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Esporotricose no Brasil: *Sporothrix* detetado em animais atropelados na BR-376 e PR-445

Veterinária examina serval atropelado na berma de estrada com equipamento científico e carro ao fundo.

A esporotricose é uma doença fúngica que, regra geral, começa por uma ferida na pele e pode avançar para camadas mais profundas do organismo. Transmite-se com facilidade de gatos infetados para pessoas, e o Brasil tem visto o número de casos aumentar ao longo de anos.

Até agora, a maior parte da atenção tem recaído sobre os gatos domésticos como principal fonte. No entanto, um novo levantamento em fauna selvagem sugere que o cenário real é bem mais amplo.

Uma equipa analisou animais mortos por atropelamento em duas vias rápidas e encontrou o fungo responsável pela doença em locais inesperados. Surgiu em aves, em mamíferos e até numa serpente.

Animais atropelados tornam-se uma ferramenta de vigilância

O Brasil perde todos os anos um número enorme de animais selvagens devido ao tráfego rodoviário. Estima-se que ocorram 1.3 million mortes por atropelamento por dia, o que ultrapassa 475 million por ano.

Na maioria dos casos, estas carcaças são apenas removidas da estrada. Para esta equipa, porém, representam uma fonte contínua, barata e acessível de informação sobre a saúde da vida selvagem.

O trabalho nasceu de um projecto de longa duração liderado pela State University of Londrina (UEL), com as amostras analisadas na Federal University of São Paulo (UNIFESP).

As recolhas decorreram ao longo de duas estradas no Paraná, a BR-376 e a PR-445, ambas a atravessarem a Mata Atlântica.

As carcaças eram recolhidas poucas horas após cada colisão. Essa rapidez foi crucial, porque órgãos intactos tinham menor probabilidade de entrar em decomposição ou de se contaminarem com fungos presentes no solo circundante.

Fungo Sporothrix detetado em animais

Entre 2017 e 2023, a equipa reuniu 81 animais: 39 mamíferos, 36 aves e seis répteis. A partir deles, recolheu 178 amostras de tecido do coração, fígado, pulmões e baço.

Cada amostra foi submetida a um teste rápido de ADN que rastreou, em simultâneo, três espécies nocivas de Sporothrix. O fungo foi identificado em 11 animais, ou 13.6 por cento do total, abrangendo as três classes.

O coração e o fígado foram os locais mais frequentes, com resultados positivos em seis e cinco animais, respetivamente. Este padrão aponta para infeção interna, e não apenas para contacto superficial.

Fungo atingiu órgãos internos dos animais

“Conseguimos detetar o ADN do fungo em tecidos internos, como o fígado e o coração, o que indica que está a circular no organismo”, afirmou Steffanie Skau Amadei, doutoranda na McGill University e primeira autora do estudo.

“Além disso, avaliámos apenas órgãos anatomicamente intactos que não estavam expostos ao ambiente, que poderia ser uma fonte de contaminação.”

A distribuição do fungo também ajuda a afastar uma via de exposição comum. A presença de ADN no coração e no fígado, em vez de nos pulmões, é um argumento contra a hipótese de os animais terem simplesmente inalado esporos.

As três espécies não surgiram com a mesma frequência. S. schenckii foi a mais comum, detetada em oito amostras de sete animais diferentes, enquanto as outras duas apareceram em menos hospedeiros, mas em casos inesperados.

Aves contrariam a barreira da temperatura

“Existe uma ideia dominante de que as aves estão protegidas de fungos patogénicos simplesmente porque têm uma temperatura corporal elevada, até 42°C, o que tornaria impossível a sobrevivência dos fungos. Vimos neste estudo que as espécies patogénicas toleram, de facto, temperaturas corporais elevadas”, disse Amadei.

Sporothrix brasiliensis, a espécie associada à maioria dos casos ligados a gatos no Brasil, foi encontrada em duas aves: a rolinha-picui e o inhambu-chintã.

Como muitas aves percorrem grandes distâncias, podem transportar o fungo para muito além do local onde o adquiriram. Essa possibilidade tornaria qualquer disseminação futura muito mais difícil de conter.

Uma serpente entre os hospedeiros

Uma falsa cobra-coral também testou positivo, tornando-se o primeiro réptil conhecido a albergar estas espécies. No seu corpo, foi identificado ADN de duas espécies de Sporothrix ao mesmo tempo.

Em levantamentos anteriores, os répteis quase nunca eram avaliados para este fungo. A serpente pode tê-lo adquirido ao consumir presas infetadas, ou por simples contacto através da pele.

Sporothrix globosa, a mais rara das três espécies fúngicas no Brasil, também foi detetada numa cutia. Este roedor, que vive junto ao solo, enterra sementes e provavelmente entra em contacto com o fungo ao procurar alimento na terra.

Animais predadores transportam o fungo

Um resultado teve especial relevância para a conservação. Um gato-do-mato-pequeno do sul, espécie em risco, apresentava o fungo no coração e não na pele.

A localização da infeção é particularmente importante. Nos gatos, a doença manifesta-se normalmente com feridas cutâneas; por isso, um achado no coração sugere uma infeção mais profunda e disseminada num predador selvagem vulnerável.

Outros mamíferos mais adaptáveis também deram positivo, incluindo a lebre-europeia e o gambá-de-orelha-branca.

Animais com este perfil deslocam-se frequentemente entre a floresta e áreas habitadas, podendo funcionar como ponte entre a transmissão no meio selvagem e no meio urbano.

Onde o selvagem encontra o humano

O fungo foi identificado com maior frequência perto de zonas de transição entre áreas selvagens, rurais e urbanas. São precisamente estas margens onde é mais provável que animais selvagens e domésticos se cruzem.

“Estamos a assistir ao surgimento de Sporothrix em novos hospedeiros. A pressão humana sobre o ambiente está a esbater as fronteiras entre o rural, o urbano e o selvagem”, afirmou Anderson Messias Rodrigues, coordenador do estudo.

A deteção esteve associada ao tipo de estrada e ao contacto com animais domésticos, e não à espécie do animal nem ao seu estatuto de conservação.

A vigiar o próximo surto

A equipa descreve a análise de animais atropelados como um sistema de alerta precoce de baixo custo. Enquadra-se no conceito de Uma Só Saúde, que liga de forma estreita a saúde humana, animal e ambiental.

Este método permite ainda chegar a espécies discretas, como os felinos selvagens, difíceis de estudar por outras vias. Ainda assim, permanece uma questão importante em aberto.

“Não foi possível determinar se os fungos estavam na sua forma patogénica nos animais selvagens, mas é claro que estão a circular de forma mais ampla do que imaginávamos, representando um risco potencial para a saúde humana e animal”, disse Rodrigues.

Confirmar se estes animais estavam realmente doentes exigirá, no futuro, análises de tecido mais detalhadas. De qualquer forma, a orla da floresta parece hoje um ponto de passagem muito mais ativo para este tipo de fungo do que se esperava.

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