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Estudo revela que sonhos imersivos fazem o sono parecer mais profundo

Mulher deitada na cama a ler um livro, com luz natural e relógio inteligente no pulso.

Um novo estudo vem introduzir um factor inesperado na conversa sobre descanso.

Entre sleep trackers, contadores de passos e aplicações, nunca analisámos tanto as nossas noites - e, ainda assim, muitas vezes acordamos com a sensação de não termos recuperado. Investigadores em Itália apontam agora um caminho explicativo interessante: não parece contar apenas a duração e a profundidade do sono, mas também a intensidade e a vivacidade com que sonhamos.

O que a investigação analisou ao certo

A equipa da IMT School for Advanced Studies in Lucca acompanhou 44 adultos saudáveis durante várias noites num laboratório do sono. No total, foram obtidos 196 registos completos de sono.

Para o estudo, recorreu-se a um EEG de alta resolução, ou seja, à medição da actividade eléctrica do cérebro. Este método permite identificar com grande precisão em que fase do sono a pessoa se encontra e quão activo está o cérebro naquele momento.

O ponto-chave do protocolo foi o seguinte: os participantes eram acordados repetidamente, por breves instantes, durante fases de sono Non-REM. Logo após acordarem, tinham de relatar três aspectos:

  • se, naquele instante, tinham estado a sonhar ou apenas a pensar em algo;
  • quão vívido e “imersivo” tinha sido esse sonho ou pensamento;
  • quão profundamente sentiam, de forma subjectiva, que tinham estado a dormir.

Desta forma, os investigadores reuniram mais de 1.000 momentos de despertar - isto é, mais de 1.000 pequenos “instantâneos” do que as pessoas vivem, de forma consciente ou semi-consciente, durante a noite.

Resultado inesperado: sonhos intensos são sentidos como sono profundo

"As pessoas sentiram que dormiam mais profundamente quando não tinham vivido nada de forma consciente - ou quando estavam mergulhadas num sonho vívido e intenso."

Os dados revelaram um padrão claro: os participantes descreviam o sono como particularmente profundo em duas circunstâncias:

  • Não tinham qualquer memória consciente de pensamentos ou sonhos.
  • Contavam sonhos muito vívidos e imersivos - experiências oníricas em que se sentiam “puxados” para dentro.

Já pensamentos leves e fragmentados, ou apenas vestígios ténues de sonhos, foram mais frequentemente associados a um sono sentido como superficial e pouco reparador. Isto contraria a ideia comum de que muito “cinema na cabeça” significa, automaticamente, uma noite agitada.

O investigador principal, Giulio Bernardi, resume a implicação: nem toda a actividade mental durante o sono é vivida do mesmo modo. O que parece pesar é o grau de envolvimento do sonho - a sensação de estar dentro de um mundo onírico coeso e contínuo.

E o sono profundo e o REM - isto faz sentido em conjunto?

Muita gente conhece a equação simplificada de vários guias: sono profundo = pouca actividade cerebral; sonhos = fases mais activas, como o sono REM. Este trabalho põe em causa esse contraste a preto e branco.

Até agora, assumia-se que, no sono profundo - isto é, nas fases profundas do Non-REM - predomina a actividade cerebral lenta. A pessoa parece “desligada”. Em paralelo, os sonhos eram sobretudo ligados ao REM, em que o EEG pode assemelhar-se mais ao estado de vigília.

Os novos resultados sugerem que também durante fases Non-REM podem ocorrer sonhos complexos e marcantes. E, de forma importante, esses episódios podem reforçar a percepção de ter dormido mesmo profundamente - mesmo quando o cérebro, do ponto de vista mensurável, não estava no máximo “atenuado”.

"Quanto mais marcante é a experiência do sonho, mais profundo o sono parece em retrospectiva - independentemente de quão 'calmo' o EEG aparenta."

Sono subjectivo vs. medições objectivas

Até aqui, a medicina do sono tem assentado fortemente em marcadores objectivos, como:

  • padrões de ondas cerebrais no EEG;
  • estádios de sono atribuídos (sono leve, sono profundo, REM);
  • duração total do sono e número de despertares.

Este estudo evidencia o quanto a experiência subjectiva pode divergir dessas métricas. Alguns participantes afirmaram sentir que dormiam cada vez mais profundamente à medida que se aproximava a manhã - apesar de os dados biológicos sugerirem que, nessa altura, a pressão do sono já diminuía. Em simultâneo, os sonhos tornavam-se cada vez mais imersivos.

Esta mudança aponta para uma possibilidade: o cérebro pode já não estar na fase biologicamente “mais profunda”, mas o sonho pode, ainda assim, fornecer uma sensação de profundidade e de segurança.

Porque é que estes achados interessam a quem dorme mal

Muitas pessoas queixam-se de “dormir mal” mesmo quando exames em laboratório mostram estruturas de sono perfeitamente normais. Para os especialistas, isto é um problema conhecido: os dados objectivos parecem bons, mas a pessoa continua a acordar exausta.

A investigação actual oferece uma explicação possível: se as experiências oníricas mudarem - tornando-se menos intensas, mais fragmentadas ou desagradáveis - o sono pode ser sentido como mais superficial, mesmo que os dispositivos indiquem o contrário.

"Quem quase não consegue mergulhar em mundos de sonho coerentes e consistentes pode sentir-se menos recuperado de manhã - mesmo com duração de sono suficiente."

Em termos práticos, isto significa que as intervenções podem não se dever focar apenas em duração do sono, tempo para adormecer ou frequência de despertares. A qualidade da vivência interna durante a noite entra, também, na equação.

Possíveis caminhos para o futuro

A investigação ainda está numa fase inicial, mas podem imaginar-se, por exemplo:

  • diários de sonhos orientados, para identificar padrões nos conteúdos e na percepção do sono;
  • abordagens psicoterapêuticas para trabalhar sonhos perturbadores ou muito fragmentados;
  • treinos que explorem sonhos lúcidos ou a alteração consciente de cenários oníricos;
  • aplicações que olhem menos para a duração do sono e mais para a recuperação subjectiva e a qualidade dos sonhos.

O que “sonhos imersivos” significam no dia-a-dia

À primeira vista, “imersivo” parece um termo técnico, mas descreve algo muito comum: sonhos em que se entra por completo. Sente-se o ambiente, vive-se uma acção clara e surgem emoções fortes - positivas ou negativas.

Exemplos típicos de sonhos em que nos sentimos “lá dentro”:

  • Caminhar por uma cidade, reconhecer ruas, ouvir sons e sentir o vento.
  • Ter uma conversa intensa com alguém importante.
  • Viver uma cena emocionante ou comovente como num filme, com enredo e emoção.

Estes sonhos podem parecer muito reais. E é precisamente esse sentimento de “estar no meio” que, de acordo com o estudo, se liga de perto à sensação de ter dormido profundamente.

Pesadelos, stress e qualidade do sono

A questão torna-se ainda mais interessante quando pensamos em pesadelos. Muitas vezes, são extremamente imersivos - mas com carga negativa. O estudo não se centrou especificamente em pesadelos, mas é possível inferir que não é só a intensidade: a tonalidade emocional do sonho também deverá influenciar.

Quem sonha frequentemente com ameaça, perseguição ou falhanço pode acordar com a sensação de “ter acontecido muita coisa na cabeça”, mas não necessariamente com a ideia de ter recuperado. Para pessoas com perturbações de ansiedade ou com stress pós-traumático, a qualidade dos sonhos pode ser, por isso, uma alavanca decisiva para melhorar o sono.

O que qualquer pessoa pode experimentar por si

Embora este trabalho seja sobretudo investigação de base, é possível retirar alguns passos práticos para o quotidiano:

  • Promover a recordação de sonhos: ter um caderno junto à cama ajuda a registar os sonhos imediatamente ao acordar. Só isso já aumenta, em muita gente, a atenção ao que viveu durante a noite.
  • Acalmar a rotina nocturna: menos stress e menos estímulos antes de dormir tendem a favorecer sonhos mais coerentes e menos caóticos.
  • Levar imagens positivas para a cama: pensar deliberadamente, antes de adormecer, em cenas agradáveis - férias, natureza, encontros felizes - dá ao cérebro um ponto de partida mais “amigo”.
  • Olhar para as apps com espírito crítico: estatísticas de pura duração do sono contam apenas metade da história. A percepção de recuperação deve entrar sempre na avaliação.

Assim, o sono parece menos um processo estritamente biológico, definido apenas por minutos e ondas cerebrais. Aproxima-se mais de uma viagem: a forma como a vivemos pode determinar, no fim, se acordamos frescos ou esgotados.

O novo estudo tira os sonhos do lugar de “adereço colorido” e coloca-os no centro do debate sobre o sono. Quem quer acordar mais recuperado talvez deva olhar não só para o relógio - mas também para o que acontece na cabeça durante a noite.


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