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Exossomas intestinais e envelhecimento do intestino: novas pistas

Cientista a analisar frasco com líquido no laboratório com intestinos destacados na imagem.

A maior parte da investigação sobre saúde intestinal tem colocado o foco nas próprias bactérias - identificar que microrganismos vivem no intestino e de que forma a alimentação os altera.

Por detrás dessa abordagem esteve, durante muito tempo, a ideia de que as bactérias fazem praticamente todo o trabalho relevante, enquanto o restante intestino se limita a fornecer o “habitat” onde elas existem.

No entanto, as células que revestem o intestino libertam continuamente algo que não depende das bactérias: partículas minúsculas, carregadas de proteínas e fragmentos de código genético, que flutuam no líquido intestinal.

Um novo estudo decidiu olhar, antes de mais, para essas partículas e revelou um aspecto que a visão “bactérias em primeiro lugar” do envelhecimento do intestino não estava a captar.

Os mensageiros secretos do intestino

Investigadores da Joan C. Edwards School of Medicine, da Marshall University, procuraram testar uma hipótese que tem ganho força na investigação do envelhecimento.

Se os animais mais velhos tendem a desenvolver um revestimento intestinal mais permeável, inflamação crónica e alterações metabólicas, será que o intestino é apenas um “danificado” passivo do envelhecimento - ou estará, activamente, a enviar sinais de envelhecimento ao resto do organismo?

O Dr. Abdelnaby Khalyfa, professor de ciências biomédicas, centrou-se nos exossomas libertados para o interior do tracto intestinal.

Os exossomas são vesículas microscópicas que as células libertam por todo o corpo, transportando proteínas, fragmentos de ARN e outras moléculas de um tecido para outro.

Na prática, são uma das principais vias de comunicação celular à distância.

O que vai dentro das partículas intestinais

Um estudo anterior já tinha mostrado que os exossomas conseguem transportar reguladores pequenos, chamados microARN, entre células, ajustando a actividade genética no destino.

O conteúdo transportado depende de quem o envia. A hipótese da equipa era que o envelhecimento altera essa “carga” e que, ao mudar a carga, muda também a resposta de quem a recebe.

Para pôr isto à prova, os investigadores recolheram exossomas intestinais de ratos jovens e de ratos idosos e fizeram transferências cruzadas entre grupos.

Os animais jovens receberam exossomas do grupo mais velho, enquanto os animais mais velhos receberam exossomas do grupo jovem.

Partículas do intestino aceleram o envelhecimento

Nos ratos jovens que receberam a carga dos ratos idosos, o efeito não se ficou por uma variação química discreta. O revestimento intestinal tornou-se mais solto e os marcadores de inflamação aumentaram.

Em paralelo, os perfis metabólicos começaram a aproximar-se dos de animais bastante mais velhos. A sinalização da insulina - o principal “interruptor” do organismo para retirar açúcar do sangue e colocá-lo no interior das células - degradou-se.

Em condições normais, ratos jovens e saudáveis não deveriam entrar em resistência à insulina após uma breve transferência destas partículas intestinais, mas foi o que aconteceu.

Partículas jovens revertem parte dos danos

A segunda metade da experiência foi ainda mais marcante. Ratos idosos que receberam exossomas de dadores jovens viram várias alterações metabólicas associadas ao envelhecimento recuar, incluindo uma parede intestinal mais estanque e uma inflamação mais silenciosa.

Este resultado em dois sentidos distingue este trabalho de estudos anteriores com transplantes.

Há muito que se suspeitava que algo transportado por dadores jovens poderia, em parte, “resgatar” um sistema envelhecido, mas não era claro qual era o componente responsável.

Agora, a equipa reduziu as possibilidades - não são as bactérias, não é a alimentação, mas sim as próprias partículas secretadas.

O envelhecimento fragiliza as defesas do intestino

A barreira intestinal é um revestimento com apenas uma célula de espessura, que separa as bactérias, os alimentos e os resíduos presentes no intestino da corrente sanguínea.

Quando esta barreira se mantém apertada, o conteúdo fica onde deve ficar. Quando se torna mais permeável, fragmentos bacterianos e estímulos inflamatórios conseguem passar para a circulação.

A exposição crónica a esses fragmentos “fugitivos” tem sido associada a uma lista extensa de condições relacionadas com a idade.

Um artigo recente concluiu que adultos mais velhos com barreiras intestinais mais permeáveis apresentavam perfis de risco cardiovascular piores, incluindo níveis mais elevados de glucose no sangue e alterações no metabolismo das gorduras.

Os resultados da equipa da Marshall sugerem que os exossomas podem contribuir para iniciar essa degradação.

A leitura do código molecular

Para além dos efeitos observados nas transferências, a equipa fez um inventário do que os exossomas continham, recorrendo a perfil multi-ómico - análise de proteínas e sequenciação de ARN realizadas em paralelo.

A carga proveniente de ratos idosos estava enriquecida em moléculas cujos perfis se associavam a vias ligadas ao cancro, a alterações cerebrais e comportamentais e a problemas metabólicos.

Já as partículas dos ratos jovens exibiam um padrão muito diferente.

Também surgiram diferenças entre ratos machos e fêmeas, sugerindo que o envelhecimento poderá enviar sinais químicos ligeiramente distintos consoante o sexo.

O gatilho escondido da inflamação

A inflamação ligeira e sistémica - por vezes chamada inflamação do envelhecimento - tem sido apontada como um denominador comum em doenças associadas à idade.

Uma revisão que sintetizou décadas de investigação relacionou este fenómeno com doença cardíaca, diabetes, neurodegeneração e fragilidade.

“Este estudo ajuda a clarificar como os factores de stress fisiológico associados ao envelhecimento biológico podem acelerar processos biológicos ligados ao envelhecimento e à doença”, afirmou Khalyfa.

O artigo não defende que os exossomas, por si só, expliquem a inflamação do envelhecimento. Ainda assim, coloca-os de forma inequívoca entre os principais suspeitos.

Futuras terapias antienvelhecimento

Para levar estas conclusões para humanos, será necessário medir directamente os exossomas intestinais em pessoas mais velhas e avançar para ensaios clínicos.

A equipa já identificou moléculas específicas dentro destas partículas que poderão funcionar como marcadores de diagnóstico e, mais tarde, como alvos terapêuticos.

Aquilo que antes não era visível passou agora a estar ao alcance: o envelhecimento altera a carga dos mais pequenos mensageiros do intestino, e essa carga modificada pode empurrar um corpo jovem para um estado biológico mais velho - ou trazer um corpo envelhecido parcialmente de volta.

Se for possível filtrar ou modificar exossomas, os médicos poderão, um dia, intervir no declínio associado à idade sem mexer nas bactérias nem no menu.

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