salazar, figura maior do Estado Novo.
É, sem dúvida, uma peça rara - e, ainda assim, poderia passar despercebida entre outras viaturas expostas no mesmo local, não fosse o passado absolutamente singular que a acompanha.
Nas próximas linhas, fica a história desta viatura contada ao detalhe.
Objetivo: ao serviço de figuras de Estado
Quando a Mercedes-Benz revelou o modelo em 1930, deixou claro o propósito para o qual tinha sido concebido: funcionar como automóvel de representação para figuras de Estado. De presença imponente e luxo evidente, o Type 770 recorria a um motor de oito cilindros em linha, com válvulas à cabeça e pistões em alumínio, com 7,7 l de cilindrada, entregando 150 cv às 2800 rpm.
Como opção, era possível encomendar o 770K, equipado com um compressor tipo Roots, que fazia subir a potência para 200 cv às 2800 rpm, permitindo atingir 160 km/h de velocidade máxima.
Salazar, que não fora consultado sobre a aquisição destes automóveis, logo manifestou o seu descontentamento, recusando-se a utilizar o Mercedes que lhe fora atribuído.
Sendo um automóvel produzido sob encomenda, a linha do Type 770 contemplava também variantes particularmente exclusivas, como a limusina Pullman ou a versão blindada, pensada para os mais altos dignatários e para reforçar a sua protecção.
Ao longo do período de 1930 a 1938, foram construídas 117 unidades do maior e mais caro Mercedes, em Untertürkheim, incluindo 42 exemplares blindados no formato limusina Pullmann. O Imperador do Japão, Hiroito, comprou três, e para o Estado Português seguiram duas unidades em 1938.
Para lá da blindagem, a carroçaria Pullmansteel distinguia-se por proporcionar, na série W07, um patamar de conforto e luxo sem paralelo. No interior, amplo e cuidado ao pormenor, o acabamento era feito manualmente por trabalhadores especializados, assegurando que os ocupantes viajavam com o máximo requinte.
Na retaguarda existiam várias configurações; a mais procurada era a “vis-a-vis”, com duas filas de bancos frente a frente e capacidade até seis pessoas. A limusina Pullman era, então, uma referência do segmento, criada para disputar estatuto com propostas equivalentes da Rolls-Royce.
A encomenda
Depois do atentado à bomba sem consequências graves ocorrido no domingo, 4 de julho de 1937 - quando Salazar seguia para assistir à missa da manhã na Avenida Barbosa du Bocage - a PVDE avançou com a encomenda de duas unidades Type 770 Grosser com carroçaria blindada Pullmansteel, formalizada a 27 de outubro de 1937.
O pedido foi submetido através do representante da marca em Lisboa, a Sociedade Comercial Mattos Tavares, Lda., que o encaminhou para os escritórios da Mercedes-Benz na Alemanha.
Devido à especificidade do modelo, a entrega demorava, e por isso foi adquirido um Chrysler Imperial, também blindado. Esse automóvel entrou ao serviço a 22 de novembro de 1937 e serviu não apenas como viatura de Salazar, mas também como veículo utilizado na fuga de oito presos políticos da prisão de Caxias.
De acordo com os arquivos da fábrica, o chassis foi construído a 18 de janeiro de 1938 e as carroçarias Pullmansteel ficaram prontas a 9 de março. Os dois automóveis foram expedidos para Lisboa em 12 de abril.
Ambos foram matriculados em junho de 1938 em nome da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e colocados à disposição do Presidente da República e do Presidente do Conselho: General Oscar Carmona (AL-10-71, chassis #182 067) e Prof. Oliveira Salazar (DA-10-72, chassis #182 066).
Como não tinha sido consultado sobre a compra, Salazar mostrou rapidamente o seu desagrado e recusou-se a utilizar o Mercedes que lhe tinha sido destinado. No entanto, acabaria por o usar apenas uma vez, aquando da visita oficial do Generalíssimo Franco, em 1949.
Vendido a um… sucateiro
Na prática, era habitual o 770 ser conduzido pelo motorista Raul para transportar visitas ao Palacete de S. Bento. Por isso, ao fim de 17 anos, assinalava apenas 6000 km quando a direção-geral da Fazenda determinou a sua venda em hasta pública.
Foi arrematado por seis contos pelo sucateiro Alfredo Nunes, que o registou em seu nome a 9 de fevereiro de 1955. Pouco tempo depois, o carro seguiu para os Bombeiros Voluntários do Beato e Olivais, com a intenção de o converter em ambulância. Como a transformação implicava custos elevados, decidiram vendê-lo a 16 de junho de 1956 a João de Lacerda, para integrar o Museu do Caramulo.
Hoje, o odómetro marca apenas 12 949 km, uma vez que, desde 1956, circulou com alguma regularidade para manter a mecânica em bom estado. Nunca foi necessário restaurá-lo, pois tudo se mantém irrepreensível - da pintura aos cromados e aos estofos.
Até os pneus são os originais: conservam-se com 40 libras de pressão e não apresentam “gretas” nos flancos, possivelmente por terem sido produzidos com borracha sintética “tipo Buna”.
É, pois, considerado o mais perfeito e bem conservado Mercedes-Benz 770K “Grosser” do Mundo.
Fonte: Museu do Caramulo
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