A passagem da seleção portuguesa para a Puma é um sinal claro da nova batalha pelo mercado global do futebol. O Mundial de 2026 está a mexer com o equilíbrio comercial entre os maiores fabricantes de equipamentos.
O Mundial 2026 está a confirmar uma viragem de influência que vale centenas de milhões de euros. Em comparação com o Catar 2022, a Nike chega à principal montra do futebol mundial em recuo, com menos seleções equipadas; a Adidas volta a assumir a dianteira; e a Puma consegue o gesto mais simbólico deste ciclo: vestir Portugal e Cristiano Ronaldo.
Adidas e Puma ganham terreno no Mundial 2026
Organizada por Estados Unidos, México e Canadá, a edição de 2026 é a maior de sempre, com 48 seleções. A entrada de mais participantes abriu espaço a mais marcas, mas a Nike não converteu essa expansão em crescimento - antes pelo contrário. Depois de ter 13 seleções no Catar 2022, em 2026 passa a equipar 12. Há quatro anos era a marca com maior presença; agora fica atrás da Adidas e vê a Puma encurtar distâncias.
A mudança é marcante. A Adidas salta de sete para 14 seleções, duplicando a representação e recuperando a liderança no palco mais valioso do futebol mundial. No seu lote de patrocínios surgem a campeã do mundo Argentina, bem como Espanha, Alemanha, México, Japão, Bélgica e Colômbia, reforçando um portefólio que junta história, títulos e forte potencial comercial.
A ofensiva mais agressiva, porém, é a da Puma. A marca alemã quase duplica a presença ao passar de seis para 11 seleções e concretiza aquele que poderá ser o movimento mais simbólico do torneio: tirar Portugal à Nike, quebrando uma relação contínua de 27 anos.
Portugal, Puma e o fim de 27 anos com a Nike
A alteração, formalizada em janeiro de 2025, vai muito além de uma troca de fornecedor. Portugal está entre as seleções com maior projeção digital do mundo, alavancada pela figura de Cristiano Ronaldo e pela enorme força global da Federação Portuguesa de Futebol nas redes sociais. Durante mais de duas décadas, a imagem da seleção esteve ligada ao célebre “swoosh” da Nike; a partir deste torneio, essa associação dá lugar ao felino da Puma.
Os montantes do novo acordo não foram divulgados, mas fontes do setor indicam um contrato acima dos cerca de 7,5 milhões de euros por ano que a Nike pagava. A Puma há vários anos procurava aumentar o peso junto das principais seleções e encontrou em Portugal a montra ideal para enfrentar diretamente as duas gigantes do segmento.
Esta escolha insere-se num plano mais amplo: além de Portugal, a Puma equipa Marrocos, Suíça, Áustria, Senegal, Gana, Costa do Marfim, Egito, Paraguai, Nova Zelândia e República Checa, tornando-se na grande vencedora silenciosa da corrida aos patrocínios neste Mundial.
Nike em retração: perdas recentes e apostas para 2027
Para a Nike, este momento coincide com um período particularmente sensível. Nos últimos quatro anos, a empresa viu o valor bolsista cair cerca de dois terços, pressionada por resultados aquém do esperado e por decisões estratégicas alvo de contestação. No futebol de seleções, a descida de presença no maior palco do planeta reforça a ideia de perda de influência face às rivais.
Ainda assim, a marca norte-americana mantém alguns dos ativos mais valiosos do futebol internacional. Brasil, França, Inglaterra, Países Baixos, Estados Unidos e Croácia continuam no seu portefólio. Além disso, garantiu um dos acordos mais mediáticos da próxima década ao convencer a Alemanha a trocar a Adidas pela Nike a partir de 2027, num contrato estimado em mais de 100 milhões de euros por época. Também assegurou os direitos para fornecer as bolas oficiais das competições de clubes da UEFA entre 2027 e 2031.
Mas essas vitórias são, sobretudo, uma história de amanhã. No Mundial de 2026, o retrato é outro: a Adidas lidera no número de seleções, a Puma cresce em espaço e visibilidade com uma estratégia agressiva, e a Nike perde protagonismo precisamente na competição com maior exposição comercial do mundo.
48 seleções, 13 marcas: um mercado mais fragmentado
A passagem para 48 participantes também redesenhou o mapa de fabricantes presentes. De oito marcas no Catar, sobe-se para 13 em 2026. Para lá das três principais, entram nomes como Kelme, Reebok, Umbro, Kappa, Marathon, Jako, Merooj, Saeta, Capelli Sport e 7Saber, sinal de um mercado cada vez mais repartido e competitivo.
Cabo Verde lança Capelli Sport para o palco global
A maior surpresa do Mundial 2026 não acontece apenas dentro das quatro linhas. A estreia histórica de Cabo Verde na competição está a tornar a norte-americana Capelli Sport numa das marcas mais faladas do torneio, abrindo espaço mediático num território habitualmente dominado por Nike, Adidas e Puma.
A jogada foi precisa. Em março, a poucos meses do arranque do Campeonato do Mundo, a Federação Cabo-verdiana de Futebol assinou um contrato de quatro anos com a Capelli Sport para o fornecimento exclusivo de equipamentos a todas as seleções nacionais. Na altura, a parceria pareceu discreta; agora transformou-se numa das narrativas de maior sucesso do Mundial.
À medida que Cabo Verde surpreende adversários e conquista adeptos, aumenta também a exposição internacional da empresa sediada em Nova Iorque. O fundador e presidente executivo da Capelli Sport, George Altirs, reconheceu que ver a marca presente “no maior palco do futebol mundial” era um objetivo desde a criação da empresa.
O efeito comercial foi imediato, mas o protagonismo inesperado da seleção chegou a desencadear um conflito judicial. A Capelli notificou a anterior fornecedora, Tempo Sport, para travar a pré-venda de camisolas antigas a preços mais baixos, sustentando que detém a exclusividade dos equipamentos oficiais. As novas camisolas, colocadas à venda por cerca de 80 euros, passaram a beneficiar de uma procura impulsionada pelo fenómeno cabo-verdiano.
Para a federação, o acordo ultrapassa o simples fornecimento de equipamentos de jogo, treino e viagem. A parceria procura fortalecer a identidade da seleção, apoiar o desenvolvimento do futebol cabo-verdiano e acompanhar a presença do país nas grandes competições internacionais. O Mundial, porém, acrescentou um bónus inesperado: transformar uma marca quase desconhecida num dos vencedores comerciais do torneio.
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