Em todo o mundo, o sarampo está a aumentar nos EUA, no Canadá, no México, na América do Sul e em partes da Europa. Em 2025, as Américas do Norte e do Sul registaram 11 vezes mais casos do que no mesmo período do ano anterior. Já na Europa, a incidência de sarampo atingiu o nível mais elevado dos últimos 25 anos.
Nos EUA, até 2 de maio de 2025, as autoridades de saúde confirmaram 935 casos de sarampo em 30 estados. Trata-se de um salto muito acentuado face aos 285 casos comunicados em 2024. Também no Canadá decorre um grande surto, com mais de 1.000 casos.
A publicação The Conversation pediu a Rebecca Schein, especialista em doenças infeciosas pediátricas, que explicasse o que pode significar este aumento, dentro e fora do país, numa doença que foi declarada eliminada dos EUA em 2000.
Como se comparam os casos de sarampo deste ano com os de anos anteriores?
Entre 2000 e 2010, foram notificados nos EUA menos de 100 casos de sarampo por ano. A partir de 2010, começaram a surgir surtos pontuais - sobretudo em comunidades não vacinadas - com cerca de 200 a 300 casos anuais. O surto de maior dimensão mais recente antes de 2025 ocorreu em 2019, com 1.274 casos, concentrados principalmente na área metropolitana de Nova Iorque e em partes de Nova Jérsia.
Durante a pandemia de COVID-19, os números baixaram entre 2020 e 2023, e em 2024 regressaram a valores semelhantes aos do período pré-pandemia. Neste momento, a maioria dos casos nos EUA está associada a uma epidemia no Texas, com 702 casos confirmados até 6 de maio.
Desses casos, 91 pessoas foram hospitalizadas e três morreram - duas delas crianças. Continuam a ser reportados novos casos. O Texas é um dos 12 surtos de sarampo registados nos EUA em 2025 até à data.
A Organização Mundial da Saúde declarou que tanto a América do Norte como a América do Sul apresentam alto risco de sarampo. No Canadá, foram comunicados 1.177 casos no total até 19 de abril, sendo 951 associados a um surto iniciado em New Brunswick em outubro de 2024 e que se propagou a sete províncias. Em 2023, em todo o Canadá, tinham sido registados 12 casos de sarampo.
No México, até 18 de abril, estavam confirmados 421 casos de sarampo, com mais 384 sob investigação. Existem ainda pequenos surtos na América do Sul, e Belize registou os seus primeiros dois casos desde 1991. O Brasil notificou cinco casos e, na Argentina, há 21 casos confirmados de sarampo, sobretudo na capital, Buenos Aires.
Na Europa, de acordo com o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças, os casos de sarampo aumentaram dez vezes, atingindo 35.212 em 2024.
Como é que os EUA eliminaram o sarampo?
O sarampo é uma das infeções mais contagiosas alguma vez identificadas. Uma pessoa com sarampo pode transmitir a infeção a 12 a 18 outras. Este valor, a que os epidemiologistas chamam R0, situa-se entre 1 e 4 para a gripe e entre 2 e 5 para a COVID-19.
Em 1912, o sarampo passou a ser uma doença de notificação obrigatória a nível nacional, acompanhada por todos os departamentos de saúde dos EUA. Nessa altura, estimavam-se cerca de 3 milhões a 4 milhões de casos e 6.000 mortes por ano no país. Com a melhoria dos cuidados médicos, a mortalidade diminuiu, mas os casos voltavam a atingir níveis epidémicos a cada dois a três anos.
Só em 1963, quando a primeira vacina contra o sarampo ficou amplamente disponível, é que o número de casos desceu de forma marcada. A vacina atualmente utilizada, conhecida como MMR por incluir também proteção contra a papeira e a rubéola, foi lançada em 1971.
Em 1977, o governo dos EUA criou a Iniciativa Nacional de Imunização Infantil para garantir que as crianças em idade escolar recebiam vacinação contra a poliomielite, difteria, tosse convulsa, tétano, papeira, rubéola e sarampo.
Até 1981, a cobertura vacinal em crianças no início do ensino básico subiu para 96%. A partir de 1993, o programa Vacinas para Crianças ajudou a assegurar que todas as crianças pudessem ser vacinadas, independentemente da capacidade de pagamento.
Os programas de vacinação foram um sucesso inequívoco. Em 2000, os casos de sarampo originados nos EUA tinham caído para zero, ocorrendo infeções sobretudo em pessoas que viajavam para o estrangeiro. Nesse ano, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças declararam que o sarampo tinha sido eliminado no país.
Porque é que o aumento do sarampo é tão preocupante?
O sarampo é um vírus, tal como a constipação comum. Ao contrário das infeções bacterianas - que podem ser tratadas com antibióticos - as infeções virais, regra geral, não têm tratamento específico, embora muitas possam ser prevenidas através de programas de vacinação.
A vacinação ativa o sistema imunitário para produzir anticorpos capazes de combater uma infeção concreta. Para a maioria das pessoas, uma dose da vacina do sarampo já oferece proteção contra a infeção. A segunda dose serve para reforçar e consolidar a proteção a longo prazo.
Como o sarampo se transmite com tanta facilidade, é necessário que 95% da população esteja vacinada para proteger a comunidade - um princípio conhecido como imunidade de grupo.
Contudo, ao longo dos últimos 20 anos, as taxas de vacinação têm vindo a cair em todo o mundo, com uma descida particularmente acentuada durante a pandemia, devido ao menor acesso e contacto com cuidados de saúde.
Em linha com essa tendência, os casos de sarampo nos EUA têm aumentado. Por isso, alguns especialistas em doenças infeciosas receiam que o sarampo esteja a caminho de voltar a ser uma infeção comum.
O que acontece se as taxas de sarampo continuarem a subir?
As autoridades de saúde pública consideram uma infeção endémica quando está presente de forma consistente numa determinada região. Por exemplo, a constipação comum - e atualmente a COVID-19 - são endémicas nos EUA.
Quando uma área regista um número de casos acima do normal, isso é designado por surto. No caso do sarampo, define-se surto como mais de três casos num condado ou numa área local.
Se os casos de um surto ultrapassarem a área local, passa a falar-se de epidemia; e se uma epidemia se expandir a muitos países do mundo, transforma-se numa pandemia.
O surto de sarampo no Texas começou em janeiro de 2025 como um surto em seis condados e rapidamente atingiu dimensão epidémica, chegando a um total de 29 condados e a 702 casos até 6 de maio.
Um estudo de 2022 recorreu a um algoritmo informático para modelar a trajetória dos casos de sarampo nos EUA, tendo em conta a descida das taxas de vacinação durante a pandemia.
O estudo concluiu que, se as crianças que ficaram sem vacinas na pandemia não fizerem a vacinação de recuperação e se a hesitação vacinal se mantiver nos níveis atuais, então 21% das crianças nos EUA - cerca de 15 milhões - ficarão vulneráveis ao sarampo nos cinco anos seguintes. Este valor está muito abaixo do necessário para impedir surtos de sarampo.
Um trabalho com metodologia semelhante, publicado em abril de 2025, indicou que é provável que o sarampo volte a tornar-se endémico nos EUA e estimou que o país poderá registar 850.000 casos nos próximos 25 anos se as taxas de vacinação se mantiverem. Se a vacinação diminuir ainda mais, o estudo apontou que o total pode subir para 11 milhões de casos nos próximos 25 anos.
O que seria necessário para travar o aumento do sarampo?
Inverter esta evolução implicará aumentar de forma sustentada a cobertura vacinal nas comunidades. O estudo de abril de 2025 concluiu que um aumento de 5% nas taxas de vacinação comunitária reduziria o crescimento do número de casos para entre 3.000 e 19.000 ao longo dos próximos 25 anos.
Um outro modelo epidemiológico de estimativa da propagação do sarampo, publicado em fevereiro, previu que, com intervenção precoce durante um surto e apoio dos serviços locais de saúde, é possível conter surtos de sarampo desde que 85% da população esteja vacinada contra a doença.
Para isso, naturalmente, é indispensável garantir acesso contínuo a vacinas infantis gratuitas e acessíveis, bem como recuperar a confiança do público nas vacinas contra o sarampo.
Rebecca Schein, Professora Auxiliar de Pediatria de Doenças Infeciosas, Michigan State University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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