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Experiência em Cambridge Bay testa a geoengenharia da Real Ice para engrossar o gelo marinho do Árctico

Pessoa com roupa de frio retira bloco de gelo de buraco num lago congelado ao pôr do sol.

O gelo marinho forma-se de baixo para cima. À medida que ganha espessura, isola melhor a água por baixo e abranda o próprio crescimento. Este mecanismo ajuda a explicar porque é que o gelo do Árctico tem vindo a afinar de forma tão constante ao longo das últimas décadas.

No inverno passado, uma equipa em Cambridge Bay, no Árctico canadiano, perfurou o gelo e bombeou água do mar para a superfície. Todas as noites ficavam camadas finas, que amanheciam já completamente congeladas.

Quando chegou a primavera, essas zonas apresentavam quase mais um pé (30 centímetros) de espessura do que o gelo não intervencionado ao lado.

Inundar para congelar

O gelo marinho do Árctico tem perdido espessura há décadas. Em cada verão derrete um pouco mais e um estudo concluiu que o extremo norte está a aquecer a um ritmo quase quatro vezes superior ao do resto do planeta.

Uma das respostas propostas é a geoengenharia - mexer deliberadamente no clima para travar a perda. Em vez de esperar que o gelo engrosse por baixo, a estratégia passa por acrescentar camadas por cima. É aí que o frio do Árctico actua mais depressa.

Se se bombear água do mar para a superfície, o ar implacável congela-a em poucas horas. Edward Blanchard-Wrigglesworth, cientista do clima na Universidade de Washington (UW), integrou a equipa que levou a ideia a um teste no terreno.

A experiência no gelo

O trabalho decorreu ao largo de Cambridge Bay, um povoado com cerca de 1.800 habitantes - na maioria Inuit - na ilha de Victoria, no Nunavut, Canadá. Durante grande parte do ano, o mar gelado funciona como estrada local.

Os residentes atravessam-no em motas de neve ao longo de quilómetros para pescar e caçar. A experiência foi conduzida pela Real Ice, uma empresa britânica que pretende abrandar a perda que está a alterar a vida por aqui. Participaram também investigadores da Universidade de Cambridge e de outras instituições.

Visto de cima, o desenho era simples: três parcelas ficaram como controlo, sem intervenção, e outras oito foram assinaladas para inundação.

Bombas alimentadas por baterias e hidrogénio puxavam água do mar e espalhavam uma película fina sobre a neve, que ficava dura e congelada na manhã seguinte.

Algumas parcelas receberam uma única descarga; outras foram inundadas uma segunda vez em fevereiro. A equipa distribuiu o trabalho por três períodos de frio intenso, para perceber em que altura a inundação compensava mais.

À medida que cada camada assentava, surgiam flores de geada, e a equipa libertava as bombas à pancada com um pico de gelo.

Mais espesso e mais claro

Até este inverno, a ideia existia sobretudo em modelos e em alguns ensaios de pequena escala. Nunca tinha sido feita, nesta dimensão, uma inundação de gelo real no Árctico com medições do que voltava a crescer. No início de maio, a equipa de Blanchard-Wrigglesworth obteve uma resposta.

As parcelas inundadas ficaram até cerca de um pé (30 centímetros) mais espessas do que as não mexidas, e com um pouco menos neve por cima. As que receberam duas rondas foram as que mais ganharam. Um pé extra não é um detalhe.

Quando se compara com décadas de registos locais, esse acréscimo praticamente anula todo o afinamento que este gelo sofreu nos últimos 50 anos. Meio século de perda, revertido num único inverno.

O verão apaga os ganhos

O aumento de espessura só ajuda se durar. À medida que o sol de primavera subiu, o gelo inundado aguentou durante algum tempo - mais brilhante, a derreter mais devagar, ainda à frente das áreas vizinhas. Depois veio o verão.

Quando o gelo da baía finalmente se quebrou, as zonas intervencionadas partiram-se com o resto. O pé de espessura conquistado com esforço não chegou a um segundo ano. A época de degelo apagou os ganhos do inverno.

Pelos vistos, nestas condições, é possível fazer crescer gelo mais espesso. O que não se consegue, para já, é atravessar o verão.

A equipa diz-o de forma directa: ainda ninguém sabe o que seria necessário para levar uma parcela inundada além do degelo.

Reflectir mais luz solar

A claridade tem um benefício próprio. O gelo branco devolve a luz do sol para o espaço. Já a água escura e aberta absorve-a, aquece o oceano e alimenta mais degelo.

Imagens de drone e de satélite mostraram que o gelo inundado era cerca de 40% mais brilhante do que o gelo não intervencionado ao lado.

A equipa testou também uma segunda técnica: drenar uma lagoa de degelo, uma das bolsas escuras de água derretida que surgem todas as primaveras.

Perfuraram um buraco vertical até ao oceano e deixaram a lagoa escoar. Em menos de uma semana, o local clareou de forma acentuada, com a água escura a dar lugar a gelo pálido. Um gesto pequeno, uma mudança grande no que era reflectido.

Uma questão de escala

O princípio não é novo. Há quase uma década, investigadores propuseram cobrir o Árctico com milhões de bombas movidas a vento para reconstruir o gelo. Cambridge Bay foi o primeiro teste real em campo dessa ideia.

Há críticos que duvidam que isto alguma vez consiga atingir uma escala relevante.

"Os números simplesmente não batem certo", disse Martin Siegert, glaciólogo britânico. Alimentar e manter milhões de bombas num oceano tão hostil é uma exigência esmagadora.

A logística é pesada. As bombas têm de ser transportadas para o gelo, instalar perfurações, funcionar durante horas, ser soltas à força e depois deslocadas novamente.

Esse ciclo teria de se repetir numa área do tamanho de um continente. Mesmo quem apoia a abordagem admite que o custo seria enorme.

Futuro do gelo do Árctico

O que este inverno demonstrou é concreto. Inundar pode tornar o gelo do Árctico significativamente mais espesso e mais brilhante em condições polares reais, e não apenas em simulações. E uma única lagoa drenada também consegue clarear uma zona de superfície em poucos dias.

O que ficou por responder é se isso consegue sobreviver ao verão ou crescer para lá de uma parcela de ensaio. Shaun Fitzgerald, que dirige investigação em reparação do clima na Universidade de Cambridge, afirma que são necessários mais anos de estudo antes de alguém apostar nisto.

As entidades reguladoras que analisaram o teste não encontraram danos na baía, e o trabalho continua.

Se o problema do verão for resolvido, localidades como esta poderão manter gelo sólido debaixo das motas de neve durante mais tempo - e devolver mais luz solar ao espaço.

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