Sinais discretos nos escritórios presenciais
Em muitos escritórios onde o trabalho continua a ser feito cara a cara, repetem-se indícios pequenos mas persistentes: as equipas chegam às metas, porém com menos vitalidade; nas reuniões há participação, mas os profissionais revelam menos sobre si; e os recém-chegados entram, mas demoram mais a sentir-se parte do grupo. À primeira vista, tudo parece estar a funcionar. No entanto, por trás dessa normalidade, os laços humanos que alimentam a confiança e a colaboração eficaz no trabalho começam a perder força. Na prática, passamos a trabalhar de forma mais isolada.
A solidão dos profissionais transformou-se num ‘vírus’ silencioso que está a mudar o mundo do trabalho. É um tema que já está no radar de gestores e psicólogos, também pelos potenciais custos económicos.
É isso que sublinha um artigo recente da “Harvard Business Review”, assinado por Kristin Gleitsman e Luis Velasquez - investigadores da Universidade de Stanford e, em simultâneo, líderes de equipas no contexto empresarial. Segundo os autores, “a solidão em contexto profissional está associada a maior burnout, menor produtividade e maior rotatividade, custando às empresas norte-americanas até 154 mil milhões de dólares [€132 mil milhões] por ano”.
Após vários anos a estudar e a procurar melhorar a coesão das equipas, a dupla observa que as chefias começam a reconhecer um desafio adicional, ampliado com o crescimento do trabalho híbrido e remoto. “Os objetivos das equipas continuam a ser cumpridos, as pessoas continuam a participar em reuniões e os canais internos de comunicação mantêm-se ativos, mas a energia dos profissionais é menor, a colaboração mais transacional e a motivação mais difícil de sustentar, e há maiores dificuldades de integração dos profissionais mais jovens nas equipas”, referem.
Pandemia ampliou problema
Na perspetiva dos autores, é fácil explicar estas alterações como resultado de “fricções culturais ou à fadiga pós-pandemia”, embora possam refletir algo mais estrutural. “É normal que, se a solidão está a reconfigurar a sociedade em que vivemos, também esteja a produzir o mesmo efeito nos espaços de trabalho”, aponta a psicóloga Tânia Gaspar, coordenadora do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (Labpats). “Há maior individualismo na sociedade e as pessoas sentem que não há espaço para partilharem mais sobre si.”
Tânia Gaspar lembra que o mais recente relatório do laboratório já identificava a solidão como um problema nas empresas em Portugal: 28% dos profissionais inquiridos disseram sentir-se sós, 24% relataram sentir-se excluídos e 23,5% afirmaram ter sentimentos de isolamento. Para a psicóloga, a pressão e o ritmo elevados ajudam a explicar estes números: “A intensidade no trabalho é tanta que muitas vezes os profissionais, mesmo estando em regime presencial, não conseguem socializar com os colegas ou criar vínculos”, acrescentando que, paralelamente, “a competitividade entre colegas é mais intensa”.
Solidão no trabalho está associada a maior risco de burnout e menor produtividade
Solidão no trabalho: impactos e o papel das lideranças
A psicóloga reconhece que este fenómeno pode ter consequências tanto na saúde mental como nos resultados e atitude perante o trabalho, incluindo produtividade, compromisso e motivação. Daí defender a necessidade de estar “atento às lideranças onde o risco de solidão e isolamento é elevado”. Em muitas situações, explica, “o líder, mesmo que tenha uma relação positiva com as suas equipas, acaba por criar uma barreira na criação de vínculos mais profundos, porque quando tem de tomar decisões difíceis deve estar livre para as tomar de forma imparcial”.
Velasquez e Gleitsman alinham pelo mesmo diagnóstico: “A solidão corrói silenciosamente a confiança e a coesão das equipas, bases essenciais do desempenho, da inovação e da resiliência”. E acrescentam que, “ao darem prioridade à ligação como responsabilidade estratégica, os líderes podem desbloquear uma enorme vantagem e tornarem-se arquitetos de locais de trabalho mais humanos”.
Medidas para contrariar o isolamento nas equipas
Ainda assim, admitem que transformar este cenário exige ações concretas para travar o isolamento no dia a dia profissional - e não se trata apenas de teletrabalho. “Há pessoas que estão em solidão mesmo no escritório”, alerta Tânia Gaspar. Além disso, a tecnologia pode intensificar o problema quando substitui relações com significado por interações rápidas e pouco profundas mediadas por plataformas digitais. Para a especialista, “é fundamental que as empresas adotem medidas de combate a este isolamento promovendo atividades de bem-estar e socialização para os seus trabalhadores, atividades de trabalho em equipa e espaços para partilha de ideias e vivências entre pares.”
Do lado de Gleitsman e Velasquez, a mensagem é de urgência: “se os líderes não agirem cedo, os efeitos negativos desta solidão acumulam-se”. E detalham o risco: “O que começa como retração silenciosa pode rapidamente transformar-se em desalinhamento profundo e, eventualmente, em perda de produtividade.” Por isso, defendem que a resposta não passa “em mais ferramentas ou atividades pontuais de team building, mas sim em integrar intencionalmente a ligação na forma como as pessoas trabalham em conjunto”.
Para gerir equipas nesta fase, os investigadores distinguem duas frentes essenciais: a coesão social e o sentido de pertença, por um lado, e a construção de relações interpessoais com significado, por outro. No primeiro eixo, consideram prioritário “criar segurança psicológica e reduzir fricção, gerando um sentido de propósito coletivo que garanta que todos se sentem vistos e valorizados”. No segundo, defendem que “é fundamental criar ligações mais profundas, que vão além das tarefas e que sejam baseadas na confiança”. E reforçam: “Quando as pessoas se conhecem e confiam verdadeiramente umas nas outras, comunicam melhor, resolvem problemas mais rapidamente e inovam mais.”
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