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O que o make-up revela sobre a personalidade: estudo brasileiro com 1410 mulheres

Mulher a aplicar maquilhagem com pincel, sentada à mesa com espelho num quarto luminoso.

De manhã, quase sem pensar, muita gente pega na base, dá uma passagem rápida de máscara de pestanas, talvez ainda refine o eyeliner - e segue com o dia como se nada fosse. Uma grande investigação com mais de mil mulheres vem agora sugerir o seguinte: a forma como, com que frequência, com que intensidade e em que situações usamos make-up está muito ligada à nossa personalidade. Incluindo traços menos agradáveis, aqueles que raramente admitimos em voz alta.

O make-up é mais do que moda - reflete o carácter

É claro que tendências, redes sociais e referências culturais influenciam a maneira como as pessoas se maquilham. Nos anos 90, mandavam as sobrancelhas finas; nos anos 2010, o contorno (contouring); mais recentemente, a estética “clean girl”. Ainda assim, nem todas as mulheres se maquilham da mesma forma: há quem não saia de casa sem batom vermelho, quem quase não use nada e quem mude bastante consoante a ocasião.

Foi precisamente essa variabilidade que uma equipa de investigação no Brasil decidiu analisar com mais detalhe. Para isso, 1410 mulheres responderam a um questionário online. Preencheram testes padronizados de personalidade, incluindo os conhecidos “Big Five” (extroversão, amabilidade, conscienciosidade, abertura e estabilidade emocional) e instrumentos sobre a chamada “tríade negra”: narcisismo, maquiavelismo e psicopatia.

Além disso, as participantes indicaram com que frequência se maquilhavam, quanto tempo dedicavam ao processo, quanto dinheiro gastavam em produtos e de que forma o make-up mudava conforme o contexto - por exemplo, no trabalho, com amigos, num encontro (date) ou quando estavam sozinhas em casa.

“O make-up não é apenas decoração - funciona como armadura social, palco e, por vezes, também como máscara para inseguranças.”

Quando é que as mulheres recorrem mais ao pincel

Um resultado parece óbvio, mas ficou claramente confirmado: quando estão sozinhas, a maioria das mulheres usa muito menos make-up; assim que há outras pessoas envolvidas, o nível de maquilhagem sobe de forma evidente.

O contexto com maior “investimento” é o primeiro encontro. Aí, muitas mulheres maquilham-se de forma mais marcada e deliberada do que no dia a dia. O objectivo é claro - causar boa impressão, parecer mais atraente, sentir-se mais confiante.

O lado realmente interessante surge quando se observa que tipos de personalidade ajustam o make-up de modo mais intenso ao ambiente - e quem tende a manter um estilo mais constante.

Narcisismo: quando o espelho vira o melhor amigo

As mulheres com pontuações mais elevadas em narcisismo destacaram-se de forma nítida. Neste enquadramento, traços narcísicos significam: forte necessidade de admiração, grande foco na própria imagem e elevada atenção ao modo como se é percebida pelos outros.

De acordo com o estudo, mulheres com maior expressão de narcisismo apresentaram sobretudo estas tendências:

  • Dedicam mais tempo ao make-up.
  • No geral, usam produtos com mais frequência e de forma mais chamativa.
  • Gastam mais dinheiro em cosmética.
  • Ajustam o styling de forma particularmente forte em situações em que vão conhecer pessoas novas.

Em ocasiões em que querem impressionar - como no primeiro encontro, em festas ou em eventos profissionais de networking - ainda intensificam mais o visual. Assim, o make-up transforma-se numa ferramenta intencional para captar atenção e gerir a imagem que projetam.

Extrovertidas: palco em vez de escudo

Também as mulheres mais extrovertidas - ou seja, pessoas sociáveis, comunicativas e activas - tendem a investir mais dinheiro em make-up. No caso delas, porém, o impulso parece ser diferente. A maquilhagem funciona mais como uma forma de expressar a personalidade e de se sentirem bem, e não tanto como um mecanismo para “jogar” tacticamente com cada contexto.

Por isso, preferem com frequência looks mais arrojados ou experimentais, mas ajustam-nos um pouco menos a situações específicas. Quem já gosta de estar no centro das atenções não precisa necessariamente do make-up como máscara: usa-o antes como extensão do próprio estilo.

Traços psicopáticos: menos esforço, visual mais estável

O dado surpreendente: mulheres com valores mais altos na escala de psicopatia - isto é, maior impulsividade e menor empatia - mostraram hábitos de maquilhagem mais estáveis e com menos alterações.

Em média, maquilham-se com menos intensidade do que as mulheres com traços mais narcísicos. E, quando o contexto muda, modificam o look com menor frequência. Seja num encontro, no escritório ou numa saída com amigas - o estilo tende a manter-se semelhante.

Uma explicação possível: quem se preocupa menos com as reacções alheias sente menor pressão para adaptar a aparência às expectativas do meio. Nesses casos, o make-up é usado menos como estratégia e mais de forma pragmática, ou simplesmente por rotina.

Neuroticismo: make-up como sensação de controlo

Neuroticismo descreve a tendência para instabilidade emocional, nervosismo e maior facilidade em sentir insegurança. As mulheres com pontuações elevadas nesta dimensão também mudavam a maquilhagem consoante a situação - tal como as mulheres mais narcísicas, mas por uma razão interna diferente.

Quando outras pessoas estão presentes, aumentam claramente o nível de make-up e sentem-se mais seguras. Para elas, a maquilhagem parece cumprir uma função de protecção:

  • Dá a sensação de estar mais preparada.
  • Cria, subjectivamente, maior controlo sobre a própria apresentação.
  • Diminui o receio de avaliações negativas.

“Para pessoas mais emocionalmente instáveis, um rosto cuidadosamente maquilhado pode parecer uma armadura invisível - contra julgamentos, olhares e momentos embaraçosos.”

Quanta personalidade cabe num batom e numa sombra?

O estudo identifica padrões claros, mas não substitui um teste de personalidade só por se olhar para a necessaire. Nem toda a mulher que passa horas a fazer contorno é automaticamente narcísica, e nem toda a minimalista tem traços psicopáticos. Ainda assim, algumas tendências podem ser inferidas:

Estilo de maquilhagem Tendência possível
Muito dependente da situação, elevado esforço com novos contactos Frequentemente mais narcisismo ou neuroticismo
Constante, com pouca variação Tendência para menor adaptação às expectativas
Despesa alta, looks chamativos Muitas vezes mais extroversão, por vezes narcisismo
Mais make-up em grupo do que sozinha Padrão comum, mais forte em perfis de personalidade ansiosos

O que podes retirar do estudo para ti

Quem observa com honestidade a própria relação com o make-up pode aprender bastante sobre si. Por exemplo, vale a pena colocar perguntas como:

  • Tempo: quanto demoras todos os dias na casa de banho - e isso seria tão importante se não houvesse “público”?
  • Contexto: maquilhas-te de forma muito diferente para o trabalho, para um encontro, para estar com amigas ou para ficares sozinha em casa?
  • Sensação: sem make-up sentes-te desconfortável ou “nua” - ou, pelo contrário, sentes-te aliviada?
  • Finanças: que orçamento vai com regularidade para cosmética em comparação com outros passatempos?

As respostas, quando são francas, dizem menos sobre “certo” ou “errado” e mais sobre o papel que a aprovação, o controlo, a segurança e a autoencenação ocupam no teu quotidiano. Nesse sentido, o make-up deixa de ser apenas um detalhe estético e passa a ser expressão de necessidades internas.

Riscos, oportunidades - e porque vale a pena olhar para lá da fachada

Torna-se problemático quando o próprio rosto passa a ser visto apenas como um “projecto” que precisa de optimização constante. Quem quase não consegue sair de casa sem make-up pode cair facilmente num ciclo de auto-crítica e dependência de validação externa.

Por outro lado, um estilo escolhido de forma consciente pode reforçar a autoconfiança. Um batom vermelho antes de um momento importante, uma maquilhagem de olhos mais intensa num concerto - isso pode dar coragem, ajudar a assumir melhor um papel e aumentar a sensação de força.

Também é interessante quando o make-up é combinado com outros sinais: roupa, linguagem corporal e forma de falar. Quem se orienta muito para o exterior em todas estas dimensões pode dar mais valor ao impacto do que à autenticidade. Já quem se apresenta de forma muito discreta pode ser subestimada - mesmo que, por dentro, esteja a fervilhar.

O estudo brasileiro apenas arranha a superfície do que o make-up pode revelar sobre personalidade. Ainda assim, deixa uma ideia clara: por trás de máscara de pestanas, pó e iluminador há muitas vezes histórias silenciosas de reconhecimento, controlo, insegurança - e, por vezes, de traços de carácter mais sombrios, que preferem aparecer sob os holofotes em vez de sob a luz crua da casa de banho.

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