Cerca de um em cada dez australianos afirma seguir uma dieta sem glúten.
Na prática, isto implica retirar da alimentação produtos comuns - como pão, massa e noodles - que contêm glúten, uma proteína presente sobretudo no trigo, na cevada e no centeio.
Nem todas as pessoas que optam por uma dieta sem glúten têm uma condição clínica por detrás. Ainda assim, se sentir náuseas, inchaço ou dor de estômago depois de consumir glúten, isso pode indicar intolerância ao glúten ou doença celíaca.
Embora a intolerância ao glúten e a doença celíaca possam causar muitos sintomas semelhantes, apenas uma delas pode provocar lesões no intestino e levar a má nutrição. Então, em que é que diferem?
O que é a doença celíaca?
A doença celíaca é uma doença autoimune. Ou seja, o organismo começa, por engano, a atacar células e tecidos saudáveis - neste caso, no intestino delgado - gerando inflamação.
Estima-se que afete cerca de um em cada 70 australianos, mas apenas 20% destas pessoas têm diagnóstico.
Em quem tem doença celíaca, ingerir alimentos com glúten pode danificar as vilosidades, estruturas do intestino delgado que ajudam o corpo a absorver nutrientes.
Depois de uma refeição com glúten, podem surgir queixas digestivas como diarreia, inchaço, náuseas, gases e dor abdominal.
O glúten também pode desencadear sintomas fora do aparelho digestivo, incluindo confusão mental, dores de cabeça, dermatite herpetiforme (uma erupção cutânea com comichão e bolhas), dores articulares e fadiga.
A longo prazo, quando não tratada, a doença celíaca pode conduzir a má nutrição, porque as vilosidades danificadas deixam de conseguir absorver nutrientes dos alimentos. Pode também diminuir a densidade mineral óssea e tem sido associada a perturbações neurológicas como epilepsia e demência.
Como se diagnostica a doença celíaca?
Para que o diagnóstico seja fiável, é essencial que ainda não tenha retirado o glúten da dieta. Isto permite medir o impacto do glúten no sistema digestivo.
O processo de diagnóstico inclui análises ao sangue e, depois, biópsias do intestino delgado realizadas com recurso a um endoscópio (um instrumento com luz que permite observar o interior do corpo).
As análises sanguíneas procuram antigénios - marcadores de reação ao glúten - e a biópsia avalia se existe dano nas vilosidades intestinais.
Em determinadas situações, pode recorrer-se a uma endoscopia por cápsula, em que se engole uma câmara do tamanho de um comprimido, para visualizar o intestino e verificar a existência de lesões.
E quanto à intolerância ao glúten?
Quem tem intolerância ao glúten pode apresentar sintomas muito semelhantes aos da doença celíaca. A diferença é que, após consumir glúten, não ocorre resposta autoimune nem lesão do intestino.
A intolerância ao glúten é também referida como sensibilidade ao glúten não celíaca.
Calcula-se que 1% dos australianos viva com intolerância ao glúten, mas apenas 12 em cada 100 destas pessoas recebe diagnóstico médico.
Perante sintomas associados ao consumo de glúten, os médicos começam por excluir doença celíaca e alergia ao trigo.
Depois de afastadas estas hipóteses, pode ser sugerido um período de teste com dieta sem glúten, acompanhado por um nutricionista acreditado, para avaliar se há melhoria dos sintomas.
Um diagnóstico formal de intolerância ao glúten só pode ser confirmado através de um ensaio alimentar altamente complexo, que compara o efeito do glúten com o de um placebo durante pelo menos oito semanas.
Este tipo de estudo científico exige muito trabalho e, por isso, é pouco frequente.
Como resultado, muitas pessoas acabam por eliminar o glúten por iniciativa própria, sem qualquer diagnóstico.
Sensibilidade extrema ao glúten
A doença celíaca é mais grave do que a intolerância ao glúten, e a sensibilidade pode variar entre pessoas diagnosticadas.
Mesmo quantidades mínimas de glúten podem desencadear sintomas. Por isso, é indispensável uma dieta sem glúten rigorosa e para toda a vida.
Isto significa também que quem tem doença celíaca deve ter atenção à contaminação cruzada. Por exemplo, usar a mesma faca, tábua de cortar ou torradeira para pão sem glúten e pão normal pode transferir partículas de glúten e provocar uma reação.
De acordo com os estudos mais recentes, ingerir apenas 50mg de glúten por dia é suficiente para causar lesão intestinal em pessoas com doença celíaca.
Para perceber a ordem de grandeza, uma fatia de pão integral de trigo tem cerca de 4,800mg de glúten - o que significa que 50mg correspondem aproximadamente a 1/100 de uma fatia.
Uma pequena quantidade de glúten não terá o mesmo efeito em alguém com intolerância ao glúten. Pode haver sintomas temporários, mas não ocorre dano intestinal.
Ainda assim, os sintomas e a sua intensidade variam de pessoa para pessoa, consoante a sensibilidade individual.
Devo eliminar o glúten, só por precaução?
Pode estar a questionar-se se existe algum inconveniente em evitar glúten, mesmo sem doença celíaca ou intolerância.
Pode existir.
Os cereais que contêm glúten são fontes importantes de nutrientes essenciais, como fibra, folato, ferro e vitaminas do complexo B.
Retirar o glúten sem necessidade pode contribuir para défices nutricionais.
Além disso, os produtos sem glúten podem ser mais caros e, por vezes, têm mais açúcar, sal e gordura para compensar textura e sabor.
Antes de alterar a sua alimentação, o mais prudente é falar com um nutricionista acreditado, para garantir que não está a comprometer a ingestão de nutrientes importantes.
Então, e se tiver sintomas?
Sinais frequentes de intolerância ao glúten ou doença celíaca incluem inchaço, diarreia ou obstipação e dor abdominal. Em ambas as condições, também podem surgir sintomas fora do intestino, como dores de cabeça, fadiga e dores articulares.
Se estas queixas lhe são familiares, o melhor é consultar um profissional de saúde, que poderá pedir testes para doença celíaca e/ou alergia ao trigo antes de retirar o glúten da dieta.
Tenha em conta que fazer autodiagnóstico e eliminar o glúten sem orientação adequada pode trazer mais prejuízos do que benefícios.
Se os seus sintomas o preocupam, fale com o seu médico de família, um gastrenterologista ou um nutricionista qualificado. A Dietitians Australia disponibiliza uma lista de nutricionistas acreditados.
Yasmine Probst, Professora, School of Medical, Indigenous and Health Sciences. Advanced Accredited Practising Dietitian, University of Wollongong e Olivia Wills, Docente Associada, Nutrition and Dietetics, University of Wollongong
Este artigo foi republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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