Uma leitura de açúcar no sangue conta uma história simples, e grande parte do tratamento apoia-se em valores como esse. Ainda assim, nenhum número traduz o sofrimento de viver com diabetes no dia a dia.
Esse indicador também não mostra o que uma pessoa sente ao carregar a doença. Dados recentes sugerem que a parte mais difícil da diabetes pode ser precisamente aquilo que nenhum exame de laboratório consegue medir.
Dar nome à angústia da diabetes
Cerca de uma em cada três pessoas com diabetes tipo 2 vive com o que os investigadores designam por angústia da diabetes. Trata-se de um peso contínuo de preocupação, frustração e medo associado às exigências de gerir a condição.
Como esta tensão raramente se torna visível numa consulta de rotina, tanto doentes como médicos acabam muitas vezes por não a identificar. Uma equipa liderada por Bandar S. Alharbi, da King Saud University (KSU) em Riade, Arábia Saudita, procurou perceber o que está por trás desse sofrimento.
Para isso, o grupo inquiriu 438 adultos com diabetes em quatro unidades de cuidados de saúde primários da cidade.
Sabe-se, a partir de uma grande revisão, que níveis mais elevados de angústia tendem a acompanhar pior controlo da glicemia, falhas no cumprimento do tratamento e mais complicações.
O que permanecia pouco claro era o que faz com que um diagnóstico se transforme numa carga que a pessoa sente todos os dias.
Sentimentos acima dos factos
O inquérito avaliou duas formas de uma pessoa se relacionar com a sua doença. Uma é uma avaliação mais fria sobre a gravidade do problema e o que poderá custar no futuro. A outra é a resposta emocional - a preocupação e o medo.
Quando os investigadores analisaram os resultados, apenas uma dessas dimensões se destacou: a emoção em bruto, e não a gravidade que as pessoas atribuíam à sua diabetes. A preocupação e o medo acompanharam de perto a angústia, enquanto essas crenças, por si só, não mostraram ligação.
Esta separação é o achado central do estudo. Até aqui, muitos conselhos dados aos doentes assentavam sobretudo em explicar o quão perigosa a diabetes pode ser.
Os dados apontam noutra direcção. O fardo parece depender muito mais de como o doente se sente em relação à doença do que da forma como avalia, racionalmente, a sua gravidade.
O fio da catastrofização
A equipa examinou ainda a catastrofização da dor - a tendência para ruminar sobre a dor, antecipar o pior e sentir-se impotente perante ela. A diabetes não é, na sua essência, uma doença dominada pela dor, mas este padrão mental estendeu-se muito para além dela.
As pessoas com pontuações elevadas em catastrofização apresentaram muito mais angústia, com uma associação forte. A maior parte dessa ligação parecia passar pela via emocional, e não por um raciocínio distanciado, uma vez que a fixação no pior cenário escurecia a forma como os doentes se sentiam.
Em conjunto, a catastrofização e as crenças sobre a doença explicaram cerca de dois terços da diferença entre um doente tranquilo e outro sobrecarregado. Para um fenómeno tão complexo como a tensão emocional, é uma percentagem notável.
Três tipos de doentes
Em vez de tratar todos os participantes como um único grupo, os investigadores organizaram-nos de acordo com a carga psicológica. Surgiram três padrões nítidos.
Houve um grupo com pouca pressão, um grupo intermédio e um terceiro que vivia com angústia intensa e crenças mais sombrias sobre a doença.
As diferenças não foram ao acaso. No grupo de maior carga, as pessoas tinham, em geral, diabetes há muito mais tempo. Além disso, apresentavam complicações a uma taxa aproximadamente cinco vezes superior à do grupo de menor carga - um desfasamento acentuado.
A escolaridade mostrou a tendência oposta. Doentes com licenciatura tinham muito menos probabilidade de integrar os grupos com maior angústia. Mais anos de estudo parecem aliviar o peso, embora este estudo não permita explicar o motivo.
Porque o número engana
Uma consulta centrada em valores laboratoriais pode soar tranquilizadora mesmo quando o doente está, em silêncio, a afundar-se. As análises parecem bem, a consulta termina e a carga emocional fica por dizer.
Este trabalho ajuda a perceber como essa carga se forma. A angústia não é apenas uma resposta a maus resultados. Ela cresce a partir da forma como a pessoa interpreta e sente a sua condição.
E essa tensão também se reflecte no corpo, estando associada a pior controlo da glicemia e a mais complicações, como indicou um estudo. Duas pessoas com registos clínicos semelhantes podem carregar pesos completamente diferentes.
É aqui que reside o ponto cego dos cuidados actuais. Uma leitura não mostra medo. Não mostra o doente que passa a noite acordado a preparar-se para o pior, mesmo quando a doença está, no papel, controlada.
Ajudar os doentes a lidar
A mensagem mais directa é que reduzir a angústia implica cuidar de sentimentos, e não apenas de factos. Acumular avisos sobre os perigos da diabetes pode não ajudar em nada. Pior ainda, pode aumentar o medo sem oferecer ferramentas reais para lidar.
O que tende a ser útil actua directamente sobre pensamentos e emoções. Intervenções que acalmam a catastrofização e aliviam a tensão emocional já reduziram a angústia noutras ocasiões, e um ensaio com apoio psicológico sustenta essa ideia.
Para os cuidados do dia a dia, a implicação é clara. Os médicos poderiam rastrear a tensão emocional do mesmo modo que já monitorizam a glicemia e encaminhar os casos mais pesados para apoio psicológico adequado.
Segundo os investigadores, identificar o sentimento cedo pode traduzir-se em melhores resultados físicos mais tarde. A angústia não é um detalhe: é uma alavanca.
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