Convencer as crianças a comer de forma saudável é um desafio comum para muitos pais, e um pequeno estudo recente indica que a gravidez pode ser uma fase particularmente eficaz para influenciar os gostos das crianças pequenas.
Uma equipa de investigação observou que as crianças que, ainda antes de nascer, tiveram contacto com determinados vegetais através da alimentação das mães tendiam, aos três anos, a reagir menos negativamente ao cheiro desses mesmos alimentos.
Para além de ajudar a esclarecer até que ponto os fetos conseguem captar estímulos durante a gestação, estes resultados apontam para a possibilidade de reduzir a aversão infantil a vegetais antes mesmo de as crianças terem consciência deles.
O trabalho foi conduzido por investigadores da Universidade de Durham e da Universidade de Aston, no Reino Unido, e sugere que preferências e rejeições estabelecidas no útero podem manter-se até à primeira infância.
"O que vemos ao longo do tempo é que as crianças continuam a mostrar-se mais favoráveis aos vegetais a que foram expostas enquanto estavam no útero", afirma a psicóloga Nadja Reissland, da Universidade de Durham.
"A partir daqui, podemos sugerir que a exposição a um determinado sabor no final da gravidez pode resultar numa memória duradoura de sabores ou odores nas crianças, potencialmente moldando as suas preferências alimentares anos após o nascimento."
O que o estudo analisou sobre a exposição pré-natal a vegetais
As mesmas crianças já tinham participado numa investigação anterior, na qual foram expostas a cenoura e a couve frisada através da dieta das mães. Ainda antes do nascimento - às 32 e 36 semanas de gestação - os investigadores recorreram à ecografia para registar as respostas faciais fetais depois de as mães ingerirem uma cápsula de alta concentração com pó de couve frisada ou com pó de cenoura.
Conforme descrito num estudo de 2022, surgiram indícios de que os bebés por nascer reagiam a esses sabores e cheiros.
Sabe-se que, no terceiro trimestre (cerca de 28 semanas de gravidez), os seres humanos já estão suficientemente desenvolvidos para perceber sabores e odores no líquido amniótico que envolve o feto, o qual recebe substâncias vindas da mãe através da placenta.
Como foi testada a reacção das crianças aos 3 anos
Neste novo passo, a equipa procurou perceber se essas reacções iniciais - e a possível “aprendizagem” associada - continuavam presentes na infância. Aos três anos, 12 das crianças foram expostas aos odores de couve frisada e de cenoura em cotonetes, e as suas respostas a cada cheiro foram classificadas como "rosto a chorar" (negativa) ou "rosto feliz" (positiva).
No conjunto, as crianças de três anos mostraram menos reacções negativas ao vegetal a que tinham sido expostas no útero do que ao outro. A couve frisada, por ser mais amarga, provocou mais respostas negativas de forma geral, mas a exposição precoce pareceu atenuar essas reacções.
Limitações do estudo e o que poderá ser explorado a seguir
O estudo tem limitações importantes, incluindo o número muito reduzido de participantes e o facto de envolver apenas uma população. Além disso, as crianças não chegaram a comer os alimentos nem fizeram escolhas alimentares concretas; e, entre o nascimento e os três anos, não houve monitorização que permitisse excluir a influência de contactos posteriores com esses sabores.
Ainda assim, os resultados são suficientemente relevantes para justificarem investigação adicional.
Trabalhos futuros poderão incluir amostras maiores e acompanhar as crianças de forma mais detalhada ao longo do tempo. Também poderão considerar outros factores que interferem nas preferências alimentares - que são muitos, como os próprios autores reconhecem.
"É importante notar que as preferências de sabor e os hábitos alimentares são influenciados por uma interacção complexa de factores genéticos, ambientais e culturais", escrevem os investigadores no artigo publicado.
"Por exemplo, diferenças genéticas entre indivíduos desempenham um papel importante na forma como vários alimentos e odores são experienciados. Assim, predisposições genéticas, que originam diferentes níveis de sensibilidade aos sabores, podem alterar a importância dos efeitos da exposição pré-natal."
Porque é que isto importa para a saúde
É bem conhecido que muitas crianças são esquisitas a comer, e orientar preferências desde cedo pode, em teoria, contribuir para uma população globalmente mais saudável.
A ciência tem mostrado que uma alimentação equilibrada tem efeitos em cadeia em praticamente todas as dimensões da saúde física e mental - desde a longevidade e o risco de cancro até à obesidade e a doenças como a de Alzheimer.
É também mais um motivo - entre muitos - para as pessoas grávidas prestarem atenção ao que comem: estudos anteriores já identificaram associações com a saúde cardiovascular e com condições relacionadas com o neurodesenvolvimento, por exemplo.
"Estes resultados reforçam ainda mais a utilização da exposição pré-natal para melhorar a aceitação, por parte das crianças, de vegetais frequentemente rejeitados", afirma a psicóloga Jacqueline Blissett, da Universidade de Aston.
A investigação foi publicada na revista Psicobiologia do Desenvolvimento.
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