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Apoio às políticas climáticas: o fosso de percepção na TV dos EUA

Jovem sentado no sofá a ver debate na televisão sobre políticas climáticas, com gráfico e garrafa na mesa.

Quatro em cada dez: é este o valor que a maioria dos norte-americanos aponta quando lhes perguntam quanto apoio existe, na sua comunidade, às políticas climáticas. Só que a realidade fica perto do dobro.

Há anos que esta diferença intriga os investigadores, e as notícias na televisão pareciam o suspeito mais óbvio. Se a cobertura desse mais palco às vozes de oposição e abafasse a verdadeira maioria, quem vê poderia ficar com uma ideia errada sobre a posição do país.

Um novo estudo analisou um ano inteiro de transcrições para perceber o que se passa - e o retrato final revelou-se mais estranho do que se esperava.

Um fosso de percepção

Dois terços dos norte-americanos querem medidas contra as alterações climáticas. No entanto, quando se pergunta a essas mesmas pessoas o que acham que os seus vizinhos pensam, elas falham de forma consistente - por vezes, por uma margem que se aproxima de metade.

Os investigadores descrevem isto como uma forma de ignorância pluralista: uma leitura colectiva errada sobre onde, de facto, está a opinião pública. Um artigo de 2022 concluiu que 80 a 90% dos norte-americanos subestimam o apoio a políticas climáticas importantes, apesar de os apoiantes superarem os opositores numa proporção de dois para um.

Ekaterina Landgren - então investigadora visitante no Cooperative Institute for Research in Environmental Sciences (CIRES), na University of Colorado Boulder - suspeitava que as notícias na TV tinham um papel central. Se os meios amplificassem sobretudo a oposição, os espectadores poderiam sair a acreditar que a posição dominante era a contrária.

Por dentro das transcrições

Landgren e os seus colegas concentraram-se em sete grandes redes dos EUA, abrangendo televisão generalista, canais por cabo e televisão pública. Reuniram todas as transcrições, de Abril de 2020 a Abril de 2021, em que surgiam as expressões “alterações climáticas” ou “aquecimento global”.

A equipa trabalhou com estudantes investigadores da CU Boulder, que leram manualmente cada segmento. Os codificadores assinalaram se surgia o tema da política climática e, em caso afirmativo, se a abordagem era favorável, contrária ou neutra.

O trabalho resultou no primeiro retrato, rede a rede, de como a política climática aparece - ou não aparece - na televisão norte-americana. Alguns padrões eram previsíveis. Um deles não.

Quando a política desaparece

Cerca de dois terços dos segmentos sobre clima nem sequer mencionavam políticas. As câmaras focavam-se no problema, não na resposta.

Ao longo de um ano marcado por incêndios florestais, inundações e calor extremo, as soluções raramente entraram no alinhamento. A dimensão desta ausência surpreendeu até os próprios investigadores.

Jeremiah Osborne-Gowey - coautor e antigo estudante de doutoramento na University of Colorado Boulder - sublinhou o que se perde com esse silêncio.

“Policy is where solutions live. When policy is largely missing from coverage, so too are the pathways people can imagine for addressing the problem,” disse Osborne-Gowey.

Assim, o público ouve falar de incêndios e ruas inundadas sem ouvir falar de regras de preço do carbono, investimentos em energia limpa ou códigos de construção que poderiam reduzir os estragos. A crise aparece. A resposta não.

Apoio às políticas climáticas

Nos segmentos que, de facto, adoptavam uma posição, a divisão ficou surpreendentemente próxima do que os inquéritos nacionais indicam sobre aquilo em que os norte-americanos acreditam. Cerca de 71% apoiavam políticas climáticas, enquanto os restantes 29% se opunham.

Visto assim, o rácio sugere que as notícias na televisão dos EUA reflectem de forma razoável a opinião pública. No total, tudo parece equilibrado e a história parece fechada.

Só que não está. Quando se separa a informação por canal, o aparente consenso desfaz-se rapidamente.

Na CNN, a cobertura de política climática inclinava-se fortemente para o apoio ou para a neutralidade. Na Fox News, a inclinação ia claramente no sentido da oposição. Para quem acompanha um ou outro canal, o panorama não se parece em nada com aquilo que os números agregados fazem crer.

Uma análise anterior a noticiários por cabo concluiu que a Fox tratava a ciência do clima com mais desdém do que a CNN ou a MSNBC, e que as crenças dos espectadores tendiam a alinhar-se com a cobertura que viam. Se esse alinhamento resulta da influência da cobertura, da auto-selecção do público, ou de uma combinação de ambos, continua por esclarecer.

Este novo estudo indica que a mesma fractura pode ter descido um nível: em vez de se discutir se as alterações climáticas são reais, a divisão na cobertura parece agora centrar-se no que fazer a seguir.

Para lá da emissão

Um espectador assíduo da Fox e um espectador assíduo da CNN podem acompanhar um ano inteiro de conteúdos sobre clima e sair com percepções opostas sobre onde o país realmente está. Nenhum está a inventar - programas diferentes transmitem sinais diferentes.

A equipa evitou generalizações excessivas. Somando as sete redes, a cobertura acompanha o sentimento público - o que significa que a televisão, por si só, não explica porque é que tantos norte-americanos subestimam o apoio às políticas climáticas.

“TV news is only one aspect of the information environment. We need to understand not just what the news covers, but also what news people are exposed to, how they share it on social media, and what they retain from it,” disse Landgren.

O que muda agora

Antes deste estudo, ninguém tinha medido com que frequência a televisão nos EUA passava ao lado da política climática. Em dois terços dos segmentos, ela não aparecia.

Nos segmentos que abordavam políticas, os apoiantes superavam os opositores em mais de dois para um - mas apenas quando se olha para o total agregado.

Para os jornalistas, a implicação é directa. Uma cobertura que se fica pelo desastre e não diz o que poderia evitar o próximo deixa o público sem linguagem para falar de soluções. A política tem de fazer parte da história do clima.

Os investigadores passam a ter uma linha de base mais clara para definir o que testar a seguir. Se a televisão não explica totalmente o fosso de percepção, então os feeds das redes sociais, os podcasts e as conversas do dia-a-dia merecem um exame mais atento.

A ideia de que a maioria dos norte-americanos se opõe à acção climática é teimosa. Perceber o que a mantém é a única forma de a desmontar.

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