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Como a poluição do ar pode acelerar o declínio da memória

Mulher com expressão preocupada segura a cabeça, olhando para imagens médicas num escritório iluminado pela janela.

A maioria das pessoas já passou por pequenos lapsos de memória. Entra numa divisão da casa e, de repente, não se lembra do que lá foi fazer.

No meio de uma conversa, uma palavra comum foge-lhe por instantes. O nome de um objecto que usa todos os dias demora um pouco mais a aparecer.

Normalmente, estes momentos são atribuídos ao stress, à falta de sono ou ao envelhecimento.

Mas os cientistas começam a considerar outra hipótese: e se o ar que respiramos diariamente também estiver a influenciar a forma como o nosso cérebro envelhece?

Poluição associada ao declínio da memória

Investigadores da UC Davis Health e da Kaiser Permanente analisaram dados de mais de 700 adultos negros na Área da Baía de São Francisco e encontraram um sinal que merece atenção.

As pessoas expostas, durante muitos anos, a níveis mais elevados de poluição atmosférica obtiveram resultados mais baixos num tipo específico de teste de memória - e não foi uma diferença pequena.

A quebra observada foi superior ao que, em condições normais, se esperaria ver ao longo de dez anos de envelhecimento natural. Isto não é um detalhe irrelevante.

Partículas minúsculas conseguem chegar ao cérebro

O poluente em que a equipa se concentrou chama-se PM2.5 - material particulado com menos de 2,5 micrómetros. Para ter uma noção da escala, um único cabelo humano tem cerca de 30 vezes mais largura.

Estas partículas podem vir dos gases de escape dos carros, do fumo de incêndios florestais, de centrais eléctricas e de fábricas. Permanecem suspensas no ar à nossa volta e, por serem tão pequenas, o organismo não as consegue filtrar da forma habitual.

Quando são inaladas, não ficam apenas nos pulmões. Podem passar para a corrente sanguínea e, a partir daí, uma parte delas pode atingir o cérebro.

Há anos que se sabe que o PM2.5 prejudica o coração. O que este trabalho acrescenta é evidência de que também pode afectar a mente - não de forma súbita, mas lentamente, ao longo de anos e décadas de exposição.

A poluição afecta a memória semântica

O cérebro guarda dois tipos bastante diferentes de memória. Um deles armazena experiências pessoais - o primeiro dia de escola, o que comeu ao pequeno-almoço, uma conversa que teve na semana passada.

O outro guarda conhecimento geral - o nome de objectos do dia-a-dia, o significado das palavras, factos acumulados ao longo da vida.

Este segundo tipo é o que os investigadores chamam memória semântica, e foi precisamente este o domínio que o estudo identificou como sendo afectado pela exposição prolongada à poluição.

Isto é mais importante do que parece à primeira vista. É a memória semântica que permite acompanhar uma conversa, perceber o que alguém está a perguntar e gerir a vida quotidiana com segurança.

Perda de memória pode interferir com a vida diária

Quando a memória semântica começa a falhar, tarefas que antes eram automáticas passam a exigir esforço. É um tipo de alteração que pode reduzir a autonomia de forma silenciosa, antes mesmo de quem está à volta notar que algo não está bem.

A memória semântica é essencial para a comunicação, a compreensão e para lidar com a vida quotidiana”, afirmou a autora sénior Kathryn Conlon, professora associada no Departamento de Ciências de Saúde Pública da UC Davis.

Os nossos resultados sugerem que a exposição prolongada à poluição do ar não afecta apenas a saúde física - pode também moldar a forma como o cérebro envelhece, especialmente em aspectos relevantes para a autonomia e a qualidade de vida.”

Exposição mais longa provoca mais danos

Uma das conclusões mais relevantes foi que a duração da exposição faz diferença. Pessoas expostas a poluição mais elevada durante 17 anos apresentaram piores pontuações de memória do que aquelas avaliadas em períodos de apenas 5 ou 10 anos.

E o efeito continuou a intensificar-se quanto mais para trás os investigadores recuaram. Isto indica algo importante: não se trata de um único dia de ar mau, nem sequer de um único ano negativo.

Trata-se do que acontece quando o corpo lida com poluição de baixo nível, dia após dia, ano após ano.

Pense nisto como os danos do sol na pele. Uma tarde ao ar livre não deixa, por si só, um impacto duradouro. Mas anos de exposição sem protecção acumulam-se de formas que nem sempre se vêem até que o estrago já está feito.

Alguns grupos enfrentam riscos mais elevados

O estudo centrou-se especificamente em adultos negros, e há um motivo forte para isso. Nos Estados Unidos, os adultos negros têm 1,5 a 2 vezes mais probabilidade de desenvolver doença de Alzheimer e demência quando comparados com adultos brancos.

Há muito que os investigadores tentam perceber de onde vem essa diferença, e factores ambientais - como a poluição atmosférica - têm vindo a ganhar peso nessa discussão.

O quadro complica-se ainda mais porque comunidades negras, latinas e asiáticas nos EUA têm maior probabilidade de viver perto de auto-estradas, portos e instalações industriais - locais onde os níveis de poluição tendem a ser superiores.

Risco mais alto encontra ar mais poluído

Assim, quem já enfrenta maior risco de demência é, muitas vezes, quem respira o ar mais poluído.

Isto não é coincidência. Reflecte décadas de decisões sobre onde se constrói infra-estrutura e sobre quem fica - ou não - protegido das suas consequências.

Compreender os contributos ambientais para o declínio cognitivo é fundamental para abordar as desigualdades no risco de demência”, disse Rachel Whitmer, co-autora do estudo e co-directora do Centro de Investigação da Doença de Alzheimer da UC Davis Health.

A poluição do ar é uma exposição modificável. Isso torna-a um alvo poderoso para a prevenção - tanto ao nível individual como através de políticas públicas.”

A poluição do ar pode ser reduzida

Ao contrário da idade ou da genética, a poluição do ar é algo que pode mudar.

Carros mais limpos, regras mais exigentes para emissões industriais e melhor planeamento urbano são ferramentas já comprovadas para baixar os níveis de poluição.

Estas escolhas são feitas por governos e empresas, mas respondem à pressão pública - e respondem a evidência científica como a apresentada aqui.

Pequenas mudanças ajudam a diminuir a exposição

Mesmo medidas simples podem reduzir a exposição. Consultar a qualidade do ar, manter as janelas fechadas em dias de fumo e usar um filtro de ar HEPA pode diminuir a quantidade de poluição que se inala.

A mensagem central do estudo é directa: o ar à nossa volta influencia mais do que os pulmões. O cérebro também reage.

À medida que envelhecemos, a qualidade do ar que respiramos pode ter um papel maior na protecção da memória do que muita gente imagina.

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