Da Hidra de Lerna ao psolus escarlate
A Hidra de Lerna não pertence apenas aos mitos: bastante menos temível do que a criatura enfrentada por Hércules na mitologia grega, o nome remete, na realidade, a um minúsculo animal de água doce capaz de se regenerar indefinidamente. E há ainda um “parente” marinho desta ideia de regeneração extrema: um pepino-do-mar do Canadá, o psolus escarlate, cujos tecidos conseguem manter-se vivos durante vários anos depois de serem amputados.
Alguns poucos animais - como a medusa Turritopsis dohrnii - parecem contornar a morte no sentido biológico do termo, o que lhe valeu o epíteto de “medusa imortal”. Outros, como os pepinos-do-mar (Holothuroidea), distinguem-se por uma regeneração fora do comum, recuperando partes do corpo perdidas. No mundo, estão descritas entre 1 250 e 1 700 espécies deste grupo, mas nenhuma se aproxima do psolus escarlate (Psolus fabricii) neste domínio. Esta espécie vive sobretudo no Atlântico Norte e no Oceano Ártico, sendo muito frequente no estuário e no golfo do São Lourenço (no Quebeque), ao longo da costa de Terra Nova e da Nova Escócia, e estendendo-se até ao golfo do Maine.
O estudo publicado na Science Advances
No dia 1.º de junho, uma equipa que juntou o Bigelow Laboratory for Ocean Science e a Memorial University of Newfoundland apresentou, na revista Science Advances, um artigo dedicado a este invulgar invertebrado. Há mais de três anos, os investigadores recolheram fragmentos de pódios (tubos locomotores) e de tentáculos de exemplares vivos de psolus escarlate e colocaram-nos em tanques com água do mar natural. Desde então, nenhum fragmento se degradou ou sofreu necrose, e os tecidos mantêm-se biologicamente activos - algo sem precedentes no reino animal.
Psolus escarlate: regeneração sem limite
Em condições normais, quando um tecido animal é retirado para ser mantido ex vivo (fora do organismo de origem), a sua sobrevivência em laboratório ronda, em média, nove semanas - e, ainda assim, exige ambientes controlados e estéreis. No caso do psolus escarlate, não houve qualquer sinal de enfraquecimento, apesar de os tecidos estarem submersos desde 2023 em água do mar não filtrada, rica em bactérias. Mais: reagem ao toque, o que indica que a rede nervosa continua funcional e que não ocorreu destruição celular.
Auto-reparação e mudança de cor
Os fragmentos chegaram mesmo a recompor-se por si próprios, sem intervenção dos investigadores. As células do sistema imunitário (fagócitos) digeriram as células mortas, abrindo caminho a uma fase de reparação, seguida de regeneração autónoma. Com o tempo, a coloração mudou do vermelho-alaranjado para um branco rosado translúcido, à medida que as células pigmentares se reorganizavam e estabilizavam no tecido recém-formado (ver foto abaixo).
Comparação com outras espécies e o enigma científico
A equipa tentou replicar exactamente o mesmo protocolo com outros pedaços de tecido retirados de diferentes espécies de pepinos-do-mar, mas nenhum resistiu mais de três meses e meio nas mesmas condições. Para Rachel Sipler, biogeoquímica marinha do Bigelow Laboratory e autora principal do estudo: “É como um lagarto que perde a cauda. Sabemos que alguns lagartos conseguem voltar a fazê-la crescer; mas aqui perguntamo-nos se a cauda consegue fazer crescer um novo lagarto”.
Em teoria, os apêndices do psolus escarlate poderiam dar origem a um novo animal completo - uma aptidão sem equivalente documentado, mesmo entre espécies consideradas campeãs da regeneração. Vermes como as planárias (Rhabditophora), estrelas-do-mar (Asteroidea), axolotes (Ambystoma mexicanum) ou as hidras de água doce (Hydra) conseguem clonar o próprio corpo a partir de um fragmento. No entanto, no caso do psolus escarlate, a regeneração acontece mesmo quando o restante organismo já não existe.
Por agora, os cientistas ainda não sabem como justificar o poder de auto-regeneração de *P. fabricii* - uma incógnita que, segundo Sipler, reflecte na perfeição o estado actual do conhecimento sobre a biologia dos fundos marinhos. “É um lembrete de tudo o que ainda falta descobrir […]”, sublinha. De facto, o consenso científico aponta que só explorámos cerca de 5 a 10% destes ecossistemas, em grande parte por serem de acesso muito difícil. O próprio P. fabricii nem sequer é uma espécie particularmente rara e foi identificado no final do século XIX em zonas costeiras; um sinal de que as profundezas provavelmente escondem criaturas ainda mais improváveis.
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