A maioria de nós quase não pensa em conservantes alimentares, apesar de estarem presentes em muitos dos alimentos que consumimos diariamente.
São acrescentados a pão, iogurtes, refeições congeladas, carnes curadas, cereais e molhos para prolongar a sua durabilidade.
Muita gente mal repara nos pequenos códigos impressos nos rótulos, porque estes aditivos passaram a fazer parte da normalidade na alimentação moderna.
Durante anos, os reguladores consideraram os conservantes seguros desde que, nas quantidades aprovadas, não causassem danos imediatos. Porém, um novo estudo indica que os efeitos na saúde a longo prazo podem ser mais graves do que se pensava.
Falta de evidência sobre conservantes alimentares
Há décadas que os cientistas têm dificuldade em estudar devidamente os conservantes em populações humanas, em parte porque os alimentos processados mudam constantemente.
Os fabricantes reformulam produtos sem grande aviso ao público e, ao mesmo tempo, dois alimentos quase iguais podem trazer combinações totalmente diferentes de aditivos.
Muitos estudos de nutrição mais antigos acompanhavam os alimentos em categorias amplas, mas acabavam por não identificar quais eram, ao certo, os químicos que entravam no organismo todos os dias.
Investigadores acompanham conservantes alimentares
Esta lacuna levou a equipa do projecto NutriNet Santé a desenvolver uma das análises mais detalhadas alguma vez tentadas sobre conservantes alimentares e saúde cardiovascular.
"Os conservantes alimentares são utilizados em centenas de milhares de alimentos industrialmente processados", acrescentou Anaïs Hasenböhler, uma das principais autoras.
"Estudos experimentais sugerem que alguns aditivos conservantes podem ser prejudiciais para a saúde cardiovascular, mas não tínhamos evidência suficiente sobre o impacto destes ingredientes em humanos."
Dietas acompanhadas com grande detalhe
A investigação baseou-se em dados de mais de 112.000 adultos franceses participantes no estudo NutriNet Santé, iniciado em 2009.
Ao longo de vários anos, os participantes registaram repetidamente diários alimentares pormenorizados, incluindo as marcas e os produtos exactos consumidos.
Depois, os investigadores cruzaram esses registos com bases de dados de composição de alimentos e com análises laboratoriais, estimando a exposição a conservantes com uma precisão pouco habitual.
Este nível de detalhe é importante porque a ingestão de conservantes raramente vem de uma única fonte.
Uma sanduíche embalada ao almoço, cereais de manhã, carne processada ao jantar e molhos engarrafados ao longo da semana podem, com o tempo, criar um fluxo contínuo de exposição durante muitos anos.
Risco de hipertensão aumenta
Em quase oito anos de acompanhamento, a equipa registou milhares de problemas cardiovasculares, sendo a hipertensão o padrão mais evidente.
Os participantes com maior consumo de determinados conservantes alimentares apresentaram um risco de hipertensão significativamente superior ao dos que consumiam menos. Em vários grupos, também se verificou um aumento do risco de doença cardiovascular.
Alguns aditivos conhecidos destacaram-se rapidamente. O sorbato de potássio, identificado como E202 e frequentemente adicionado a produtos de padaria e lacticínios, revelou uma das associações mais fortes.
O nitrito de sódio, ou E250, responsável pela cor rosa viva das carnes curadas, apareceu também de forma recorrente nos resultados. Os sulfitos, muitas vezes presentes no vinho e em fruta seca, foram igualmente ligados a taxas mais elevadas de hipertensão.
Até a vitamina C levantou dúvidas
Os achados mais inesperados envolveram aditivos que muitas pessoas quase nunca questionam.
O ácido ascórbico, indicado como E300 e amplamente reconhecido como vitamina C, mostrou associações com maior risco de hipertensão e de doença cardiovascular quando utilizado como conservante.
O ácido cítrico e o extracto de alecrim também surgiram entre os aditivos associados a risco acrescido.
Porque é que o contexto do alimento importa
À primeira vista, isto soa contraditório, já que os alimentos ricos em vitamina C são amplamente associados à saúde do coração.
Os investigadores consideram que a explicação pode estar no chamado matriz alimentar, ou seja, o ambiente nutricional mais amplo que rodeia uma molécula.
A vitamina C numa laranja existe juntamente com fibra, água e compostos vegetais que influenciam a digestão e a absorção.
A mesma molécula num alimento muito processado pode comportar-se de forma diferente quando combinada com estabilizantes, açúcares, emulsionantes, gorduras e ingredientes artificiais.
A química é a mesma, mas o contexto biológico pode mudar de forma marcante.
Como os conservantes alimentares podem prejudicar
O estudo não demonstrou exactamente de que modo os conservantes podem contribuir para a doença cardiovascular, embora os autores tenham apontado vários mecanismos possíveis já observados em estudos laboratoriais.
Alguns conservantes parecem capazes de desencadear stress oxidativo, que vai danificando células e tecidos gradualmente ao longo do tempo.
Outros podem interferir com a sensibilidade à insulina ou com a função pancreática, contribuindo potencialmente para perturbações metabólicas associadas à doença cardiovascular.
Os nitritos também podem formar compostos N-nitroso, químicos que já estão ligados a múltiplas preocupações de saúde.
Os investigadores suspeitam que o perigo a longo prazo possa não resultar de um único aditivo isolado. Em vez disso, o efeito cumulativo de exposições repetidas e em baixas doses a muitos conservantes pode, ao longo de décadas, sobrecarregar lentamente o sistema cardiovascular.
O estudo não prova causalidade
Os autores sublinharam que se trata de investigação observacional, não de uma prova directa de causalidade. O estudo encontrou associações, não certezas.
No grupo analisado, os participantes tendiam a ser mais conscientes em relação à saúde do que a população em geral, e alguns casos de hipertensão poderão não ter sido diagnosticados.
É possível, ainda, que factores de estilo de vida não totalmente captados expliquem parte dos resultados, apesar dos extensos ajustamentos estatísticos.
Limitações importantes do estudo
"Este estudo tem algumas limitações inerentes ao seu desenho observacional", afirmou Mathilde Touvier, directora de investigação no INSERM e autora sénior do estudo.
"No entanto, os resultados baseiam-se em dados altamente detalhados, e tivemos em conta outros factores que podem aumentar ou diminuir o risco de doença cardiovascular."
Mesmo com estas ressalvas, testes estatísticos adicionais sugeriram que as conclusões não são facilmente explicadas apenas por factores de confundimento.
Repensar a segurança dos conservantes alimentares
As actuais regras sobre aditivos alimentares concentram-se sobretudo na toxicidade aguda, no risco de cancro ou em danos no desenvolvimento. Os efeitos cardiovasculares a longo prazo têm recebido muito menos atenção nas avaliações de segurança.
Se investigações futuras confirmarem estes resultados, poderá ser necessário rever a forma como se calculam os níveis de ingestão diária aceitável.
Reguladores poderão rever orientações
"Estes resultados sugerem que precisamos de uma reavaliação dos riscos e benefícios destes aditivos alimentares pelas autoridades responsáveis, como a EFSA na Europa e a FDA nos E.U.A., para melhor protecção do consumidor", disse Touvier.
Isto não significa que os conservantes tenham de desaparecer por completo. Eles ajudam a evitar a deterioração, reduzem o desperdício alimentar e limitam a contaminação bacteriana. Os sistemas alimentares modernos teriam dificuldade em funcionar sem eles.
Ainda assim, o estudo coloca uma questão mais ampla que a ciência só recentemente começou a enfrentar com seriedade: o que acontece quando milhões de pessoas consomem pequenas quantidades de vários aditivos alimentares, todos os dias, durante toda a vida?
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário