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Lago Chade: estudo revela 2,48 milhões de aves aquáticas apesar do conflito

Homem em barco observa aves aquáticas com binóculos num lago calmo ao pôr do sol.

O Lago Chade costuma chegar às notícias por causa da violência na região e da redução da sua linha de água. Um novo estudo revela, no entanto, uma faceta diferente deste lugar.

Este lago sustenta um número muito elevado de aves aquáticas. O Chade recebeu o seu nome a partir dele, e trata-se de uma das maiores zonas húmidas de África.

Uma zona húmida cercada pelo conflito

A bacia do Lago Chade tem vivido mais de uma década de insegurança. O conflito armado expulsou famílias das suas casas e manteve a maior parte dos visitantes de fora.

Essa realidade tornou a região extremamente difícil de estudar. Em grande medida, os cientistas tinham deixado de tentar fazer levantamentos no terreno.

Com o trabalho de campo regular a tornar-se demasiado perigoso, as contagens fiáveis de aves também pararam. Um novo estudo internacional veio agora preencher essa lacuna.

Quase 2,48 milhões de aves aquáticas

A principal conclusão é um número impressionante. Os investigadores estimam que cerca de 2,48 milhões de aves aquáticas utilizam o lago.

É provável que esta seja a maior concentração de aves de zonas húmidas em África. Não há conhecimento de outro local no continente que acolha um total superior.

A estimativa foi produzida por uma equipa liderada pela Tour du Valat, um instituto francês de investigação em zonas húmidas. A Agência Francesa da Biodiversidade (Office Français de la Biodiversité, OFB) também participou.

Grande parte dos voos foi realizada pela ONG neerlandesa Wings for Conservation. A equipa trabalhou em conjunto com o Departamento de Fauna Selvagem e Áreas Protegidas do Chade.

Em conjunto, concretizaram o primeiro levantamento completo das aves do lago desde 2008. Isso dá aos conservacionistas uma linha de base atualizada a partir da qual podem trabalhar.

Contar aves a partir do ar

Chegar a estes números não foi simples. Uma grande parte do lago é perigosa e difícil de alcançar por estrada.

Por isso, a equipa fez o levantamento a partir do ar. Aviões de pequena dimensão seguiram rotas pré-definidas, enquanto observadores contavam as aves no terreno.

Essas contagens alimentaram modelos espaciais. Os modelos permitiram estimar o número de aves em zonas onde ninguém conseguia deslocar-se em segurança a pé.

“Ao combinar métodos de amostragem aérea adaptados com modelação espacial, conseguimos estimar a abundância de fauna selvagem em territórios vastos e de difícil acesso, limitando simultaneamente os riscos para os observadores”, afirmou Pierre Defos du Rau, um dos autores do estudo.

Quando o conflito se torna um refúgio

A segunda conclusão foi inesperada. Nos últimos anos, várias espécies mantiveram-se estáveis e algumas até aumentaram.

Algumas das áreas mais afetadas pelo conflito apresentaram mais animais do que zonas mais calmas e mais fáceis de alcançar. Os investigadores referem-se a isto como um efeito de refúgio.

Atualmente, há menos pessoas a pescar, a pastorear gado ou a caçar junto à margem. Isso deixou partes do lago menos perturbadas, e a fauna expandiu-se para essas áreas.

Este resultado contraria a suposição mais comum. As zonas de conflito raramente são favoráveis à vida selvagem.

Nem todas as espécies estão a prosperar

As boas notícias têm limites. Nem todas as aves estão em boa situação.

Algumas populações estão a aumentar, mas outras encontram-se num declínio evidente. Esta combinação mostra como o sistema continua a ser frágil.

Os investigadores evitam sobrevalorizar os números positivos. Realçam que apenas a monitorização regular pode esclarecer o que está, de facto, a acontecer.

Porque é que a contagem parou

O Lago Chade nem sempre foi tão difícil de estudar. Há décadas, era um dos principais locais de África para aves aquáticas migradoras.

Chegou a ser comparado ao Delta Interior do Níger, no Mali. Depois, o conflito tornou o trabalho de campo regular quase impossível, e os levantamentos cessaram.

O Censo Internacional de Aves Aquáticas acompanha a forma como as populações de aves sobem e descem. No Lago Chade, não tem sido realizado de forma fiável desde os anos 2000.

Sem esses dados, torna-se difícil avaliar quantas aves existem ou em que direção evoluem os números. O censo exige presença no terreno, e esse trabalho tinha-se tornado demasiado perigoso.

Aves que ligam três continentes

Estas aves não permanecem num único local. Muitas migram todos os anos entre África, Europa e Ásia.

O lago é uma paragem essencial nessas rotas. Perdê-lo teria efeitos nas populações de aves muito para lá da região.

Proteger o Lago Chade não é uma preocupação apenas do Chade. Muitos países têm interesse direto no que ali acontece.

Uma fonte de alimento local

O lago também é importante para as pessoas que vivem à sua volta. As suas zonas húmidas ajudam a alimentar as comunidades próximas.

A pesca e outros recursos das zonas húmidas sustentam a segurança alimentar diária de muitas famílias. Quando o lago está saudável, essas fontes de alimento também o estão.

A proteção do lago diz respeito tanto aos meios de subsistência locais como à vida selvagem. Um lago saudável significa capturas mais regulares e fiáveis.

Um apelo a uma proteção mais forte

Os investigadores defendem que é preciso mais do que um levantamento pontual. Pedem a criação de uma grande área protegida no lago.

Querem também que o lago seja incluído na Lista do Património Mundial da UNESCO. Esse estatuto traria maior reconhecimento e regras mais claras.

Sublinham ainda que a monitorização de longo prazo é tão importante quanto tudo o resto. É a única forma fiável de acompanhar mudanças ao longo do tempo.

Porque é que isto importa agora

À medida que as zonas húmidas desaparecem em todo o mundo, locais como o Lago Chade tornam-se cada vez mais relevantes.

O lago é essencial para as aves que migram entre África, Europa e Ásia. É igualmente crucial para as pessoas que dependem dele para os seus meios de subsistência.

Apesar de anos de conflito, o lago continua a suportar uma biodiversidade notável. Segundo os investigadores, protegê-lo é agora mais importante do que nunca.

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