Durante muito tempo, quando se falava de infertilidade feminina, a atenção recaía sobretudo na idade, em desequilíbrios hormonais ou em doenças. Uma nova análise feita no Canadá vem, no entanto, reforçar outra hipótese: a forma como nos alimentamos pode pesar muito mais na fertilidade do que se imaginava - especialmente quando a dieta é dominada por alimentos ultra-processados.
O que os investigadores descobriram
Uma equipa da McMaster University avaliou dados de 2.582 mulheres entre os 20 e os 45 anos, recolhidos numa grande investigação de saúde e nutrição realizada nos EUA. As participantes descreveram os seus hábitos alimentares e indicaram se já tinham passado pelo menos um ano a tentar engravidar sem sucesso.
Para a análise, as investigadoras e os investigadores separaram as mulheres em dois grupos: com dificuldades em engravidar e sem dificuldades. Além disso, examinaram registos alimentares detalhados obtidos a partir de duas entrevistas de recordatório de 24 horas. Assim, foi possível estimar com bastante precisão que parte das calorias diárias provinha de produtos ultra-processados.
"Em média, os alimentos ultra-processados representavam cerca de 27% da ingestão diária de energia - nas mulheres com desejo de ter filhos não concretizado, o valor rondava os 30%."
À primeira vista, uma diferença de três pontos percentuais parece pouco relevante. Porém, nas análises estatísticas surgiu uma associação nítida: quanto maior o peso destes produtos na alimentação, menor a probabilidade de uma fertilidade preservada - mesmo depois de controlar fatores como idade, peso corporal e estilo de vida.
O que “ultra-processado” significa na prática
Para os especialistas, alimentos ultra-processados não se resumem aos clássicos de fast food. Trata-se de um conjunto vasto de produtos de supermercado, muitas vezes práticos, de longa duração e com temperos intensos - mas já bastante afastados do alimento na sua forma original.
Exemplos típicos de produtos ultra-processados
- snacks embalados, como batatas fritas, palitos, crackers, bolachas
- refrigerantes açucarados, bebidas energéticas e chás gelados com açúcar
- pizzas congeladas, lasanhas prontas e outras refeições completas preparadas
- enchidos muito processados e carnes reconstituídas
- cereais de pequeno-almoço açucarados, com muitos aditivos
- noodles instantâneos, molhos instantâneos e refeições prontas de micro-ondas
Em geral, estes produtos passam por múltiplas etapas de transformação, incluem vários aditivos, aromas, emulsionantes e conservantes e são, na maioria das vezes, embalados em plástico. É precisamente aqui que a equipa de investigação aponta uma possível ligação à fertilidade.
Como químicos presentes nos alimentos podem baralhar as hormonas
O problema dos produtos ultra-processados não é apenas uma questão de açúcar, gordura e calorias. Também podem conter vestígios de substâncias químicas que migram para a comida a partir das embalagens ou de equipamentos usados no fabrico.
Entre elas estão, por exemplo, ftalatos e bisfenol A (BPA) - utilizados para tornar os plásticos mais flexíveis ou mais resistentes -, bem como a acrilamida, que se pode formar em alguns alimentos quando sujeitos a temperaturas elevadas. Muitas destas substâncias são consideradas hormonalmente ativas: conseguem ligar-se a recetores hormonais ou interferir com a produção de hormonas.
"Quando químicos perturbam o delicado equilíbrio hormonal, a fertilidade tende a sofrer - por exemplo, por alterações na maturação dos óvulos ou por dificuldades na implantação de uma gravidez."
As hormonas regulam o ciclo menstrual, a ovulação, a preparação do revestimento do útero e muitos outros processos necessários para a conceção. Pequenas alterações podem ser suficientes para reduzir as probabilidades de engravidar.
Inflamação, microbiota intestinal, nutrientes: vários pontos de impacto
O estudo também sugere que uma alimentação rica em ultra-processados pode favorecer processos inflamatórios no organismo. Há anos que inflamações crónicas de baixo grau são apontadas como potencial fator negativo para a qualidade dos óvulos e para a implantação de um óvulo fecundado.
A isto soma-se a saúde intestinal: uma dieta pobre em fibra e baseada em produtos muito processados pode alterar a microbiota. Por sua vez, a composição das bactérias intestinais influencia o equilíbrio hormonal - por exemplo, através de estrogénios - e pode, assim, afetar indiretamente a saúde reprodutiva.
Em paralelo, refeições prontas e snacks acabam muitas vezes por substituir alimentos mais ricos em nutrientes, como fruta e legumes frescos, cereais integrais, frutos secos e leguminosas. Com isso, baixa a ingestão de vitaminas, minerais e oligoelementos importantes para a fertilidade, tais como:
| Nutriente | Papel na fertilidade | Fontes típicas |
|---|---|---|
| Ácido fólico | apoia a divisão celular e o desenvolvimento embrionário inicial | vegetais de folha verde, leguminosas, cereais integrais |
| Ferro | essencial para o transporte de oxigénio e para a ovulação | carne vermelha, lentilhas, milho-miúdo |
| Ácidos gordos ómega-3 | têm efeito anti-inflamatório e ajudam o equilíbrio hormonal | peixe gordo do mar, óleo de linhaça e de noz |
| Zinco | participa na produção hormonal e na maturação dos óvulos | sementes, frutos secos, cereais integrais, carne |
Exemplo de referência: alimentação mediterrânica
A equipa analisou ainda outro padrão alimentar que costuma apresentar bons resultados em vários estudos: a chamada alimentação mediterrânica. Este modelo dá prioridade a legumes, fruta, cereais integrais, leguminosas, azeite, frutos secos e peixe, e tende a incluir poucos produtos ultra-processados.
Num primeiro momento, as mulheres cuja alimentação se aproximava mais deste padrão tinham melhores probabilidades de fertilidade. Parte dessa vantagem pareceu relacionar-se com um peso corporal mais favorável: quem segue uma alimentação mediterrânica tende a ter menor propensão para excesso de peso, algo que pode beneficiar a fertilidade.
Ainda assim, no conjunto, a “pontuação mediterrânica” foi mais baixa nas mulheres com desejo de ter filhos não concretizado. Isto sugere que não conta apenas a quantidade de comida, mas a qualidade - e o grau de transformação industrial.
O que as mulheres podem mudar de forma concreta
O estudo não propõe que alguém esvazie o frigorífico de um dia para o outro. A própria equipa sublinha que o objetivo não é a perfeição, mas a direção. Pequenas mudanças no quotidiano podem diminuir a exposição a substâncias problemáticas e reforçar a ingestão de nutrientes com efeito protetor.
Ajustes práticos para o dia a dia
- Em cada ida às compras, garantir que pelo menos metade do cesto é composta por alimentos pouco ou nada processados: fruta, legumes, ovos, iogurte natural, flocos de aveia.
- Trocar gradualmente refrigerantes e bebidas energéticas por água, água com gás com um pouco de sumo (tipo “spritzer”) ou chá sem açúcar.
- Reduzir refeições prontas e cozinhar com antecedência em 1 a 2 dias por semana (meal prep) - por exemplo, sopas ou legumes assados.
- Ler rótulos com sentido crítico: dar preferência a listas de ingredientes curtas e com termos fáceis de reconhecer.
- Rever hábitos de snack: optar por frutos secos, fruta ou iogurte natural em vez de batatas fritas e doces.
Para quem já está numa fase de tentativa de gravidez, pode ser útil aproveitar para registar a alimentação durante alguns dias. Muitas vezes, é só no papel que se tornam evidentes os produtos que entram “rapidinho” na rotina.
Porque este estudo é tão relevante
O impacto desta investigação ganha particular importância por colocar no centro uma questão que, durante muito tempo, recebeu pouca atenção: de que forma o típico carrinho de supermercado afeta a fertilidade das mulheres - para lá do peso e do balanço calórico?
Muita gente associa alimentos ultra-processados sobretudo a excesso de peso, diabetes ou doenças cardiovasculares. Estes novos dados apontam que, quando pizza congelada, batatas fritas e refrigerantes se tornam hábito, também a saúde hormonal e a probabilidade de ter filhos podem estar em jogo.
"A forma de processamento e as substâncias escondidas nos nossos alimentos podem ser um fator de influência no desejo de ter filhos que tem sido subestimado."
O que os casais com desejo de ter filhos podem retirar disto
Para casais que querem engravidar, o estudo não oferece uma regra simples de tudo-ou-nada, mas indica uma orientação clara. Ninguém precisa de cozinhar sempre de forma perfeita nem de decorar cada aditivo.
Se o dia a dia for muito marcado por refeições prontas, entregas ao domicílio e snacks de pacote, existe ali um ponto de partida evidente. Ao substituir uma parte dessas escolhas por pratos simples feitos em casa, reduz-se a ingestão de aditivos e de químicos potencialmente hormonais - e, ao mesmo tempo, entram nutrientes com efeito protetor.
A longo prazo, os benefícios não se limitam às probabilidades de gravidez. Também o sono, o nível de energia, o aspeto da pele e o metabolismo costumam reagir de forma percetível quando os ultra-processados vão perdendo espaço, passo a passo, e os alimentos “a sério” voltam a ser a base.
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