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Dieta do abacate: benefícios para a saúde e o outro lado da produção

Pessoa a preparar tosta de abacate numa cozinha iluminada, com livro aberto e globo terrestre na mesa.

Os abacates tornaram-se presença habitual em muitas cozinhas, aparecendo em tostas, em batidos e como ingrediente principal do guacamole em praticamente qualquer convívio.

Há, aliás, especialistas que defendem que comer um abacate por dia pode mesmo acrescentar anos de vida, por melhorar a qualidade global da alimentação.

Para lá do sabor e da textura, o abacate destaca-se pelo valor nutricional. É uma fonte importante de gorduras saudáveis, sobretudo gordura monoinsaturada, associada à saúde do coração.

Este fruto fornece ainda várias vitaminas, como a vitamina K, a vitamina E e diversas vitaminas do complexo B, além de minerais como o potássio e o magnésio.

Outro ponto forte é o teor de fibra, que apoia a digestão e ajuda a manter a saciedade por mais tempo.

Então, onde está a controvérsia e de que forma comer abacate pode, na prática, melhorar a saúde e contribuir para uma maior longevidade?

A investigar a dieta do abacate

Foi esta a questão que levou Kristina Petersen, professora associada de ciências da nutrição, e Penny Kris-Etherton, professora aposentada da Escola de Ciências da Nutrição da Universidade Penn State, a avançarem com uma investigação.

As investigadoras coordenaram uma equipa para avaliar potenciais benefícios de consumir abacate diariamente. O trabalho foi publicado recentemente na revista Desenvolvimentos Atuais em Nutrição.

O objetivo do estudo era perceber se a introdução de um abacate por dia na dieta de uma pessoa poderia traduzir-se numa diferença relevante na qualidade geral da sua alimentação.

“Os abacates são um alimento de elevada densidade nutricional, com muita fibra e outros nutrientes importantes. Queríamos ver se o consumo regular deste alimento levaria a um aumento da qualidade da dieta”, explicou Petersen.

A investigadora acrescentou que estudos observacionais anteriores indicavam que quem consome abacate tende a apresentar melhor qualidade alimentar, mas era necessário perceber se existia uma relação direta de causa e efeito.

Como foi realizado o estudo

Como apenas cerca de 2% dos adultos norte-americanos consomem abacate de forma regular, a equipa quis perceber se a inclusão diária deste fruto poderia elevar a qualidade alimentar numa população mais ampla.

Antes do início do estudo e em vários momentos ao longo do processo, foram feitas entrevistas telefónicas aos participantes para avaliar a ingestão alimentar nas 24 horas anteriores.

Para medir o grau de cumprimento das Diretrizes Alimentares para os Americanos, os investigadores recorreram ao Índice de Alimentação Saudável.

No total, participaram 1.008 pessoas, distribuídas por dois grupos.

Um dos grupos manteve a alimentação habitual e limitou a ingestão de abacate durante as 26 semanas do estudo. O outro grupo passou a acrescentar um abacate por dia às suas refeições.

“Verificámos que os participantes que comeram um abacate por dia aumentaram de forma significativa a sua adesão às diretrizes alimentares”, afirmou Petersen.

“Isto sugere que estratégias, como comer um abacate por dia, podem ajudar as pessoas a seguir as diretrizes alimentares e a melhorar a qualidade das suas dietas.”

Surpresas na dieta do abacate

O que mais surpreendeu a equipa foi a forma como os participantes conseguiram melhorar a qualidade da alimentação.

“Concluímos que os participantes estavam a usar o abacate como substituto de alguns alimentos mais ricos em cereais refinados e sódio”, referiu Petersen.

Embora o abacate tenha contribuído para o aumento do consumo de vegetais, também se observou que muitas pessoas trocaram opções menos saudáveis por este fruto rico em nutrientes.

Uma dieta de fraca qualidade é um fator de risco importante para problemas como doença cardíaca, diabetes tipo 2 e doença renal.

“Ao melhorarmos a adesão das pessoas às diretrizes alimentares, podemos ajudar a reduzir o risco de desenvolverem estas doenças crónicas e prolongar a esperança de vida saudável”, disse Petersen.

O que acontece a seguir?

Petersen já analisou outras intervenções baseadas em alimentos, incluindo a relação entre pistácios e qualidade da dieta.

Na sua perspetiva, é necessária mais investigação para identificar outras estratégias alimentares que facilitem o cumprimento das diretrizes nutricionais.

“Em estudos como este, conseguimos identificar formas, através de alimentos, de melhorar a qualidade da dieta, mas também são necessárias estratégias comportamentais para ajudar as pessoas a cumprir as diretrizes alimentares e reduzir o risco de doença crónica”, sublinhou.

Para além da dieta: o impacto global do abacate

Ainda assim, a história do abacate não se resume aos benefícios individuais para a saúde - e não é necessariamente pelo motivo que se poderia esperar.

É aqui que entra Honor May Eldridge, especialista em políticas alimentares que trabalha para promover a agricultura sustentável em todo o mundo.

No seu livro, O Debate do Abacate, Eldridge explora as complexidades do sistema alimentar moderno através do “caso” do abacate.

“O abacate passou a representar muito mais do que apenas um fruto. Está associado a ideias de conflito entre gerações, caos ambiental e injustiça social”, explicou Eldridge.

“Ao longo do último século, graças a uma estratégia de marketing cuidadosa, evoluiu para uma cultura de mercadoria com uma enorme base de seguidores nas redes sociais.”

O lado negro das dietas do abacate

No entanto, o livro não procura demonizar o abacate nem quem o consome. O propósito é, antes, informar os consumidores sobre consequências que muitas vezes não são visíveis.

“Tudo o que comemos tem um impacto - bom e mau. Todos precisamos apenas de saber mais sobre essas consequências para podermos fazer escolhas mais informadas. Não devemos demonizar o abacate”, afirmou.

Em particular nas últimas três décadas, o abacate deixou de ser uma cultura regional para se tornar um fenómeno global, adotado por cafés, restaurantes, casas e plataformas de redes sociais um pouco por todo o lado.

Eldridge acompanha o percurso do abacate desde a sua importância em comunidades indígenas até ao estatuto atual, analisando de que modo o colonialismo e o marketing contemporâneo transformaram este fruto simples num produto altamente desejado.

Desafios ambientais e sociais

A autora aborda também os desafios ambientais e sociais associados hoje à produção de abacate. Questões como o consumo excessivo de água, bem como o uso de fertilizantes e pesticidas, têm impactos relevantes nos ecossistemas e nas comunidades locais.

Uma preocupação particularmente urgente é a crescente necessidade de terra, que leva a desmatações em larga escala, colocando em risco habitats essenciais e a biodiversidade.

Eldridge discute ainda temas de equidade e sustentabilidade, destacando ligações entre produção de abacate, apropriação de terras, desigualdades estruturais e a influência do Norte Global sobre o Sul Global.

A autora chama a atenção para os efeitos da agricultura de exportação em grande escala nas comunidades locais, sobretudo em regiões já pressionadas pelas alterações climáticas.

“O meu objetivo é incentivar os leitores a reconhecer a complexidade do nosso sistema alimentar e a compreender que nenhum alimento é, por si só, ‘bom’ ou ‘mau’”, disse Eldridge. “O debate tem de ir além de retratos simplistas e abraçar a realidade complexa das nossas escolhas.”

Abacate, dieta e equilíbrio ambiental

Perante isto, o que fazer com os nossos tão apreciados abacates?

Por um lado, podem melhorar a qualidade da dieta e ajudar a cumprir recomendações nutricionais.

Por outro, a sua produção pode acarretar impactos ambientais e sociais significativos.

Talvez a resposta esteja no equilíbrio e na consciência. Quando sabemos mais sobre a origem dos alimentos e sobre a forma como são produzidos, conseguimos fazer escolhas que nos beneficiam sem perder de vista o contexto mais amplo.

O estudo completo foi publicado na revista Desenvolvimentos Atuais em Nutrição e no livro O Debate do Abacate.

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