O seu gato a envelhecer pode partilhar consigo mais do que um lugar quente no sofá. Um novo trabalho indica que gatos e pessoas percorrem a velhice por trajetos surpreendentemente semelhantes.
Os cérebros de gatos mais velhos diminuem de tamanho e reorganizam-se de forma muito parecida com os cérebros humanos. Essa coincidência pode transformar gatos domésticos comuns em parceiros valiosos para estudar como envelhecemos.
Foi a partir daqui que a equipa colocou uma pergunta concreta: será que um gato consegue algum dia atingir o equivalente a um humano na casa dos 80 anos?
Gatos envelhecem como pessoas
Para chegar a uma resposta, os investigadores reuniram 3.754 pontos de dados obtidos em gatos, humanos e outros mamíferos.
O conjunto incluía exames ao cérebro, química do sangue, padrões de doença e marcos iniciais do desenvolvimento, como a abertura dos olhos.
O objetivo foi desenhar um mapa de como o envelhecimento se desenrola, de facto, entre espécies. Em vez de recorrer a equivalências arbitrárias, a equipa deixou que a biologia orientasse a comparação.
Vidas longas e números enormes
Os gatos destacavam-se como candidatos por duas razões.
Por um lado, vivem muito tempo: os mais velhos podem chegar a cerca de 30 anos. Por outro, estima-se que existam 600 milhões de gatos em todo o mundo.
Esta combinação é mais importante do que parece. Uma vida longa permite que um gato chegue a idades muito avançadas; e a abundância significa que há muitos animais disponíveis para estudo.
Cérebros encolhem de forma semelhante
Foi a imagiologia por ressonância magnética (RM) que mostrou a sobreposição mais nítida.
Em gatos idosos e em pessoas idosas surge o mesmo padrão geral de perda de volume cerebral, incluindo a expansão de espaços cheios de líquido, chamados ventrículos.
No caso felino, o desenho dessas alterações parecia muito próximo do que se observa em humanos na faixa dos 80 anos. Um gato de 16 anos apresentava mudanças cerebrais que espelhavam as de uma pessoa de 88 anos.
Brier Rigby Dames é investigadora associada e participou na análise na University of Bath.
“Foi interessante ver que os gatos mostram padrões de atrofia cerebral relacionada com a idade semelhantes aos observados em humanos”, disse Rigby Dames.
“Estas conclusões juntam-se a um conjunto crescente de evidências de que os animais de companhia podem oferecer perspetivas valiosas sobre o envelhecimento.”
Sinais de envelhecimento comuns vão além do cérebro
A redução do volume cerebral foi apenas o ponto de partida.
A equipa analisou também estruturas específicas, como a ponte de tecido que liga as duas metades do tálamo e a forma como as dobras se distribuem pela superfície do cérebro.
Em gatos e humanos, todos estes elementos se alteraram com a idade de modo comparável. A semelhança apareceu igualmente em análises sanguíneas de rotina, onde certos marcadores aumentavam ou diminuíam seguindo um calendário partilhado.
E as coincidências não se ficaram pelo cérebro. Gatos mais velhos desenvolvem cataratas, articulações rígidas e dolorosas e agregados de proteínas há muito associados à doença de Alzheimer nas pessoas.
Uma nova forma de comparar idades
A regra popular costuma ser simples: um ano de gato equivale a um número fixo de anos humanos.
A equipa optou por não usar esse atalho. Em vez disso, construiu um modelo biológico assente em alterações mensuráveis ao longo da vida.
Esse modelo sugere que o envelhecimento não avança a um ritmo constante: acelera e abranda em diferentes fases.
Gatos de meia adolescência correspondem a humanos na casa dos 80
A correspondência foi mais forte na parte final da vida. Um gato na meia adolescência aproxima-se de um humano na casa dos 80.
A relação também se verifica em idades mais jovens. Um gatinho recém-nascido equivale, de forma aproximada, a um feto humano perto das 40 semanas, enquanto um gato de seis meses se enquadra algures no primeiro decénio de vida de uma pessoa.
Nem todos os animais conseguem chegar tão longe. Poucos chimpanzés ultrapassam os 40 anos, e poucos ratos atingem o equivalente humano à meia-idade; já os gatos domésticos atravessam, com frequência, a fronteira que corresponde à velhice humana.
Gatos domésticos envelhecem como gatos selvagens
Viver ao lado de pessoas durante milhares de anos poderia, em teoria, ter alterado a forma como os gatos envelhecem. A equipa encontrou poucos indícios disso.
Gatos domésticos e os seus parentes selvagens parecem desenvolver-se praticamente ao mesmo ritmo. Até as raças de pedigree acompanharam os gatos comuns, passo a passo.
Em suma, o modo como os gatos crescem e envelhecem parece estar profundamente “programado”. Essa consistência torna-os um ponto de referência estável para estudar a idade.
Gatos de companhia chegam a idades avançadas
Os investigadores compararam gatos que vivem como animais de companhia com gatos mantidos em colónias de investigação.
Os gatos de companhia levados para exames eram muito mais velhos, muitas vezes já bem dentro da adolescência tardia, ao passo que os gatos das colónias raramente ultrapassavam cerca de 10 anos.
Esses gatos de companhia mais idosos foram também os que exibiram maior atrofia cerebral - o que torna os seus registos particularmente úteis para quem procura compreender mudanças associadas às últimas fases da vida humana.
Porque é que os animais de companhia superam os animais de laboratório
Uma parte considerável da investigação sobre envelhecimento continua a depender de animais de laboratório, em que doenças são induzidas e a esperança de vida é curta.
Os gatos de companhia contornam essas duas limitações, porque envelhecem naturalmente em casas reais.
Além disso, cada vez mais tutores pedem exames avançados ao cérebro para avaliar o envelhecimento dos seus animais. Essa procura crescente pode abrir novas oportunidades para a ciência.
“Este acesso clínico alargado cria oportunidades significativas para investigação translacional (investigação que faz a ponte entre descobertas científicas e cuidados de saúde), melhorando a nossa compreensão do envelhecimento e da doença neurológica de formas que podem beneficiar tanto pacientes felinos como humanos”, afirmou o Dr. Ryan Gibson, neurologista veterinário na Auburn University.
Questões que ainda ficam em aberto
O panorama ainda está longe de completo. As colónias de investigação raramente foram acompanhadas para lá da adolescência, o que impediu a equipa de comparar totalmente o envelhecimento cerebral entre gatos de companhia e gatos de laboratório.
Também não foi possível determinar se fatores como ambiente, saúde ou genética aceleram esse declínio. E continuam a faltar ferramentas para medir perda de memória em gatos.
Serão necessários testes mentais melhores antes de se poder afirmar se alguns gatos envelhecem mais depressa na mente do que no corpo.
O que isto significa para a medicina
A esperança da equipa é que a medicina veterinária e a medicina humana passem a colaborar de forma muito mais estreita. Partilhar conhecimento pode acelerar a compreensão de problemas como a demência.
Uma das propostas passa por criar grandes bases de dados de saúde para animais de companhia, inspiradas nas que já existem para pessoas.
“Há potencial para desenvolver bases de dados de saúde veterinária em grande escala para animais de companhia, análogas às bases de dados de saúde humanas como a UK Biobank”, disse Rigby Dames.
“Recursos deste tipo podem reforçar a nossa capacidade de estudar o envelhecimento e a doença usando dados clínicos do mundo real e informação reportada por tutores, recolhidos entre espécies.”
Por agora, a ideia é simples e, ao mesmo tempo, inesperada: o gato que dorme na sua cama pode ser uma das melhores janelas que temos para compreender os nossos próprios anos finais.
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