Mundial de Futebol e a intensificação das apostas
A nova campanha dos Jogos Santa Casa procura revestir-se de responsabilidade, mas continua a promover, na prática, uma enorme irresponsabilidade: incentivar ao jogo. Com a chegada do Mundial de Futebol, esta lógica torna-se ainda mais agressiva. Durante semanas, a emoção coletiva é usada como combustível para aumentar apostas, bónus e patrocínios omnipresentes nas transmissões, nos equipamentos e nas redes sociais.
As casas de apostas conhecem bem este padrão: nestes períodos, a fronteira entre apoiar uma equipa e apostar torna-se ténue, e o setor aproveita o momento para empurrar as pessoas para a primeira aposta. É, para elas, o cenário ideal para converter um espectador ocasional num cliente habitual.
O ecossistema do jogo online em Portugal
A expansão acelerada do mercado do jogo - em especial no digital - expõe de forma clara o lado predatório do setor e faz crescer os riscos de dependência, com efeitos visíveis na saúde, na qualidade de vida e nas condições materiais de muitas famílias.
Em Portugal, o jogo online já movimenta cerca de 24 mil milhões de euros, e o jogo ilícito online poderá valer “outro tanto”. A afirmação é do próprio ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida - o mesmo que, há poucos meses, considerava que o tema não justificava nova legislação. Ainda assim, o quadro é inequívoco: estamos perante um ecossistema económico massivo, alimentado por plataformas digitais, publicidade intrusiva, disponibilidade permanente e uma arquitetura concebida para maximizar o tempo de permanência e o consumo.
Campanhas dos Jogos Santa Casa e a falácia do “jogo responsável”
Uma parte relevante do problema está precisamente em campanhas deste tipo, que comunicam a todas as pessoas - algumas com dependência, outras sem, muitas com vidas desfeitas e laços sociais quebrados - que, ao jogarem, estão a “ajudar dois ou três”. Uma mensagem publicitária assim, promovida por uma instituição de solidariedade social central para o país, é de uma irresponsabilidade atroz e não pode passar incólume. Ganham dois ou três, mas quantos ficam a perder pelo caminho?
O crescimento a que temos assistido levou o LIVRE a apresentar propostas para alterar o regime dos jogos online e das apostas. Essas iniciativas foram chumbadas pelo PSD e pelo CDS, que sustentam o atual Governo. Porém, perante os dados, não é possível ficar impávidos e serenos, à espera de que o mercado corrija um problema que ele próprio alimentou. E, em nome da coerência, o Governo continua a dar sinais de lentidão: anuncia agora nova legislação para atualizar as regras do jogo online. Vai tarde.
A aposta agressiva em publicidade e patrocínio no espaço público, na televisão e nos meios digitais, por parte de entidades exploradoras e concessionárias de jogos e apostas, tem contribuído para degradar muitas vidas. As raspadinhas e os chamados “jogos sociais”, explorados pelos Jogos Santa Casa, não são exceção. E a utilização de figuras públicas e influenciadores digitais para normalizar este tipo de consumo apenas intensifica o problema.
Daí que a ideia de que “quem joga pode ganhar” seja, no mínimo, prepotente. A evidência aponta, de resto, no sentido inverso. Para a maioria, sobretudo para quem tem menos rendimentos, jogar funciona como um mecanismo de transferência de dinheiro dos agregados familiares para operadores, intermediários e, em parte, para o Estado, que arrecada receita fiscal, mas raramente assume o custo social integral deste modelo.
Prometem-se histórias de sucesso, riqueza e conforto. Em troca, acumulam-se endividamento, conflitos familiares, ansiedade, perda de produtividade, exclusão social e agravamento de comportamentos aditivos. A narrativa do “jogo responsável” empurra o problema para o plano individual, mas o que está em causa é estrutural - e exige uma resposta estrutural.
A Santa Casa, por imposição, promove também ações de prevenção e disponibiliza mecanismos de autoexclusão e de limitação de gastos. Ainda assim, há uma contradição difícil de contornar: a mesma instituição que fala de prevenção, que presta cuidados de saúde e que, muitas vezes, substitui o Estado onde este falha, continua a alargar a oferta, a reforçar a presença comercial e a investir numa linguagem emocionalmente apelativa para captar mais jogadores.
Não basta dizer às pessoas para “saber parar” quando o próprio desenho do produto as empurra precisamente no sentido contrário. E afirmar que “quando joga um português, ganham logo dois ou três” é, além de chocante, socialmente ofensivo.
O que falta fazer: regulação e políticas públicas
Um debate sério sobre o jogo deve começar por outra pergunta: que políticas públicas são necessárias para proteger as pessoas, em vez de apenas gerir melhor o negócio? Isso implica uma regulação mais exigente da publicidade, mais prevenção junto de jovens e de grupos vulneráveis, mecanismos automáticos de limitação de perdas, fiscalização reforçada sobre plataformas ilegais e financiamento estável para tratamento e acompanhamento psicológico.
Implica também reconhecer um ponto essencial: o Estado não pode ser, simultaneamente, regulador, beneficiário fiscal e promotor do jogo sem criar um conflito evidente de missão.
Quando joga um português, não há vencedores: não ganha a família, não ganha a saúde pública, não ganha a coesão social. Um país sério não deve erradicar a esperança - deve erradicar a pobreza que a torna refém. Não deve vender a saúde - deve assegurá-la. Não deve normalizar a dependência - deve preveni-la e combatê-la. É esse o país que podemos construir. Talvez seja tempo, então, de avançar.
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