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Porque é que tanta gente nos 20 e poucos começa a correr e a sonhar com a Maratona

Corredores em maratona urbana, com cidade ao fundo e apoiantes a incentivar na berma da estrada.

Depois da primeira grande separação, do desencanto com o trabalho em teletrabalho ou por pura FOMO, há cada vez mais gente no início e a meio dos 20 anos a calçar, de repente, os ténis de corrida. O que antes era tirar a carta, sair de casa dos pais ou fazer a grande viagem parece estar a ser substituído pelo primeiro meio-maratonista - ou, para muitos, logo por uma maratona completa - como novo “selo de validação” de uma geração a viver em stress permanente.

Quando o grande anúncio não é um bebé, mas uma maratona

Quem hoje está a chegar ao fim dos 20 conhece o guião: um amigo convida para uma cerveja ao fim do dia e avisa que tem “uma novidade importante”. A cabeça vai logo para gravidez, emigração ou mudança de emprego - e, em vez disso, sai um: “Vou correr a minha primeira maratona na próxima semana.” Não é piada; tornou-se um clássico desta faixa etária.

O que começou por ser apenas um passatempo transformou-se num fenómeno geracional. A corrida passa a funcionar como sinal público de “vida orientada”. Quem consegue completar 42,195 quilómetros está, implicitamente, a dizer: tenho disciplina, consigo manter um plano, sei organizar-me - mesmo que a conta bancária ande apertada e a carreira ainda pareça instável.

A nova crise a meio dos 20 não aparece só na cabeça, mas na estrada - com o tamanho de uma maratona.

Correr como movimento de massas: números que impressionam

Basta olhar para França, onde o tema tem sido bem estudado: entre 12 e 13 milhões de adultos dizem correr com regularidade - quase um em cada dois. Cerca de 8 milhões calçam os ténis pelo menos uma vez por semana. Isto está muito para lá de uma moda passageira de fitness.

Depois da pandemia de Covid-19, o crescimento acelerou de forma clara. Somaram-se aproximadamente 1,5 milhões de novas pessoas a correr. E o reflexo vê-se nos eventos oficiais: em 2024, registaram-se cerca de 1,76 milhões de chegadas à meta em provas - desde os 5 km até à maratona.

Em paralelo, o ecossistema comercial à volta da corrida disparou. Ténis, roupa técnica, relógios desportivos, géis energéticos: a facturação no segmento do running já ultrapassa com facilidade a fasquia de mil milhões de euros. Aquilo que parecia ser “calçar e sair” tornou-se um negócio altamente rentável.

Porque é que tanta gente nos 20 e poucos “corre” para se aguentar por dentro?

À primeira vista, a explicação parece óbvia: correr não exige grande investimento, dá para fazer quase em qualquer lugar e não depende de horários. Não há quotas, não há equipa, não há pavilhão. Um par de ténis e um percurso perto de casa - e está feito.

Mas, para muitos jovens a meio dos 20, a corrida é mais do que exercício. Numa fase em que quase tudo parece provisório, ela oferece algo raro: objectivos nítidos e a sensação de controlo imediato.

  • Percursos profissionais mais frágeis, com contratos a prazo a tornarem-se regra.
  • Relações que começam e terminam, ou que se esticam em relações à distância.
  • Mudanças de cidade, “testes” a novos lugares, rendas a subir.

No meio desta confusão, um plano de treinos pode soar a tranquilidade. Três sessões por semana, um ritmo definido, progresso mensurável. O relógio confirma se o tempo melhora e se a distância aumenta. Enquanto o futuro parece difuso, o próximo treino de 10 km pode ser programado ao minuto.

Controlo que se sente - passo a passo

Muitos jovens adultos descrevem a corrida como uma forma de canalizar tensão. Depois de um dia irritante no escritório ou na universidade, o ritual - calçar, fazer a volta, carregar no stop - cria uma moldura e uma ordem. E perceber que se consegue ir cada vez mais longe funciona como antídoto para a sensação constante de estar a rebentar pelas costuras.

Correr traz uma promessa simples: o esforço que colocas volta em forma de resultado - uma lógica que muitos já não encontram no trabalho ou nas relações.

Quando alguém passa de mal conseguir fazer 3 km seguidos para, meses depois, completar uma meia-maratona, vive no próprio corpo a prova de que a mudança é possível. Psicologicamente, isso pesa muito - sobretudo numa altura em que tanta coisa escapa ao controlo: procura de casa, crise climática, incerteza política, digitalização.

Correr como substituto de terapia e auto-coaching

A “crise do quarto de século” - a tal crise de sentido a meio dos 20 - não se revela apenas quando se olha para a conta ou para o CV. Há quem sinta vazio, falta de direcção, pressão constante. É aqui que a corrida ganha um papel novo: uma mini-terapia auto-gerida.

O movimento acelera a circulação, o cérebro liberta endorfinas e outros mensageiros químicos que ajudam a melhorar o humor. Ao mesmo tempo, o tempo de corrida regular torna-se um compromisso marcado consigo próprio: telemóvel em “Não incomodar”, auscultadores postos - ou propositadamente deixados de lado - e 30 a 60 minutos em que ninguém exige nada.

Para muitos, isto torna-se uma espécie de meditação em movimento. Gestos repetitivos, respiração estável, espaço para ruminar ou, pelo contrário, para treinar o “não pensar”. Quem dorme mal, vive a comparar-se ou está sempre “ligado” encontra ali uma pausa rara.

As redes sociais transformam a corrida num palco

Grande parte do boom também se alimenta de plataformas como Instagram, TikTok e Strava. O treino deixou de ser só experiência pessoal e passou a ser formato de conteúdo. Ritmo, percurso, desnível - tudo se publica, se comenta, se valida com likes.

Muitos corredores juntam-se via aplicações, combinam voltas em grupo e celebram recordes pessoais. E, para quem precisa de um rumo, a internet está cheia de planos de treino, desafios e competições virtuais.

Com isto, a cultura da corrida muda. Fica mais social, mas também mais performativa. Já não é apenas “como te sentiste lá fora?”, mas também “o que diz o relógio? que tempo fizeste aos 10 km?”.

Quando a pressão por performance invade o tempo livre

A outra face da moeda é que a lógica da auto-optimização não poupa nem os hobbies. Quem abre o Strava ou os grupos de WhatsApp e vê tempos extraordinários e distâncias intermináveis começa a comparar-se - e a sentir-se menos quando o próprio treino foi “só” de 5 km.

Este ambiente gera fenómenos estranhos. Circula até a expressão “Strava jockeys”: pessoas que, alegadamente, pagam a outros para correrem ou pedalarem por elas, de forma a que as estatísticas pareçam impressionantes. É um tipo de batota que mostra o peso que a imagem digital ganhou - mesmo no lazer.

Mesmo no hobby, para alguns conta mais a imagem do corredor perfeito do que o suor real na estrada.

Entre uma rotina saudável e uma fixação perigosa

A corrida pode fazer muito bem - ao corpo e à cabeça. Quem começa devagar, respeita sinais do corpo e define metas realistas ganha resistência, melhora o sono e reduz stress. Em particular, quem entra agora no mercado de trabalho e passa mais horas sentado beneficia com o estímulo regular ao ar livre.

O problema surge quando o desporto passa a mandar em tudo. Alguns sinais de alerta típicos incluem:

  • treinar apesar de dores ou de lesões evidentes
  • sentir culpa intensa quando falha uma sessão
  • comparar-se constantemente e ficar insatisfeito mesmo com progresso
  • submeter o quotidiano inteiro ao plano de treinos

Quem se revê nisto deve abrandar, planear pausas ou procurar aconselhamento em medicina desportiva. Correr tem de fortalecer, não levar ao esgotamento.

Como jovens adultos podem tirar partido da corrida

Para quem está numa fase de transição - depois do curso, após uma separação, no meio de uma mudança de emprego - a corrida pode ser usada de forma estratégica. Algumas abordagens que têm funcionado nesta geração:

  • Definir metas realistas: primeiro 5 km seguidos, depois 10 - em vez de saltar logo para a maratona.
  • Fixar horários de corrida: dois a três momentos por semana como âncoras fiáveis no calendário.
  • Usar ferramentas digitais com medida: apps para motivação, não para pressão permanente.
  • Misturar com a rotina: correr para o trabalho, resolver deslocações ao final do dia a correr.
  • Social runs: correr com amigos, em vez de perseguir sempre recordes a solo.

Feito assim, a moda torna-se recurso. A “crise a meio dos 20” não desaparece por magia, mas ganha uma válvula de escape - e, no melhor cenário, uma rotina que ajuda a estabilizar.

O que está realmente por trás do fascínio pela maratona

Dentro desta narrativa, a maratona ocupa um lugar especial. Representa o grande objectivo visível, aquele que dá para anunciar em voz alta. Muitos trabalham meses para chegar lá e usam a prova como projecto: algo que dá forma ao ano e lhe acrescenta significado.

O facto de tanta gente jovem escolher precisamente uma competição dura, de horas, como marco pessoal diz muito sobre o tempo em que vivemos. À medida que as certezas clássicas - emprego para a vida, casa acessível, um modelo de vida claro - se vão desagregando, cresce a procura por algo inequívoco: uma linha de meta que não muda de sítio.

No fundo, o ponto não é tanto a distância, mas a sensação: consigo decidir, insistir, falhar, recomeçar - e, um dia, chegar ao fim com as pernas a tremer, mas de cabeça erguida. Para uma geração em mudança constante, isso soa a uma promessa rara.

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