Dietas cetogénicas com alto teor de gordura e baixo teor de hidratos de carbono continuam a ser motivo de debate, mas um novo estudo em ratos indica que podem, de facto, trazer melhorias de saúde em situações específicas - sobretudo quando são combinadas com exercício.
Investigadores de várias instituições dos EUA observaram que, ao colocar ratos com glicemia elevada (hiperglicemia) numa dieta cetogénica rigorosa e particularmente extrema, os níveis de açúcar no sangue regressaram a valores normais.
Dieta cetogénica e normalização da glicemia na hiperglicemia
Segundo a equipa, a resposta foi rápida. "Após uma semana na dieta cetogénica, o açúcar no sangue estava completamente normal, como se não tivessem diabetes", afirma a fisiologista Sarah Lessard, da Virginia Tech Carilion.
O trabalho foi motivado por resultados anteriores dos mesmos investigadores. Em estudos prévios, tinham verificado que a hiperglicemia atrapalhava as alterações musculares típicas induzidas pelo treino em ratos e, com isso, atenuava os ganhos na capacidade aeróbia.
Deste modo, surgiu a hipótese de que uma dieta cetogénica - frequentemente associada a melhor controlo do açúcar no sangue - poderia ajudar a recuperar as perdas observadas na resposta ao exercício.
Ainda assim, esse desfecho não era garantido. A dieta cetogénica recebe esse nome porque, ao carregar a alimentação em gordura, induz cetose: um estado metabólico em que o organismo passa a usar gordura como combustível, em vez de açúcar. Como esse mecanismo afetaria (ou não) a eficiência do exercício não era claro.
Exercício e VO₂peak: efeitos combinados da dieta cetogénica
O estudo também mostrou que, depois de oito semanas na dieta, quando os ratos fizeram exercício, a atividade pareceu amplificar os efeitos alimentares. A capacidade aeróbia, ou VO₂peak - isto é, quão bem o oxigénio é utilizado no corpo durante o exercício - aumentou; além disso, os músculos tornaram-se mais resistentes à fadiga e mais ricos em oxigénio.
Lessard descreve que as alterações não se limitaram à glicemia. "Com o tempo, a dieta provocou remodelação dos músculos dos ratos, tornando-os mais oxidativos e fazendo com que respondessem melhor ao exercício aeróbio."
No conjunto, os dados sugerem que a dieta pode inverter tanto o açúcar no sangue elevado como certas ineficiências ligadas ao exercício - mas com ressalvas importantes: até agora, isto só foi testado em ratos, e as melhorias associadas ao exercício não foram observadas em animais com glicemia normal.
Desempenho, hidratos de carbono e sinais nos músculos
Houve ainda outra limitação: os ratos cuja VO₂peak foi restaurada não apresentaram melhorias no desempenho real do exercício - possivelmente por falta de hidratos de carbono. Quando os hidratos de carbono foram acrescentados à alimentação destes animais, o desempenho voltou a subir.
A equipa conseguiu também analisar mais de perto alguns dos sinais nos vasos sanguíneos e nos músculos desencadeados pela cetose, o que aponta para um papel ativo - e não apenas passivo - desse estado metabólico.
"O que estamos realmente a descobrir com este estudo e com os nossos outros estudos é que a dieta e o exercício não estão simplesmente a atuar de forma isolada", diz Lessard.
"Há muitos efeitos combinados e, por isso, podemos obter mais benefícios do exercício se, ao mesmo tempo, tivermos uma alimentação saudável."
Estudos anteriores já tinham mostrado que, em pessoas com diabetes, manter a capacidade aeróbia elevada pode reduzir o risco de complicações de saúde adicionais; estes resultados sugerem mais uma possibilidade para minimizar esses riscos.
Para quem tem glicemia elevada, a implicação é que podem ser necessárias abordagens diferentes à alimentação e ao exercício para preservar a saúde e o desempenho aeróbio - um tema que estudos futuros poderão explorar.
Entretanto, já estão planeados ensaios em humanos, e deverão fornecer dados mais diretamente aplicáveis. Embora os estudos em animais sejam úteis, nem sempre contam a história completa; além disso, a dieta cetogénica administrada neste estudo foi, por exemplo, uma versão muito extrema.
Também é importante não interpretar estes resultados como uma solução universal que funcione para toda a gente. Os investigadores sublinham que a dieta cetogénica é uma das mais difíceis de manter e que alternativas como a dieta mediterrânica podem ser mais adequadas para quem pretende reduzir o açúcar no sangue.
"Os nossos estudos anteriores mostraram que qualquer estratégia, acordada entre si e o seu médico, para reduzir o açúcar no sangue pode resultar", afirma Lessard.
A investigação foi publicada na Nature Communications.
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