Sem nos apercebermos, circulam no nosso organismo inúmeros biomarcadores químicos que ajudam a antecipar como é provável que a nossa saúde evolua ao longo do tempo.
Para investigadores e médicos, estes biomarcadores são especialmente valiosos. Se for possível detetar com antecedência o risco de uma determinada condição - antes de surgirem os sintomas habituais - podem ser definidas estratégias para a acompanhar, estudar ou tratar, e até para impedir que chegue a desenvolver-se.
Num novo estudo abrangente, uma equipa internacional de cientistas identificou um biomarcador precoce que, quando avaliado na meia-idade, parece prever o risco de demência nas décadas seguintes.
O biomarcador GDF15 e a ligação ao risco de demência
O biomarcador em causa é uma proteína chamada GDF15, presente no plasma sanguíneo. A análise de dados provenientes de seis grandes estudos de coorte mostrou que pessoas com níveis mais elevados de GDF15 no sangue, com 55 anos ou menos, tinham maior probabilidade de desenvolver demência mais tarde.
Além disso, os investigadores consideram ter uma explicação plausível para este padrão.
"Os nossos resultados sugerem que o GDF15 plasmático pode funcionar como um fator de risco precoce para o risco de demência ao modular vias metabólicas e o eixo neuroimunitário", escrevem os investigadores no artigo publicado.
Esta conclusão não surge do nada: já antes níveis mais altos de GDF15 no sangue tinham sido associados à demência numa fase mais avançada da vida.
O que agora se acrescenta é que essa associação também se verifica abaixo dos 55 anos.
Como o estudo foi conduzido (coortes e seguimento)
O trabalho desenvolveu-se em várias etapas. Primeiro, os investigadores reuniram dados de seis estudos de coorte independentes, que no total incluíam dezenas de milhares de pessoas. Estes estudos decorreram nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Islândia e no Japão.
Para além das medições obtidas a partir de amostras de sangue, a equipa teve acesso aos registos de saúde dos participantes durante períodos de acompanhamento entre 15 e 25 anos. Foi assim possível observar uma associação entre níveis mais elevados de GDF15 e risco de demência.
A relação revelou-se particularmente forte no caso da demência vascular, que resulta de perturbações no fornecimento de sangue ao cérebro. Os autores apontam, com cautela, para o papel do GDF15 na inflamação como uma possível explicação.
Evidência genética com Randomização Mendeliana (RM)
Numa fase seguinte, os cientistas recorreram a uma abordagem chamada Randomização Mendeliana (RM), em que padrões genéticos servem como substitutos de outro fator - neste caso, níveis elevados de GDF15 no sangue.
Ao combinarem conjuntos de dados genéticos que abrangiam centenas de milhares de pessoas, a equipa concluiu que indivíduos com variantes genéticas associadas a GDF15 mais alto apresentavam também um risco superior de demência.
Este resultado sugere que o biomarcador poderá não ser apenas um sinal precoce da doença, mas possivelmente um fator que contribui para a demência, uma vez que estes genes são independentes do estilo de vida, do ambiente e da própria doença.
LCR, imagiologia cerebral e pistas sobre mecanismos
O trabalho não ficou por aqui. Em conjuntos de dados mais pequenos, os investigadores analisaram exames ao cérebro e amostras de líquido cefalorraquidiano (LCR), que dá suporte ao cérebro e ao sistema nervoso central.
Também aí surgiram associações: mais GDF15 no sangue foi ligado a mais GDF15 no LCR e a redução do volume cerebral - embora não se tenha observado ligação a aglomerados da proteína tóxica beta-amiloide, associados à doença de Alzheimer.
"Observámos uma correlação forte entre os níveis de GDF15 no plasma e no LCR, o que é consistente com a possibilidade de o GDF15 circulante atravessar para o sistema nervoso central", escrevem os investigadores.
Por fim, testes laboratoriais em células imunitárias encontraram indícios de que o GDF15 interfere com vias biológicas normais relacionadas com respostas imunitárias e gestão de energia, oferecendo pistas sobre porque é que, em alguns casos, o GDF15 poderá estar a impulsionar a demência.
O GDF15 é uma proteína importante para múltiplos processos celulares no organismo, mas uma das suas principais funções é manter o sistema imunitário sob controlo de forma segura. Estudos já mostraram, por exemplo, que pode suprimir a disseminação do cancro.
Ainda é necessário muito mais trabalho para ter certezas, mas os autores sugerem que, no contexto da demência, o GDF15 pode ir longe demais ao silenciar o sistema imunitário, deixando o cérebro mais vulnerável.
No futuro, poderá ser possível usar o GDF15 tanto para identificar precocemente um risco aumentado de demência como para compreender melhor o modo como a doença se desenvolve.
"Estas conclusões sustentam o papel do GDF15 circulante como biomarcador precoce - sobretudo para demência vascular e neuroinflamação - e identificam os mecanismos através dos quais poderá impulsionar o risco de demência", escrevem os investigadores.
A investigação foi publicada em Avanços da Ciência.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário