O Concept #2 aponta para um regresso da Smart à fórmula que a celebrizou: um modelo de dois lugares, muito compacto e pensado sobretudo para a cidade.
O design exterior já tinha sido revelado no Salão de Pequim, mas faltava ver como seria o habitáculo. Numa apresentação em Roma, Itália, a Smart mostrou, ainda que apenas através de um modelo à escala real, uma solução rara nos carros atuais: um banco corrido.
Sim, um banco corrido. Trata-se de uma configuração que praticamente desapareceu nos automóveis modernos e que o #2 decide recuperar. A marca defende que esta opção cria uma sensação de maior abertura no interior, com menos separação entre condutor e passageiro - e, num carro com estas proporções, cada centímetro faz diferença.
Há ainda uma vantagem mais óbvia - e, para quem vive em ambiente urbano, provavelmente mais importante: poder entrar e sair por qualquer um dos lados do veículo. Quem estaciona com frequência em ruas estreitas ou em lugares apertados percebe de imediato a utilidade.
Durante a apresentação, Wolfgang Ufer, diretor-executivo da Smart, recorreu a um exemplo português numa entrevista à Razão Automóvel: “Vai ser muito útil, porque depois podem estacionar de forma muito louca no Porto ou em Lisboa. Podem sempre sair pela porta do lado que quiserem.” A frase foi recebida com humor, mas explicou bem a intenção por trás da ideia.
O banco corrido vai chegar ao Smart #2 de produção?
A Smart não esclareceu que componentes do interior do concept irão passar para o Smart #2 de produção. Ainda assim, Ufer foi claro sobre a lógica do que foi mostrado: “Não pensem que vos mostramos hoje coisas que provavelmente não vão chegar”, disse quando questionado sobre o interior do Concept #2.
Quanto ao banco corrido, limitou-se a acrescentar: “Posso dizer que gosto do banco.” Não é uma confirmação formal, mas também não soa a mero acaso.
Para lá do banco, o habitáculo apresenta uma abordagem de linhas simples e um ambiente aberto, construído à volta de um cockpit em forma de “S”. De acordo com a Smart, este desenho pretende tornar a utilização mais intuitiva, melhorar a orientação visual e aproveitar melhor o espaço disponível - objetivos particularmente relevantes num automóvel ultracompacto, onde a gestão de espaço continua a ser um dos maiores desafios.
Bateria grande para carro pequeno
A marca aproveitou o momento para divulgar mais informação técnica sobre a base do Concept #2. A nova plataforma chama-se Electric Compact Architecture (ECA) e foi concebida especificamente para veículos elétricos ultracompactos.
Ao contrário do anterior fortwo, que foi desenvolvido em parceria com a Renault para a terceira geração do Twingo, esta plataforma foi criada de raiz apenas pela Smart.
Com o objetivo de libertar o máximo de espaço no interior, a arquitetura posiciona as rodas mais junto aos extremos e permite integrar de forma compacta os componentes mecânicos e elétricos. Isto ganha outra dimensão quando olhamos para os números: o pequeno #2 tem uma bateria grande de 35,7 kWh, uma autonomia estimada de cerca de 300 km em ciclo WLTP e carregamento rápido DC dos 10% aos 80% em menos de 20 minutos.
Os valores finais ainda terão de ser certificados, mas a diferença face ao fortwo EQ anterior é enorme: 17,6 kWh e 132 km de autonomia. São números que ficam acima do que é habitual em muitos citadinos elétricos atuais. O novo Renault Twingo, por exemplo, é maior, tem quatro lugares e utiliza uma bateria de 27 kWh; já a bateria do #2 aproxima-se bastante da bateria de menor capacidade do Volkswagen ID. Polo.
As dimensões ultracompactas do Smart #2 também favorecem a manobrabilidade, com a marca a indicar um diâmetro de viragem de apenas 6,95 m entre passeios - o mesmo valor do último fortwo.
Talvez o aspeto mais inesperado da ECA seja a suspensão traseira, descrita como sofisticada e pouco comum neste segmento. Além de independente, utiliza um esquema multi-braços de cinco ligações, algo raro num citadino. Juntando a isto uma direção prometida como particularmente direta, a Smart antecipa uma experiência de condução mais evoluída e refinada do que a do fortwo.
Tendo em conta a dificuldade histórica da indústria em tornar rentáveis os citadinos - uma das razões para existirem tão poucos hoje -, o que foi mostrado em Roma sugere custos elevados: plataforma exclusiva, bateria grande e uma suspensão traseira complexa. Assim, ou o preço do Smart #2 será elevado, ou existirão planos adicionais para ajudar a amortizar o investimento na ECA.
A própria marca deixou pistas para a segunda hipótese, ao confirmar que a arquitetura é modular e permite variar a distância entre eixos de 1875 mm até mais de 2500 mm. Questionámos Wolfgang Ufer e, como seria de esperar, não confirmou modelos futuros - mas também não fechou essa possibilidade.
Regresso da célula Tridion
Outro regresso ao passado é a célula Tridion. A assinatura estrutural dos primeiros Smart volta sob o nome Hyper Tridion Cell. A ideia de base mantém-se: uma célula rígida com o objetivo de proteger os ocupantes num automóvel de dimensões reduzidas.
Foi um dos traços mais marcantes do fortwo original e continua a ser pertinente numa proposta que volta a apostar em proporções muito compactas: o Concept #2 não ultrapassa os 2,79 m de comprimento.
Quando chega?
A versão de produção do Smart #2 será apresentada no Salão de Paris, em outubro deste ano, altura em que também será revelado o preço do novo citadino.
A chegada ao mercado deverá acontecer depois, nos principais países europeus, embora a Smart ainda não tenha avançado com datas específicas.
Até lá, falta saber quantas das soluções vistas neste Concept #2 vão resistir ao caminho até à produção. O banco corrido parece ter boas probabilidades. Afinal, quando o responsável máximo da marca faz questão de sublinhar que gosta dele, isso soa a um sinal relevante.
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