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Microplásticos PET nos pulmões podem alterar a resposta imunitária às alergias

Cientista de bata branca segura modelo transparente dos pulmões com partículas coloridas em laboratório.

Pequenos fragmentos de plástico continuam a ser detetados dentro do corpo humano - no sangue, no tecido pulmonar e em locais onde ninguém esperava que chegassem.

A preocupação mais comum tem sido a acumulação: se estas partículas ficam presas algures e ali permanecem. Um novo estudo em ratos aponta para algo ainda mais inesperado.

O plástico pode não estar apenas alojado no tecido do pulmão. Pode estar a alterar a forma como o organismo reage a coisas que já fazem as pessoas espirrar e ter comichão.

Plástico onde não devia estar

Investigadores têm vindo a encontrar microplásticos - minúsculos fragmentos libertados por garrafas e por roupa sintética - em sítios para os quais nunca foram concebidos.

Já foram detetados no sangue humano e em zonas profundas do tecido pulmonar.

O que estas partículas fazem depois de entrarem no corpo tem sido mais difícil de esclarecer, sobretudo no que toca ao impacto no sistema imunitário.

A investigadora em alergias Michelle M. Epstein e a sua equipa, na Universidade Médica de Viena, decidiram testar essa hipótese em ratos.

O foco foi o PET - abreviatura de polietileno tereftalato - um plástico leve usado em garrafas de bebidas e em vestuário de poliéster.

É um dos plásticos mais comuns no planeta e também um dos que aparecem com maior frequência dentro do corpo humano.

Plástico alojado nos pulmões

A equipa administrou, numa única dose, partículas de PET com tamanho inalável diretamente nas vias respiratórias dos animais e depois aguardou.

Duas semanas mais tarde, o plástico ainda permanecia no local, preso no tecido pulmonar. Não havia sinais de eliminação.

Mas o facto de ficar retido era apenas parte do quadro. Ao longo dessas duas semanas, os pulmões acumularam mais células imunitárias, incluindo linfócitos e eosinófilos - as mesmas células que aumentam no tecido durante uma exacerbação alérgica.

Esse aumento de células é, visto de perto, a inflamação.

O plástico não se degradou nem foi expulso, e os pulmões mantiveram-se inflamados durante todo o período - muito para lá do efeito esperado de uma dose única.

Quando o plástico encontra o pólen

O plástico, por si só, foi um primeiro passo. Depois, os investigadores combinaram as partículas de PET com pólen de ambrósia, um dos desencadeadores mais comuns da febre dos fenos sazonal, para observar como ambos atuavam em conjunto.

Em determinadas condições, a combinação provocou mais inflamação das vias respiratórias do que o pólen isoladamente.

A ambrósia já está entre os alergénios sazonais mais agressivos, e um artigo que acompanhou a sua disseminação prevê que o pólen no ar, em toda a Europa, aumentará de forma acentuada.

A associação entre pólen e plástico reflete o mundo real, em que uma única inspiração pode transportar ambos ao mesmo tempo.

Quer o plástico torne o pólen mais “potente”, quer acrescente dano por si, os pulmões reagiram com maior intensidade ao par.

Os efeitos foram além dos pulmões

Um segundo conjunto de experiências afastou-se dos pulmões.

A equipa introduziu partículas de PET no abdómen juntamente com outros alergénios, uma via que permite observar a resposta imunitária global do organismo, em vez de apenas um efeito local.

Também aqui o plástico agravou a inflamação. Além disso, modificou a resposta de anticorpos ao alergénio - as moléculas que o sistema imunitário produz para reconhecer e ligar-se a uma ameaça específica.

A forma exata como essa resposta se alterou é algo que uma única série de experiências em ratos não consegue explicar por completo.

O ponto essencial, porém, é claro: o plástico teve um efeito, desviando a reação do organismo a um alergénio em vez de atravessar o corpo sem interferir.

O plástico alterou ativamente a imunidade

Já existiam indícios de que o plástico inalado poderia desencadear inflamação alérgica nas vias respiratórias, e uma revisão anterior reuniu estudos em animais que apontavam nessa direção.

O que continuava por esclarecer era se as partículas eram motor da resposta imunitária ou se apenas acompanhavam o processo.

Este estudo aproxima-se de uma resposta. Segundo Epstein, as partículas de PET não ficam simplesmente no corpo: influenciam ativamente as respostas imunitárias.

Uma partícula que apenas se acumula limita-se a deixar ao organismo um trabalho de limpeza e pouco mais.

Já uma partícula que altera o comportamento do sistema imunitário é um problema diferente, com potencial para afetar a forma como uma pessoa reage aos alergénios que respira todos os dias.

Estes não eram pulmões humanos

Tudo isto aconteceu em ratos, não em humanos, e essa diferença é relevante. As doses usadas, a administração direta nas vias respiratórias ou no abdómen, e a biologia de um roedor não correspondem de forma direta ao que acontece numa pessoa a respirar ar urbano.

A equipa de Epstein é explícita quanto a esta limitação, alertando que os resultados não podem ser aplicados diretamente à exposição humana.

Descrevem as conclusões como um sinal inicial - um motivo para investigar com mais atenção, e não um veredito sobre o plástico e as pessoas.

Ainda assim, o material escolhido é difícil de ignorar. O PET está presente no quotidiano e é o mesmo plástico que um estudo encontrou repetidamente no sangue humano, o que torna importante compreender como se comporta em pulmões vivos.

Repensar o plástico nos pulmões

Antes destes dados, o plástico nos pulmões parecia sobretudo detritos: algo a eliminar ou a armazenar.

Estas experiências sugerem outra interpretação: o PET pode persistir durante semanas e alterar ativamente a resposta imunitária a um alergénio, incluindo a produção de anticorpos.

Para investigadores de alergias, isto abre uma nova linha concreta de investigação.

A asma e as alergias sazonais têm aumentado ao longo de décadas, e o estudo torna mais nítida uma pergunta que vale a pena testar em pessoas: será que o plástico que respiramos amplifica a reação do organismo ao pólen?

Nada disto fica resolvido com um estudo em ratos - e os próprios investigadores seriam os primeiros a dizê-lo. Mas as partículas nesses pulmões não foram passivas, e isso muda o tipo de perguntas que devemos fazer sobre o plástico que já existe dentro de nós.

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