É o tipo de promessa que faz parar o dedo a meio do scroll: "Toma Molecule e esquece-te de que a comida existe."
Em vídeos virais no TikTok, influenciadores exibem transformações rápidas de perda de peso, explorando inseguranças com a imagem corporal que deixam muitos jovens em luta com aquilo que veem ao espelho.
Cada vez mais, estas imperfeições sentidas são enfrentadas com soluções imediatas - comprimidos e injeções que vendem a ideia de uma mudança sem esforço. Nos EUA e no Reino Unido, medicamentos para perda de peso como o Ozempic e o Wegovy têm dominado as notícias.
Mas, na Rússia e no Leste da Europa, está a ganhar força uma tendência diferente.
Molecule e a sibutramina escondida
Muitos jovens estão a recorrer a um produto chamado Molecule, e alguns relataram as suas experiências numa recente reportagem da BBC. Por trás do entusiasmo nas redes sociais, surge um dado preocupante: o Molecule contém um composto proibido no Reino Unido, na UE e nos EUA devido a efeitos adversos perigosos.
Entre os ingredientes que o Molecule diz incluir estão raiz de dente-de-leão, sementes de funcho e chá preto - plantas que parecem inofensivas e que ajudam a mascarar o que os testes realmente detetaram. Na prática, estes comprimidos contêm sibutramina, uma substância com um historial regulatório controverso.
Sibutramina
A sibutramina foi, em tempos, um medicamento sujeito a receita vendido como Reductil e utilizado de forma alargada para apoiar a perda de peso. O seu efeito baseia-se na alteração de substâncias químicas no cérebro associadas ao apetite. Em concreto, aumenta os níveis de serotonina e noradrenalina na área do cérebro responsável por sinalizar a saciedade - ou seja, a pessoa sente-se satisfeita mais depressa e acaba por comer menos.
Além disso, a sibutramina pode acelerar ligeiramente a velocidade a que o organismo gasta energia e ajudar a evitar que o metabolismo abrande durante a perda de peso. Em conjunto, estes mecanismos podem favorecer a redução do peso e tornar mais fácil manter essa perda ao longo do tempo.
Num estudo, pessoas com excesso de peso ou obesidade perderam 5–10 por cento do peso corporal quando usaram sibutramina em simultâneo com a redução de calorias, a prática regular de exercício e apoio para alterar hábitos.
Apesar disso, à medida que se acumulou evidência de que podia aumentar o risco de problemas cardíacos graves, o seu uso foi diminuindo.
Em 2010, a Agência Europeia de Medicamentos deixou de permitir a prescrição de sibutramina após a publicação dos resultados do grande ensaio Scout. Esse estudo mostrou que o fármaco elevava o risco de enfarte do miocárdio e de AVC, sobretudo em pessoas que já tinham doença cardíaca.
Os reguladores de medicamentos dos EUA e do Reino Unido tomaram a mesma decisão, argumentando que os riscos superavam os benefícios. A conclusão foi clara: a sibutramina era demasiado perigosa para utilização generalizada.
Os efeitos secundários da sibutramina não são meras hipóteses - estão bem descritos e podem pôr a vida em risco. Entre as reações frequentes encontram-se boca seca, obstipação, insónia e dores de cabeça. Mais inquietante, porém, é o facto de poder aumentar a tensão arterial e acelerar o ritmo cardíaco ao estimular o sistema de "luta ou fuga" do organismo.
Isto coloca uma carga adicional sobre o coração, o que é particularmente arriscado em pessoas com problemas cardíacos ou de circulação. Em situações mais graves, pode culminar num enfarte do miocárdio ou num AVC.
Síndrome serotoninérgica
A sibutramina também pode interagir de forma perigosa com outros medicamentos, algo de que muitas pessoas que a tomam podem não se aperceber. Por exemplo, quando é usada em simultâneo com certos antidepressivos - como inibidores da monoaminoxidase ou inibidores seletivos da recaptação da serotonina - pode desencadear uma condição chamada síndrome serotoninérgica.
Como ambos aumentam a serotonina, níveis demasiado elevados podem provocar uma reação grave e potencialmente fatal. O mesmo risco pode existir se a sibutramina for tomada com alguns medicamentos para a enxaqueca, como o sumatriptano, ou com determinados analgésicos opioides, como o fentanil.
A síndrome serotoninérgica pode causar sintomas como confusão, agitação, sudorese, febre, batimento cardíaco acelerado, espasmos musculares e dificuldades de coordenação.
A sibutramina é metabolizada por enzimas no fígado, pelo que também pode interagir com outros fármacos degradados pelo mesmo mecanismo. Alguns antibióticos, como a eritromicina, e antifúngicos como o cetoconazol, podem bloquear estas enzimas hepáticas, elevando assim os níveis de sibutramina e aumentando o risco de efeitos adversos.
Suplementos sem licença e rótulos enganadores
Na Rússia, a sibutramina continua disponível com receita para o tratamento da obesidade em adultos. Ainda assim, continua a aparecer em suplementos não autorizados, incluindo o Molecule, muitas vezes comercializados com rótulos enganosos que os descrevem como "naturais" ou "à base de ervas" e vendidos online ou por canais informais.
Estes produtos contornam a fiscalização regulatória, o que dificulta ao consumidor saber, com precisão, o que está realmente a tomar. A acessibilidade é enganadora: aquilo que parece ser um suplemento inofensivo comprado a um vendedor online aparentemente legítimo pode conter um medicamento proibido capaz de causar danos sérios.
Este regresso evidencia quão perigosos podem ser os comprimidos para dieta sem controlo e porque é tão importante confirmar que qualquer suplemento é seguro e legal antes de o tomar. A história da sibutramina serve de alerta: mesmo medicamentos que já foram aprovados podem esconder riscos, sobretudo quando são mal utilizados ou vendidos ilegalmente. E a promessa de uma perda de peso fácil muitas vezes tem um custo muito mais elevado do que aquilo que vem indicado no rótulo.
Dipa Kamdar, Professora Sénior em Prática Farmacêutica, Kingston University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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