Ao longo de muitos anos, a ciência tem vindo a mostrar que mexer o corpo também afina a mente. A actividade física aumenta o fluxo sanguíneo para o cérebro, favorece a neuroplasticidade e ajuda a diminuir a inflamação crónica. Em conjunto, estes mecanismos são apontados como factores que podem proteger contra o declínio cognitivo, incluindo a demência.
Apesar disso, mesmo após décadas de estudos, algumas dúvidas essenciais continuavam sem resposta.
Será que fazer exercício em qualquer fase da vida reduz o risco de demência? Ou esse efeito existe apenas quando somos mais novos? E se a pessoa tiver um risco genético mais elevado - o exercício continua a contar?
Um novo trabalho baseado no Estudo do Coração de Framingham, nos Estados Unidos, publicado hoje, traz algumas das respostas mais claras até agora. Os resultados vão ao encontro do que muitos clínicos já transmitem na prática: o exercício ajuda.
Além disso, o estudo acrescenta um dado relevante sobre o possível efeito protector de se manter activo a partir dos 45 anos - incluindo em pessoas com determinada predisposição genética para demência.
O que foi analisado no estudo?
A investigação recorreu a dados de 4,290 participantes integrados na coorte Offspring do Estudo do Coração de Framingham.
O projecto original começou em 1948, quando os investigadores recrutaram mais de 5,000 adultos com 30 ou mais anos, na localidade de Framingham, Massachusetts, para estudar factores de risco a longo prazo associados à doença cardiovascular.
Em 1971, foi incluída uma segunda geração (mais de 5,000 filhos adultos da coorte inicial, bem como os respectivos cônjuges), dando origem à coorte Offspring. A partir daí, este grupo passou a realizar avaliações regulares de saúde e exames médicos a cada quatro a oito anos.
No novo estudo, a actividade física foi indicada pelos próprios participantes. A recolha incluía actividade incidental, como subir escadas, e também exercício vigoroso.
Os participantes começaram por reportar estes comportamentos em 1971 e voltaram a fazê-lo ao longo de várias décadas. Em função da idade em que cada pessoa foi avaliada pela primeira vez, foram definidos três grupos:
- início da idade adulta (26–44 anos): avaliação no final da década de 1970
- meia-idade (45–64 anos): avaliação no final da década de 1980 e durante a década de 1990
- idade mais avançada (65 anos ou mais): avaliação no final da década de 1990 e no início da década de 2000.
Para perceber de que forma a actividade física se relaciona com o risco de demência, os investigadores analisaram quantas pessoas desenvolveram demência em cada grupo etário e em que idade receberam o diagnóstico.
Depois, observaram os padrões de actividade dentro de cada faixa etária (baixo, moderado, elevado) para verificar se existia associação entre a quantidade de exercício e a ocorrência de demência.
Também foi identificado quem apresentava um factor de risco genético conhecido para a doença de Alzheimer, o alelo APOE ε4.
O que descobriram?
Durante o período de acompanhamento, 13.2% (567) dos 4,290 participantes desenvolveram demência, sobretudo no grupo de idade mais avançada.
Este valor é bastante elevado quando comparado com outros estudos longitudinais de demência com seguimento prolongado e também quando comparado com as taxas australianas (um em 12, ou 8.3% dos australianos com mais de 65 anos têm actualmente demência).
Ao comparar níveis de actividade física, o padrão foi muito claro. As pessoas com níveis mais elevados de actividade na meia-idade e na idade mais avançada tiveram menos 41–45% de probabilidade de desenvolver demência do que aquelas com níveis mais baixos.
Este resultado manteve-se mesmo depois de os autores ajustarem a análise a factores demográficos que aumentam o risco de demência (como idade e escolaridade) e a outros factores de saúde crónicos (como hipertensão e diabetes).
De forma interessante, a actividade física no início da idade adulta não alterou o risco de demência.
Um elemento inovador deste estudo foi a avaliação do factor genético de risco, o alelo APOE ε4. Esta parte da análise aponta para algo adicional:
- na meia-idade, uma actividade física mais elevada reduziu o risco de demência apenas nas pessoas que não tinham esta predisposição genética
- mas, na idade mais avançada, uma actividade física mais elevada associou-se a menor risco de demência tanto em portadores como em não portadores.
Isto sugere que, para quem tem predisposição genética para demência, manter-se activo mais tarde na vida pode continuar a oferecer uma protecção relevante.
Quão importantes são estes resultados?
De um modo geral, os dados reforçam o que já era conhecido: fazer exercício faz bem ao cérebro.
O que distingue este trabalho é a dimensão da amostra, o acompanhamento ao longo de várias décadas e a análise genética em diferentes períodos da vida.
A ideia de que a actividade na meia-idade pode beneficiar as pessoas de forma distinta consoante o risco genético, enquanto a actividade em idades mais avançadas parece ajudar quase toda a gente, também poderá acrescentar uma nuance importante às mensagens de saúde pública.
Mas houve algumas limitações
Neste estudo, a actividade física foi, em grande parte, auto-reportada, pelo que existe a possibilidade de viés de memória. Além disso, não é possível perceber que tipo de exercício traz os melhores benefícios.
Os casos de demência no grupo mais jovem também foram pouco frequentes, pelo que o tamanho reduzido da amostra limita a firmeza das conclusões sobre o início da idade adulta.
A coorte é maioritariamente de ascendência europeia e partilha factores ambientais por ser composta por pessoas da mesma localidade, o que reduz a capacidade de generalizar os resultados para populações mais diversas.
Isto torna-se especialmente relevante tendo em conta as desigualdades globais no risco de demência e no diagnóstico. O conhecimento sobre demência e factores de risco também continua a ser baixo em grupos etnicamente diversos, onde muitas vezes ainda é encarada como uma parte "normal" do envelhecimento.
O que é que isto significa para nós?
A mensagem principal é surpreendentemente simples: mexer mais, em qualquer idade. Neste momento, sabemos que os benefícios são superiores aos potenciais malefícios.
Joyce Siette, Professora Associada | Directora-Adjunta, The MARCS Institute for Brain, Behaviour and Development, Western Sydney University
Este artigo foi republicado a partir de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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