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Micheline Bernardini e o biquíni de 1946 que chocou Paris

Mulher em fato de banho vintage posa junto à piscina enquanto homens tiram fotografias e anotam observações.

Micheline Bernardini, bailarina no Casino de Paris, aceitou aquilo que nenhuma manequim se atreveu a fazer: apresentar-se numa piscina com apenas dois pequenos pedaços de tecido a cobrir-lhe as partes íntimas. Sem o planear, esse gesto ajudou a abrir espaço para uma relação menos pudica com o corpo feminino.

5 de julho de 1946: o biquíni na Piscine Molitor

A 5 de julho de 1946, em Paris, numa piscina elegante da capital francesa, uma jovem de 19 anos, de cabelo comprido ao vento e figura esguia, posa com tranquilidade para os fotógrafos. Com um sorriso sereno, enfrenta convenções e pudores e deixa o mundo boquiaberto ao surgir com um biquíni - um fato de banho composto por duas peças mínimas que lhe tapavam apenas as partes íntimas.

Hoje, a ideia de ter de explicar o que é um biquíni soa quase ridícula. Naquele momento, porém, tratava-se de algo totalmente fora do mapa.

Louis Réard e a invenção chamada "biquíni"

Para perceber o choque, é preciso enquadrar a época: nem um ano tinha passado desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a Europa ainda recuperava, os racionamentos marcavam o quotidiano e a moral pública permanecia presa a costumes profundamente conservadores.

Apesar disso, havia quem antecipasse um futuro com mais pele à vista. Louis Réard, engenheiro e designer de moda, foi um desses. Desenhou então um fato de banho minimalista, consciente de que a proposta tinha tudo para provocar escândalo.

O próprio nome foi pensado para amplificar o impacto. Réard baptizou a peça de biquíni, numa alusão ao atol de Bikini, no Pacífico, onde os Estados Unidos conduziam testes nucleares. A comparação era clara: queria que a novidade tivesse uma repercussão mediática comparável à de uma bomba atómica - num contexto em que as bombas de Hiroshima e Nagasáqui tinham sido lançadas poucos meses antes.

Micheline Bernardini, do Casino de Paris ao furor mediático

A analogia pode ter sido, no mínimo, pouco feliz, mas a previsão quanto à comoção revelou-se certeira. E o choque começou ainda antes da apresentação pública.

A ousadia de duas peças tão pequenas era tal que Réard esbarrou num obstáculo imediato: não encontrou uma única manequim disposta a vestir a sua criação. Foi aí que teve de improvisar.

A solução estava na jovem que viria a fazer sensação na Piscine Molitor. Chamava-se Micheline Bernardini, nascera em Colmar, perto da fronteira alemã, trabalhava como bailarina no Casino de Paris e, nos espectáculos, despia-se com frequência. Por isso, desfilar ao lado de uma piscina com um biquíni não lhe pareceu um desafio fora do comum.

Para o resto do mundo, a reacção foi outra. A apresentação de Réard e Bernardini tornou-se um fenómeno global: a notícia correu o planeta, gerou um enorme alvoroço mediático e deixou milhares de corações masculinos a palpitar pela "senhora biquíni". Em poucas semanas, a jovem recebeu perto de 50 mil mensagens de fãs, encantados com a imagem da francesa que passeou pela piscina com dois escassos pedaços de pano.

Entre admiração e desejo, não faltou também quem a atacasse - invocando precisamente a moral hiperconservadora que dominava a época.

O desaparecimento e o regresso em 1986 com Peter Turnley

Ainda assim, a celebridade foi breve. Micheline mudou-se para a Austrália e saiu do radar durante décadas; do seu percurso, ficou apenas a informação de que continuou ligada à dança.

Quarenta anos mais tarde, em 1986, voltou a aparecer perante as câmaras. Já com quase 60 anos, aceitou ser fotografada por Peter Turnley, fotojornalista franco-americano reconhecido por retratar figuras marcantes, de Nelson Mandela a Mikhail Gorbachev, de Lady Di a Barack Obama. No ensaio, Bernardini surge a segurar a imagem icónica que tinha dado a volta ao mundo quatro décadas antes.

Quanto ao biquíni, não há dúvidas de que se impôs e se tornou banal, acabando por representar liberdade e emancipação feminina. Esse caminho, porém, levou décadas e não teria sido o mesmo sem o impulso de actrizes consagradas como Brigitte Bardot ou a "bondgirl" Ursula Andress.

Depois de aceitar o convite de Turnley, Bernardini voltou a desaparecer da esfera mediática. Sabe-se apenas que continua viva, que soma 98 anos e que alterou para sempre o paradigma dos fatos de banho - mesmo que, no momento em que aceitou aquele passeio à beira da piscina em trajes menores, não tivesse qualquer intenção revolucionária. Mais tarde, contou que simplesmente achou o biquíni "bonito".

Campo Informação
Cargo Antiga bailarina
Nascimento 01/12/1927 (98 anos)
Nacionalidade Francesa (Colmar)

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