As verbas obtidas numa burla de dezenas de milhões foram "lavadas" em Portugal através de uma rede criminosa portuguesa que a Polícia Judiciária (PJ) desmantelou esta semana.
O esquema começou com uma mensagem aparentemente banal no WhatsApp e acabou com o desvio de 48 milhões de euros ao consórcio espanhol Zurich Santander. De acordo com a investigação, o dinheiro foi depois alvo de branqueamento em território nacional por um grupo agora desarticulado pela PJ, operação que resultou na detenção de 11 pessoas e na apreensão de diverso material probatório.
No dia 24 de novembro de 2025, um burlão - cuja identidade permanece por apurar - fez-se passar pelo CEO do Grupo Zurich. A partir de um número italiano, contactou via WhatsApp Claudio Chiesa, então alto responsável do consórcio segurador Zurich Santander, e instruiu-o a estabelecer contacto por email com Paulo Sersale, apresentado como sócio-gerente de uma sociedade de advogados inglesa, para avançar com uma operação entre o Grupo Zurich e o Banco Santander. Claudio Chiesa seguiu a orientação.
Ainda nesse mesmo dia, o alegado advogado solicitou dados sobre a liquidez do Zurich Santander e impôs a assinatura de um acordo de confidencialidade. Na mesma troca de emails, indicou também que as comunicações teriam de ocorrer através de um servidor seguro e facultou as credenciais de acesso.
Compra de empresas lusas
Sem levantar suspeitas, a vítima assinou o acordo e recebeu um documento que, supostamente, estava assinado pelos CEOs do Grupo Zurich e do Banco Santander. Nesse documento, era-lhe atribuída autorização para efectuar os pagamentos necessários no contexto de um empréstimo intercalar entre as três entidades, destinado à compra de empresas estratégicas em Portugal.
Claudio Chiesa deu credibilidade ao enredo da aquisição, uma vez que tinha conhecimento de que a Zurich e o Santander procuravam esse tipo de oportunidades de negócio. Posteriormente, por via do dito servidor seguro, recebeu de um segundo "advogado" - que, na realidade, integrava o grupo criminoso - documentação em papel timbrado e com a morada verdadeira da sociedade de advogados inglesa, incluindo instruções de pagamento e os dados das contas bancárias para onde deveria remeter os montantes.
Convencido de que tudo era legítimo, o então CEO do consórcio de seguros Zurich Santander realizou, ao longo dos 11 dias seguintes, 42 transferências - quase todas abaixo de um milhão de euros - perfazendo um total de 48 milhões de euros.
A burla ficou consumada quando se apurou que as contas destinatárias não pertenciam às empresas-mãe do Zurich Santander, mas sim a empresas de fachada portuguesas, controladas por uma rede criminosa sedeada em Portugal.
Segundo a investigação, o grupo era chefiado por João P., de 43 anos, que articulava vários testas de ferro das sociedades fictícias usadas para abrir contas bancárias, nacionais ou internacionais, por onde circulavam fundos provenientes de burlas informáticas, como "CEO Fraud".
No âmbito da Operação "Eclipse", a PJ concluiu que por essas contas terão passado cerca de 50 milhões de euros, sendo uma parte significativa proveniente da burla ao Zurich Santander.
Vítimas
Falcone Invest
Em dezembro de 2025, indivíduos não identificados terão conseguido aceder à conta da sociedade espanhola Falcone Invest 2025 e realizaram duas transferências, nos valores de 491 450 e 991 650 euros, para uma das contas geridas pela rede de branqueamento em Portugal. No total, foi desviado mais de 1,4 milhões de euros à empresa de comércio de café, chá, cacau e especiarias.
KennedyHygiene
Ao longo do mês de novembro de 2025, por via ainda não esclarecida pela Polícia Judiciária, burlões com ligações ao núcleo português acederam a uma conta bancária da empresa Kennedy Hygiene Products. Sem qualquer autorização, efectuaram três transferências bancárias, no valor total de 663 669 euros, para uma das contas de fachada controladas pelos criminosos, causando um prejuízo de igual montante à empresa britânica.
Consequências
CEO afastado
Claudio Chiesa deixou de exercer funções no Zurich Santander. De acordo com o perfil no LinkedIn, terminou a ligação ao consórcio este mês, após quatro anos de actividade.
400 euros por firma
João P. pagaria às "mulas" 400 euros por cada firma criada e 275 euros por cada conta bancária aberta.
11 Detidos
A PJ deteve três mulheres e oito homens. Até ao final do dia de ontem, as medidas de coação ainda não eram conhecidas.
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