Um dos suplementos mais procurados nos EUA poderá estar associado a um efeito secundário inesperado, de acordo com uma investigação recente.
Apesar de ser frequentemente divulgado como uma ajuda para dormir considerada segura, a melatonina é um suplemento à base de hormona que muitas pessoas conseguem comprar sem receita e tomar quase sem pensar.
Ainda assim, resultados preliminares estão a levar alguns cientistas a questionar o que acontece quando o consumo deixa de ser pontual e passa a ser um hábito prolongado.
Melatonina e risco de insuficiência cardíaca: o que encontrou a análise
Uma análise recente focada em adultos com insónia relacionou a prescrição de melatonina por mais de um ano com um aumento do risco de problemas cardíacos.
Entre mais de 130,000 adultos de vários países, quem teve melatonina prescrita durante longos períodos apresentou, nos cinco anos seguintes, maior probabilidade de insuficiência cardíaca e de morte do que quem não teve prescrição.
Em concreto, o trabalho indica que os participantes com prescrição de melatonina por mais de um ano tiveram um risco 89% superior de insuficiência cardíaca ao longo de cinco anos e foram cerca de duas vezes mais propensos a morrer por qualquer causa.
Veja o excerto abaixo para um resumo das conclusões.
A investigação - que ainda não foi revista por pares - foi apresentada em novembro passado nas Sessões Científicas da Associação Americana do Coração.
Por agora, os resultados são preliminares e não alteram as recomendações de saúde atualmente em vigor.
Também não demonstram que a melatonina - o quarto produto natural mais consumido por adultos nos EUA - esteja a provocar consequências perigosas.
No entanto, os dados apontam para a necessidade de estudar com mais rigor a utilização a longo prazo.
Porque é que a melatonina é considerada “segura” e onde faltam dados
Em geral, a melatonina é vista como segura e bem tolerada quando usada por pouco tempo por pessoas que não estejam grávidas nem a amamentar. Tipicamente, isso corresponde a cerca de 1 a 2 meses.
Depois desse período, existem poucos estudos robustos sobre efeitos prolongados - algo que, segundo alguns investigadores, deveria ser corrigido, sobretudo numa altura em que o suplemento se torna cada vez mais popular.
"Os suplementos de melatonina podem não ser tão inofensivos como se assume frequentemente", afirmou o cientista médico Ekenedilichukwu Nnadi, do serviço de Cuidados de Saúde Primários de Kings County/SUNY Downstate, em Nova Iorque.
Um suplemento de melatonina imita uma hormona produzida naturalmente pelo cérebro, importante para manter o relógio interno do organismo a funcionar. Ao tomar este substituto no final do dia, algumas pessoas conseguem adormecer mais depressa e manter o sono.
Nos EUA e em muitos outros países, a melatonina está disponível sem receita, o que permite que os doentes a utilizem sem orientação médica ou supervisão quanto à dose e à duração do consumo.
Embora alguns estudos apontem para a segurança da utilização prolongada, falta investigação abrangente.
Como o estudo foi feito e o que os registos sugerem
Na análise recente, Nnadi e colegas avaliaram registos clínicos eletrónicos de adultos nos EUA e noutros países, incluindo o Reino Unido, onde a melatonina só está disponível mediante receita.
Numa análise secundária, concluiu-se que quem tomou melatonina por mais de um ano foi quase 3.5 vezes mais propenso a ser hospitalizado por insuficiência cardíaca, em comparação com quem não tomava melatonina.
Além disso, o risco de morrer por qualquer causa aumentou de 4.3% para 7.8% entre os grupos.
"Os suplementos de melatonina são amplamente vistos como uma opção segura e 'natural' para apoiar um melhor sono", disse Nnadi.
"Por isso, foi impressionante ver aumentos tão consistentes e significativos em resultados de saúde graves, mesmo depois de equilibrar muitos outros fatores de risco."
Limitações e cautelas na interpretação dos resultados
Apesar de preocupantes, estes resultados devem ser lidos com prudência, porque há uma limitação importante no método.
Os participantes não foram questionados diretamente sobre a utilização de melatonina.
Em vez disso, a equipa recorreu aos registos de prescrição para estimar quem estaria a tomar o suplemento.
Isto significa que o grupo de controlo - composto por pessoas a quem não foi prescrita melatonina - pode ter incluído indivíduos nos EUA que a compraram sem receita e a tomaram sem prescrição.
Carlos Egea, presidente da Federação Espanhola das Sociedades de Medicina do Sono, que não participou no estudo, salientou este ponto numa reação de especialista à investigação.
Ainda assim, defendeu que as associações observadas merecem ser levadas a sério.
"Estas conclusões desafiam a perceção da melatonina como uma terapia crónica benigna e apenas sublinham a necessidade de um ensaio prospetivo com um grupo de controlo para clarificar o seu perfil de segurança", argumentou Egea.
Mesmo a curto prazo, há possíveis desvantagens
Mesmo quando usada por períodos curtos, a melatonina pode ter aspetos negativos que muitos utilizadores desconhecem.
Por exemplo, uma série de sobredosagens não fatais em crianças na Austrália levantou dúvidas sobre o perfil de segurança do suplemento em determinadas faixas etárias.
Os produtos de melatonina podem basear-se numa hormona natural, mas isso não significa que estejam isentos de risco.
"Se o nosso estudo for confirmado, isto poderá influenciar a forma como os médicos aconselham os doentes sobre ajudas para dormir", afirmou Nnadi.
As conclusões foram apresentadas nas Sessões Científicas da Associação Americana do Coração.
Uma versão anterior deste artigo foi publicada em novembro de 2025.
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