A ambição assumida da NASA com o programa Artemis passa por criar uma base permanente na Lua. Só que, para lá viver, será indispensável resolver um problema muito terreno: a alimentação, sem depender indefinidamente de carregamentos enviados a partir da Terra. Investigadores norte-americanos acabam de dar um passo animador no sentido de tornar possíveis culturas lunares mais autónomas.
Com o programa Artemis, a NASA prepara de forma activa um regresso sustentado ao satélite natural, com a instalação de uma presença contínua. Esta estratégia, porém, traz consigo uma questão essencial: de que forma alimentar os astronautas no local?
Contar apenas com reabastecimentos vindos da Terra não é uma solução duradoura, quer por razões de custo, quer por limitações logísticas. Por isso, será necessário produzir alimentos no próprio destino - algo que a humanidade domina através da agricultura. O obstáculo é que, para cultivar, é preciso um substrato adequado.
Porque é que o regolito lunar não é um solo agrícola
Na Lua, a “terra” é sobretudo regolito: uma camada fina de poeiras e fragmentos rochosos formada ao longo de milhares de milhões de anos, sob impacto contínuo de meteoritos e exposição à radiação cósmica. O problema é que este material está longe de se comportar como um solo cultivável: não tem matéria orgânica nem micro-organismos.
Além disso, o regolito lunar contém metais potencialmente tóxicos - como alumínio, cobre ou zinco - e, para agravar, tem pouca capacidade de reter água. Embora existam alguns nutrientes importantes, a sua disponibilidade para as plantas é limitada. Ainda assim, uma equipa de cientistas poderá ter encontrado uma forma de contornar parte destas limitações.
Cultivo de grão-de-bico
Num estudo publicado a 5 de março na revista Scientific Reports, investigadores da University of Texas e da Texas A&M descrevem uma abordagem inovadora para tirar partido do regolito lunar, procurando transformá-lo com base em técnicas de regeneração de solos amplamente usadas na Terra.
Para isso, combinaram um simulante de regolito lunar com vermicomposto, um fertilizante natural produzido por minhocas a partir de resíduos orgânicos. Ao mesmo tempo, adicionaram fungos micorrízicos arbusculares, ou AMF. Estes organismos, comuns em solos terrestres, são conhecidos por favorecerem a circulação de nutrientes, ajudarem a mitigar a toxicidade de metais pesados e contribuírem para uma estrutura de solo mais estável.
Com este substrato melhorado, a equipa cultivou grão-de-bico. Os resultados foram promissores: as plantas floresceram e produziram sementes em misturas com até 75% de regolito, desde que tivessem sido inoculadas com os fungos. Ainda assim, persistem dúvidas. “Queremos compreender a viabilidade destas culturas como fonte alimentar. São nutritivas? São seguras para consumo?”, questiona Jessica Atkin, doutoranda na Texas A&M e co-autora do estudo.
Próximas análises e outras soluções em estudo
O passo seguinte passa por analisar a composição das sementes obtidas e por testar várias gerações de cultivo, de forma a optimizar o processo. Apesar do trabalho em aberto, um ponto já ficou demonstrado: os fungos sobreviveram e conseguiram colonizar o regolito, o que sugere que determinados organismos terrestres podem estabelecer-se neste tipo de ambiente.
Importa ainda notar que existem várias vias a ser consideradas para alimentar astronautas em missões futuras e mais distantes. Entre as alternativas estudadas estão os insectos e até a urina da tripulação (sim, leu bem).
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