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BCE em Sintra: inflação, juros e a sombra do estreito de Ormuz

Homem de fato apresenta rotas comerciais europeias num ecrã de projeção numa sala de reuniões moderna.

A onda de calor que tem atingido vários países europeus, Portugal incluído, e a inflação podem partilhar mais do que parece à primeira vista. Em algumas geografias, o pior das temperaturas já poderá ter ficado para trás, mas o que vem a seguir continua longe de ser certo. Em Sintra - onde o vento costuma suavizar os picos térmicos - Christine Lagarde e a restante equipa sabem bem que a margem de atuação depende, em grande medida, do que vier a acontecer no estreito de Ormuz.

Foi esse pano de fundo que marcou o Fórum do Banco Central Europeu (BCE), realizado esta semana em Portugal. Ninguém se aventurou a antecipar com confiança o que poderá acontecer até ao final do ano. “Os riscos estão agora mais controlados do que estavam há algumas semanas, mas as coisas mudam muito rápido”, disse Lagarde - líder da instituição - no debate de encerramento do evento. “Basta olharmos para o quão rápido o preço do petróleo caiu. Está agora nos 72 dólares, quando em março estava nos 120 dólares”, apontou.

A memória recente ajuda a explicar a prudência. Há dois anos, no mesmo Fórum, entre os principais receios estava a possibilidade de a inflação cair e permanecer, durante muito tempo, abaixo dos 2% - a meta do BCE. Um ano depois, em 2025, Lagarde assinalava, no último dia do encontro, que o índice de preços tinha ficado exatamente nesse valor. Agora, em 2026, com mais um conflito pelo caminho, voltam a discutir-se formas de a fazer descer novamente.

Inflação e energia: petróleo, Ormuz e o impacto na zona euro

Por enquanto, os números dão algum fôlego à zona euro. Em junho, o índice de preços desacelerou para 2,8%, uma descida de 0,4 pontos percentuais em relação a maio. A queda dos preços dos combustíveis teve um papel decisivo nesse alívio (ver texto na pág. 8).

Ainda em junho, a leitura final do Índice de Gestores de Compras (PMI), indicador que acompanha a evolução da atividade na indústria e nos serviços, confirmou que a economia mantém resiliência apesar da turbulência internacional. O índice agregado da área do euro recuou apenas ligeiramente para 51,4 pontos, permanecendo confortavelmente acima do patamar de 50 que separa expansão de contração.

Quanto custa a credibilidade do BCE?

Quando foi confrontada com a hipótese de novas subidas das taxas até ao final do ano, Lagarde respondeu com humor e chegou a ameaçar, a brincar, que abandonaria a sala - uma forma de evitar comprometer-se. Ao contrário da Reserva Federal dos EUA, o BCE decidiu aumentar os juros para 2,25% na reunião de junho, sublinhando, no entanto, que as duas economias estão em fases distintas, como a economista francesa recordou.

Nos dias anteriores ao encontro, multiplicaram-se as vozes entre decisores a defender um aumento “em nome da credibilidade” do BCE. Isso alimentou a perceção de que um agravamento dos custos de financiamento - com impactos diretos na vida de famílias e empresas - poderia não ser ditado pelos dados, mas sim pela necessidade de proteger a reputação da instituição. No arranque do Fórum, Lagarde dedicou uma parte substancial do discurso a refutar essa leitura, sem que, aparentemente, tenha conseguido convencer o mercado.

“o BCE continua assombrado pelo que aconteceu em 2022 (quando a guerra na Ucrânia começou e o regulador foi acusado de ter atuado tarde demais no combate à inflação). Embora a decisão de subir as taxas seja compreensível, não era realmente necessária. Desde o início era evidente que o atual choque inflacionista não seria uma repetição de 2022”, explica Carsten Brzeski, economista do banco ING e especialista em política monetária.

Em declarações ao Expresso, Brzeski atribui a orientação atual a “a uma questão de credibilidade. O BCE sabe que uma subida das taxas de juro não resolve um choque do lado da oferta e também não conseguirá travar as expectativas de inflação”, acrescenta. Numa conjuntura em que o crescimento já é frágil - o FMI aponta para 1,1% em 2026 e a Comissão Europeia para 0,9% -, juros mais altos podem acabar por travar ainda mais a expansão.

O progresso das negociações entre o Irão e os Estados Unidos da América (EUA) também ajudou a aliviar as pressões inflacionistas. O tráfego no estreito de Ormuz voltou a aumentar, embora permaneça ainda em torno de metade do nível anterior à guerra. A distância entre a comunicação oficial de ambas as partes e os ataques efetivos na região mantém os bancos centrais em modo de espera.

Na Europa, a expectativa de mercado aponta para a manutenção das taxas no encontro de julho, mas antecipa uma subida em setembro e/ou outubro (ver gráfico). Ainda assim, quaisquer decisões tenderão a ser mais condicionadas pelo que acontecer entre Irão e EUA do que por Frankfurt, onde se localiza a sede do BCE.

“Se este enquadramento se mantiver e os preços da energia permanecerem neste nível, então a pressão para agirmos será menor e poderemos esperar até às novas projeções de setembro para decidir a calibração adequada da política monetária”, disse Primoz Dolenc, governador do Banco da Eslovénia, à Reuters, durante a sua estadia em Sintra. As projeções do BCE de 11 de junho partiam do pressuposto de preços do petróleo elevados durante vários anos, mas os valores atuais já estão abaixo até do cenário mais otimista da instituição para o resto deste ano. Em sentido contrário, Isabel Schnabel, membro do Conselho Executivo do BCE, avisou na última semana que o ciclo de aperto monetário ainda não terminou.

A independência, outra vez

Depois de uma relação marcada por tensão entre Donald Trump, Presidente dos EUA, e Jerome Powell, antigo líder da Reserva Federal dos Estados Unidos, os receios em torno de uma independência condicionada não diminuíram com a chegada de Kevin Warsh - antes pelo contrário. Na sua primeira decisão, o nomeado pelo republicano manteve as taxas inalteradas no intervalo entre 3,50% e 3,75% na reunião de 17 de junho, embora nove dos dezoito membros da Reserva Federal tenham admitido pelo menos uma subida este ano.

Mercado aponta para uma subida de juros do BCE em setembro ou outubro. Fed deve subir uma vez até final do ano

Pelos discursos ouvidos em Sintra, baixar juros não está no horizonte imediato dos banqueiros centrais, o que contraria a preferência de Trump, que pressionava Powell para cortes. Para já, o Presidente norte-americano adotou um tom moderado. “Temos um tipo muito bom lá agora”, referindo-se a Warsh, que ele próprio nomeou em janeiro, “por isso deixo-me guiar pelo que ele quiser”. Ainda assim, Carsten Brzeski antecipa que essa contenção pode não durar.

“Neste momento, Trump tem outros problemas em mãos. No entanto, assim que o mercado de trabalho enfraquecer e/ou o mercado imobiliário mostrar mais sinais de tensão, é claro que Trump vai aumentar a pressão sobre Warsh e a Fed para cortarem as taxas de juro”, nota.

Confrontado com o tema, Warsh respondeu que “temos sido um banco central independente por muito tempo. Vamos continuar a ser neste momento e não há qualquer alteração nisto”, depois de a pergunta sobre a pressão de Trump ter provocado alguns risos discretos na sala.

Mais tarde, o assunto regressou a propósito da decisão do Supremo Tribunal, desta semana, que rejeitou a tentativa de Trump de despedir a governadora da Fed Lisa Cook. Warsh começou por reagir em tom de brincadeira: “Estávamos a ir tão bem...” Disse que leu a decisão no avião, a caminho de Portugal, e voltou a frisar o compromisso com a independência: “Antes do Supremo Tribunal, a Fed agia de forma independente. Depois do Supremo Tribunal, a Fed vai agir de forma independente.”

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