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Frutose e pressão arterial: estudo indica que a fonte do açúcar faz a diferença

Pai e filho a preparar bebida com frutas numa cozinha moderna e luminosa.

A frutose carrega há anos uma reputação negativa. Um estudo recente aponta que o problema pode não estar propriamente no açúcar, mas sim no “formato” em que é consumido.

Uma lata de refrigerante diz uma coisa. Uma peça de fruta conta uma história bem diferente.

Os investigadores quantificaram todas as fontes de frutose na alimentação de jovens e acompanharam a sua pressão arterial durante um período que chegou aos 25 anos.

Quando se somou a frutose total proveniente de todos os alimentos e bebidas, não surgiu uma associação clara com pressão arterial elevada.

O cenário mudou assim que as fontes foram analisadas separadamente: a origem do açúcar revelou-se muito mais relevante do que a quantidade total.

A autora sénior do estudo, Vasanti Malik, é professora associada na University of Toronto e docente afiliada na Harvard T.H. Chan School of Public Health.

“Os hábitos alimentares no início da vida podem ter consequências duradouras na saúde”, afirmou Malik.

Acompanhar crianças até à idade adulta

A análise baseou-se no Growing Up Today Study (GUTS), um projecto de longa duração que recrutou filhos de enfermeiras de vários pontos dos Estados Unidos. Participaram mais de 25.000 jovens, alguns desde os 9 anos.

De poucos em poucos anos, os participantes preencheram questionários detalhados sobre o que comiam e bebiam. Mais tarde, a equipa comparou esses padrões com os relatos de diagnóstico de pressão arterial elevada.

“A pressão arterial elevada também está a surgir mais cedo na vida, com taxas crescentes a serem observadas em adultos mais jovens, em crianças e adolescentes, o que sublinha a importância da detecção e prevenção precoces”, disse Malik.

No final do acompanhamento, o participante “típico” tinha cerca de 36 anos. São poucos os estudos sobre alimentação que conseguem seguir a mesma população durante um período tão longo.

Bebidas açucaradas aumentaram o risco

Os jovens que, já adultos, bebiam duas ou mais bebidas açucaradas por dia apresentaram um risco 52% superior de pressão arterial elevada. O grupo de comparação consumia menos de três bebidas deste tipo por semana.

A associação manteve-se mesmo após ajustamentos para a alimentação global, actividade física e outros hábitos. Cada porção diária de refrigerante aumentou o risco em 23% e cada porção de bebidas desportivas em 36%.

O valor observado nas bebidas desportivas merece particular atenção, já que estes produtos são muitas vezes promovidos como uma forma saudável de recuperar energias.

Os sumos apresentaram um padrão semelhante. Quem bebia 1,5 ou mais porções por dia teve um risco 35% superior face a quem consumia menos de uma porção por semana.

A maior parte deste sinal veio do sumo de laranja: cada porção diária esteve associada a um risco 20% superior. Já o sumo de maçã e outros sumos não mostraram o mesmo efeito. Ainda assim, há um ponto importante a considerar.

É possível que, para crianças mais novas, bebidas com sabor a laranja e com açúcar adicionado tenham sido registadas como sumo de laranja. Essa confusão pode ter inflacionado os números atribuídos ao sumo de laranja.

Fruta inteira é melhor do que sumos

A fruta inteira contrariou totalmente o padrão. Um consumo mais elevado não se associou a maior risco e a tendência chegou mesmo a ser ligeiramente protectora.

A mesma fruta, a mesma frutose, um resultado oposto. A fibra, os polifenóis e até o acto de mastigar parecem alterar a forma como o organismo lida com esta carga.

“Tem existido a ideia errada de que a frutose, em geral, é prejudicial para a saúde cardiovascular independentemente da fonte, e de que os sumos de fruta são benéficos para a saúde”, afirmou o Dr. Amit Khera, especialista voluntário da American Heart Association.

“Este estudo demonstra que nenhuma das duas coisas parece estar correcta.”

Pequenas trocas reduziram o risco

A equipa também simulou substituições simples. Trocar uma bebida açucarada diária por fruta inteira associou-se a um risco 22% inferior de pressão arterial elevada.

Substituir essa mesma bebida por leite ou água também trouxe benefício, com reduções até 13%. E trocar sumo de fruta por fruta inteira esteve ligado a uma diminuição de cerca de 19%.

Khera enquadrou a infância como um período decisivo para prevenir problemas futuros.

“A quantidade total de frutose parece menos importante para o desenvolvimento de hipertensão do que o tipo de alimento em que é consumida, pelo que as bebidas adoçadas com açúcar e o sumo de fruta se relacionam com maior risco, enquanto a fruta inteira não”, disse.

Porque é que o açúcar em forma líquida pesa mais

As calorias líquidas tendem a contornar os sinais de saciedade. Uma bebida raramente “enche” como um alimento, e por isso a energia extra costuma acumular-se em vez de substituir uma refeição.

Há um exemplo claro por trás destes números: um copo de cerca de 240 ml de sumo de laranja contém o açúcar de aproximadamente três laranjas inteiras - muito mais do que a maioria das pessoas comeria de uma só vez.

A frutose vinda de líquidos também tem um impacto forte no fígado. Pode aumentar o ácido úrico e as gorduras no sangue, factores que, com o tempo, sobrecarregam os vasos sanguíneos.

O que isto significa para as famílias

“As bebidas adoçadas com açúcar, como refrigerantes e bebidas desportivas, que muitas vezes são comercializadas como algo saudável, devem ser limitadas”, afirmou Malik.

“O consumo de sumo de fruta pode ser inofensivo em níveis baixos, mas prejudicial em níveis mais elevados. Devem ser sempre sumos 100% fruta e, mesmo assim, consumidos apenas com moderação. Deve dar-se prioridade à fruta inteira em vez de bebidas açucaradas.”

A mensagem prática é simples e moderada: antes de pegar na garrafa, optar por água, leite ou uma peça de fruta.

Algumas limitações a ter em conta

Os resultados vêm acompanhados de limitações reais. Tanto a alimentação como a pressão arterial foram auto-reportadas, pelo que o estudo identifica uma associação, mas não prova causa e efeito.

Além disso, o grupo era maioritariamente branco não hispânico, o que restringe a generalização dos resultados.

“As populações negras não hispânicas e hispânicas nos EUA têm o consumo mais elevado de bebidas adoçadas com açúcar, por isso estes resultados podem ser ainda mais relevantes para esses grupos”, afirmou Khera.

A conclusão não é que a frutose seja o inimigo. É que um copo e uma maçã não são a mesma coisa, mesmo quando o açúcar no interior parece idêntico.

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