Muitas pessoas escolhem um vinho com base na casta e no local onde as uvas foram produzidas.
Com os rabanetes não existe o mesmo tipo de ligação emocional - e é precisamente essa diferença que ajuda a perceber um problema crescente para o sector do vinho.
À medida que as temperaturas sobem, os viticultores podem vir a ter de substituir as castas que cultivam ou, em casos extremos, deslocar a produção para outras regiões.
O obstáculo é que os consumidores tendem a manter-se fiéis às castas de sempre e às regiões vinícolas mais conhecidas.
Um novo estudo da Cornell University analisa este dilema e conclui que o factor decisivo pode não ser apenas o clima em mudança, mas sobretudo a forma como os consumidores reagem às adaptações feitas pelos produtores.
Porque é que o vinho é diferente
Um produtor de hortícolas consegue trocar de cultura e, na prática, perder muito pouco. Já para quem produz vinho, a lógica não é tão simples.
No vinho, a casta e a região contam como “metade do produto”, e muita gente não quer abdicar desses elementos.
A ciência já desenvolveu videiras mais resistentes para um mundo mais quente, mas poucos produtores as plantam - porque o mercado continua a procurar nomes familiares.
“Wine grapes are unique in that people are very attached to certain cultivars and the sense of the place where they come from,” disse Justine E. Vanden Heuvel, professora de horticultura e uma das autoras do estudo.
“That’s not true with most other crops. Do you care where your radish comes from?”
Os compradores adoram tradição
Essa ligação à tradição não acontece apenas nos vinhos caros: vê-se em todas as gamas de preço.
“Wine around the world has this tradition of having on the label the name of the grape and where it came from,” afirmou Bradley Rickard, professor de economia alimentar e agrícola.
“Even inexpensive box and jug wine has the name of grape and place of origin on the front, and even among less-sophisticated consumers, there’s recognition of that.
“This paper is trying to understand if changing anything about that formula – whether the grape, the location or the production method – can affect what consumers are willing to pay.”
Além disso, uma vinha não é uma aposta de uma só campanha. A instalação pode custar mais de 200.000 dólares por hectare antes da primeira colheita relevante e, depois, a vinha pode produzir durante 30 anos.
Isto significa que quem planta hoje está, na prática, a apostar no tempo que fará daqui a décadas. Para comparar estratégias, os investigadores somaram, ao longo do tempo, cada dólar futuro de receitas e de custos, de modo a perceber qual opção compensa mais.
O que o calor provoca
O calor extremo pode prejudicar as uvas. Quando as temperaturas são demasiado elevadas, as videiras têm dificuldade em produzir energia e as uvas começam a perder cor e qualidade.
Em condições muito severas, as próprias células das uvas podem ficar danificadas.
Durante vagas de calor, os cachos expostos ao sol directo conseguem atingir temperaturas muito altas. Há medições de cachos a chegar a cerca de 58 °C (136 °F).
Nesses valores, as uvas podem perder aroma e cor. No caso da Cabernet Sauvignon, o calor extremo pode reduzir a produção e alterar o perfil do vinho.
Arrefecer a vinha
A primeira via permite manter a mesma casta na mesma região. Em vez de alterar a vinha, o produtor protege as uvas do calor extremo, colocando uma rede de sombreamento por cima das videiras.
Desta forma, a fruta mantém-se mais fresca, sobretudo durante episódios de calor intenso.
O estudo concluiu que a rede de sombreamento pode reduzir de forma significativa as perdas em anos muito quentes. Em contrapartida, a instalação e a manutenção destes sistemas podem ser dispendiosas.
Ainda assim, a reacção dos consumidores foi favorável.
Quando as pessoas souberam que um produtor usava rede de sombreamento para proteger as uvas do calor extremo, mostraram-se dispostas a pagar cerca de mais 17% pelo vinho.
Foi o maior aumento de preço entre as três estratégias analisadas.
Trocar tradição por resiliência
A segunda solução passa por mudar a casta. Em vez de Cabernet Sauvignon, o viticultor poderia plantar uma variedade tolerante ao calor, como a carignane, que lida melhor com temperaturas elevadas.
O seu preço de venda é inferior a metade do valor da cabernet, mas produz mais do dobro da fruta, pelo que as receitas acabam por ficar relativamente próximas.
Melhor ainda: num verão particularmente duro, a colheita quase não cai, ao passo que a da cabernet desaba. Os consumidores pagaram cerca de mais 12% pela mudança.
O custo elevado de mudar de região
A terceira opção altera o “endereço”. O produtor poderia levar as mesmas videiras de cabernet para uma zona mais fresca próxima, como Lake County, onde o custo da terra é muito inferior. O problema surge no rótulo.
A cabernet de Lake County vende por menos de um terço do preço de Napa, pelo que, na maioria dos cenários, mudar de região foi a alternativa com pior retorno.
A conclusão é clara: uma carignane cultivada em Napa vale mais do que uma cabernet produzida noutro local, o que indica que o lugar pesa ainda mais do que a casta.
Os consumidores podem recompensar a adaptação
A equipa chegou a estes resultados através de um inquérito a mais de 300 compradores de vinho nos Estados Unidos.
Cada participante viu o mesmo vinho duas vezes: uma apresentação “neutra” e outra com uma nota a explicar como o vinho tinha sido adaptado ao calor. Assim, os investigadores conseguiram medir quanto valia essa narrativa.
“It is safe to say that consumers are beginning to understand how climate change is affecting wine production,” disse Alex M. Susskind, professor de educação e gestão do vinho.
“And they appear to be willing to pay a price premium as wine makers adjust to the new their normal.”
Há, no entanto, um senão: esse dinheiro extra provavelmente não dura.
Com o tempo, as pessoas tendem a perder interesse por argumentos de venda “verdes”, pelo que a equipa assumiu que o aumento de preço se manteria apenas nos primeiros anos.
Em grande medida, o racional económico para adaptar a vinha depende desse entusiasmo inicial.
Não existe uma estratégia única
Então, qual é a escolha certa para um produtor? Depende do que acontecer com o clima.
Se o aquecimento for ligeiro, a cabernet “normal” em Napa continua a ser a opção vencedora. Com calor moderado, a rede de sombreamento justifica o investimento.
No cenário mais extremo, a carignane resistente passa para a frente.
E essa é a mensagem principal. Adaptar uma vinha não é uma solução que se instala e se esquece.
É uma sequência de apostas perante um futuro incerto, sempre avaliadas à luz de consumidores que podem - ou não - continuar seduzidos pela história contada no rótulo.
A equipa da Cornell não elimina essa incerteza, mas oferece aos produtores uma forma mais clara de a ponderar.
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