Uma base lunar permanente é referida há anos em documentos de planeamento da NASA - com conceitos de rovers, propostas de habitats e sistemas de energia desenhados ao pormenor. Transformar esses planos em contratos assinados é outra história.
Foi precisamente isso que a NASA fez esta semana. Foram fechados dois contratos para rovers, num total superior a $400 million. Houve ainda um acordo para um módulo de alunagem com valor até $468 million. E ficaram agendadas três missões de carga antes do final do ano.
A Base Lunar da NASA ganha forma
Num evento no final de Maio, na sede da agência em Washington, a NASA apresentou o seu plano para a Base Lunar, a primeira presença permanente dos Estados Unidos noutro mundo. Desta vez, a mensagem deixou de assentar em intenções genéricas e passou a apoiar-se em calendários de lançamentos e encomendas de hardware.
Carlos García-Galán, responsável executivo do programa Base Lunar na National Aeronautics and Space Administration (NASA), assume o cargo com 27 anos de experiência em voos espaciais tripulados.
A construção será organizada em três fases, a partir de agora até 2032 e além, com o objectivo de chegar a rotações regulares de tripulações.
A primeira fase, até 2029, é dedicada a reconhecimento e validação em ambiente real. A NASA aponta para até 25 missões nesse período, na sua maioria robóticas, levando cerca de quatro toneladas de equipamento à superfície para perceber o que resiste - e o que falha.
Novos rovers seguem para a Lua
Duas empresas norte-americanas garantiram a tarefa de desenvolver os primeiros veículos lunares. A NASA adjudicou $219 million à Astrolab e $220 million à Lunar Outpost para entregarem os primeiros rovers lunares que os astronautas irão conduzir na superfície.
O veículo da Astrolab pesa cerca de 910 kg (2,000 pounds) e atinge velocidades até aproximadamente 9,7 km/h (6 mph) em terreno plano. Pode transportar astronautas e carga e também operar sem tripulação entre visitas humanas. O conceito parte de uma plataforma de rover já existente.
O Pegasus, da Lunar Outpost, é mais leve e mais rápido, superando cerca de 14,5 km/h (more than 9 mph), e foi concebido para trabalhar até um ano.
A condução pode ser feita pelos astronautas, mas, quando não houver tripulação, o controlo pode passar para um operador remoto na Terra. Existe ainda a possibilidade de condução autónoma, recorrendo a tecnologia com origem em hardware da era Apollo.
As duas equipas dispõem de 18 meses para fechar os projectos, realizar avaliações com tripulação e certificar as máquinas para voo. Colocar ambos os rovers em operação cedo permitirá à NASA recolher dados valiosos sobre o terreno antes de qualquer astronauta sair de um módulo de alunagem, reforçando a meta da agência de assegurar mobilidade tripulada à superfície até 2028.
As entregas lunares vêm primeiro
O transporte destes rovers para o Pólo Sul será feito por um conjunto distinto de módulos de alunagem. A NASA atribuiu $188 million à Blue Origin, com uma opção no valor de mais $280 million, para colocar o equipamento na superfície antes da chegada de astronautas.
Já estão definidas três missões iniciais. A primeira, apontada para o outono de 2026, no mínimo, usará um módulo da Blue Origin para alunar perto da Cratera Shackleton e medir de que forma o escape dos motores perturba o solo lunar.
Esse módulo concluiu recentemente testes ambientais no Johnson Space Center da NASA. A segunda missão irá transportar mais de 500 kg (1,100 pounds) de carga a bordo de um veículo diferente.
A terceira missão vai estudar as enigmáticas faixas brilhantes à superfície, conhecidas como redemoinhos lunares, utilizando instrumentos fornecidos por parceiros europeus e coreanos. E estas três missões representam apenas o arranque.
Ao longo deste ano, serão anunciadas mais de uma dúzia de missões adicionais, cada uma desenhada para produzir dados operacionais antes de qualquer alunagem com astronautas. A NASA está a tratar cada voo como um bloco de construção, usando os resultados de uma missão para orientar a seguinte.
Saltos sobre crateras lunares
Um dos componentes mais invulgares do programa passa pelo voo. Uma missão da NASA denominada MoonFall irá enviar quatro pequenos drones para efectuarem saltos curtos sobre zonas demasiado íngremes ou acidentadas para qualquer rover conseguir alcançar.
O Jet Propulsion Laboratory da NASA, no sul da Califórnia, desenvolveu e testou o hardware destes drones.
A agência escolheu a Firefly Aerospace para construir a nave espacial que levará os drones até à Lua. O lançamento está previsto para 2028.
Cada drone irá alunar de forma independente e recolher imagens de alta resolução ao longo de um único dia lunar. Depois do último salto, uma carga útil concebida para sobreviver à noite continuará a operar durante meses, mantendo uma presença dos EUA no pólo muito depois de terminarem os voos.
Um local privilegiado para exploração
A escolha do Pólo Sul não é aleatória. Existem áreas que beneficiam de longos períodos de luz solar, o que favorece uma produção de energia solar mais constante e temperaturas mais estáveis para equipamento que tem de funcionar durante anos.
A poucos passos, o cenário muda por completo. As crateras profundas da região permanecem em sombra permanente há milhares de milhões de anos, com frio suficiente para levar os cientistas a acreditar que o gelo de água se manteve preservado no interior.
As temperaturas vão de mais de 54°C (130°F) em zonas iluminadas até cerca de -203°C (-334°F) dentro dessas crateras.
Esse gelo é o alvo principal. Preso no seu interior poderá estar um registo de como a água e outros materiais se deslocaram pelo sistema solar.
E pode também tornar-se um recurso decisivo para a exploração futura. Um dia, os cientistas poderão converter esse gelo em água potável, oxigénio respirável ou combustível de foguetões produzido no local, em vez de transportado desde a Terra.
A Base Lunar deixa de ser teoria
Antes deste anúncio, a Base Lunar era sobretudo um conceito com um nome. Agora, passa a ter contratos assinados, compromissos orçamentais, naves identificadas e calendários de lançamento - a diferença entre um roteiro e um programa em execução.
Se as primeiras missões correrem bem, os astronautas do Artemis poderão explorar mais superfície lunar do que qualquer tripulação do Apollo.
Algumas das formações mais antigas do sistema solar ficariam ao alcance da comunidade científica. Em paralelo, os engenheiros poderiam, finalmente, verificar se as equipas conseguem viver com recurso a materiais e energia obtidos na própria Lua.
O que for aprendido aqui irá influenciar todos os planos de longo prazo para enviar pessoas a Marte. As máquinas destinadas a transportar futuras tripulações deixaram de ser apenas desenhos: são projectos financiados e com prazos definidos.
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