A cidade de Ushuaia ocupa um lugar singular na geografia estratégica da República Argentina. A sua proximidade relativa ao continente antártico, a projeção natural sobre o Atlântico Sul e o facto de ser a capital da província de Terra do Fogo, Antártida e Ilhas do Atlântico Sul tornam-na um ponto central para qualquer política ligada à logística antártica, à defesa nacional e à inserção geopolítica do país no extremo austral.
Neste enquadramento, a Base Naval Integrada de Ushuaia (BNIU) e o Polo Logístico Antártico (PLA) configuram iniciativas de fôlego e de longo prazo, atravessando diferentes governações nacionais e provinciais. Apesar de formalmente distintos, os dois projectos foram pensados como peças complementares de uma mesma estratégia: reforçar a presença argentina na Antártida, elevar as capacidades logísticas nacionais e afirmar Ushuaia como um nó relevante no sistema antártico internacional.
A partir de 2024, o tema ganhou nova visibilidade política e geopolítica, impulsionado pela aproximação explícita do governo argentino aos EUA e pela intenção declarada de avançar com a cooperação bilateral em defesa e logística antártica. Esta mudança ocorre também num cenário regional em que a presença da China na província de Neuquén - através de uma estação de observação espacial - foi lida por Washington como um vector estratégico a contrabalançar.
Origens e antecedentes do projecto
A proposta de consolidar Ushuaia como centro logístico antártico está longe de ser recente. Pelo menos desde a década de 1990, sucessivos governos provinciais e nacionais vêm apontando a necessidade de dotar a cidade de infra-estruturas portuárias, aéreas e logísticas capazes de sustentar com eficiência as operações antárticas argentinas e, simultaneamente, captar uma parcela da actividade internacional associada ao continente branco.
Em 2011, o governo de Terra do Fogo desenhou um projecto com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que estabelecia como meta transformar Ushuaia num “enclave logístico multimodal”, orientado para a circulação de pessoas e mercadorias com destino à Antártida. A abordagem reconhecia o valor estratégico do eixo Ushuaia–Antártida não apenas em termos de defesa, mas também como alavanca de desenvolvimento económico.
Em paralelo, a partir de 2017, o então senador Matías Rodríguez promoveu formalmente o projecto do Polo Logístico Antártico (PLA), concebido como iniciativa de âmbito provincial e com forte presença do sector privado. O PLA prevê a criação de infra-estrutura portuária, centros logísticos especializados, um terminal aéreo de carga, oficinas navais e serviços integrados para navios e aeronaves antárticas, localizados a sul da cidade, na península de Ushuaia.
Já a Base Naval Integrada nasce no âmbito do Ministério da Defesa e da Armada Argentina, com um perfil predominantemente militar. O seu propósito principal é assegurar ao Comando Conjunto Antártico e à Armada instalações próprias e adequadas para a sustentação das campanhas antárticas.
Início das obras e planeamento inicial (2022–2023)
A execução material do projecto arrancou em 2022, durante a gestão do então ministro da Defesa Jorge Taiana. O estaleiro Tandanor foi indicado como responsável pelo planeamento técnico e pelo arranque das obras, incluindo estudos preliminares do solo e o desenho de armazéns modulares.
Ao longo de 2023, avançou-se com escavações e com a construção das fundações do primeiro armazém, com a intenção de fabricar estas estruturas no Complexo Industrial e Naval Argentino (CINAR) e, depois, transportá-las para Ushuaia. O plano inicial previa, em fases posteriores, a construção de um cais com mais de 15.000 m², edifícios administrativos, habitações para o pessoal e áreas de apoio a navios.
Do ponto de vista orçamental, o projecto recebeu dotações relevantes entre 2022 e 2023. No orçamento de 2022, foram destinados mais de 2.700 milhões de pesos à construção do cais e à incorporação de equipamento, enquanto em 2023 foram atribuídos fundos para a sustentação logística antártica e para um centro de abastecimento específico.
Reorientação geopolítica com os EUA
O ano de 2024 assinalou uma viragem política em torno da Base Naval Integrada. Em Abril, o presidente Javier Milei fez uma viagem relâmpago a Ushuaia juntamente com a então chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, a general Laura Richardson. No acto, o Presidente declarou: “Hoy estamos aquí para ratificar nuestro esfuerzo en el desarrollo de Nuestra Base Naval integrada. Se trata de un gran centro logístico que constituirá el puerto de desarrollo más cercano a la Antártida y convertirán a nuestros países en la puerta de entrada al continente blanco”.
A presença de Richardson, a par da ausência de autoridades provinciais, foi interpretada como um sinal inequívoco de alinhamento estratégico com Washington e como um esforço para afastar qualquer hipótese de participação chinesa ou russa no projecto - possibilidade que, na gestão anterior, tinha gerado preocupações nos Estados Unidos.
O porta-voz presidencial, Manuel Adorni, reforçou essa leitura ao afirmar que se tratava de uma iniciativa conjunta enquadrada na integração da Argentina no “mundo ocidental e desenvolvido”, embora tenha sublinhado que ainda não existiam definições concretas sobre financiamento norte-americano.
A leitura da participação dos Estados Unidos no projecto de Ushuaia deve, ainda, ser inserida num quadro geopolítico mais amplo. Para Washington, o extremo sul argentino tem relevância estratégica pela sua projecção sobre o Atlântico Sul, pelas rotas marítimas interoceânicas e pelo acesso à Antártida.
Neste contexto, a Base Naval Integrada de Ushuaia surge como contrapeso geopolítico face à estação espacial chinesa em Neuquén, cuja presença tem sido acompanhada e analisada por organismos norte-americanos. Embora não haja evidência pública de concessões especiais nem de uma base militar dos EUA em território argentino, a cooperação técnica, as trocas de informação e as visitas de alto nível apontam para um interesse continuado.
As visitas posteriores do almirante Alvin Holsey, sucessor de Richardson na chefia do Comando Sul, e a chegada de aeronaves militares C-40 Clipper a Ushuaia no início de 2026 reforçaram essa percepção. Apesar de, oficialmente, estarem associadas a delegações diplomáticas e legislativas, as deslocações incluíram visitas a instalações navais estratégicas e coincidiram com pontos sensíveis do território nacional.
Estado de avanço físico e financeiro (2024–2025)
Apesar da intensidade dos anúncios políticos, os relatórios oficiais apresentados ao Congresso indicam um progresso reduzido. Tanto o Relatório de Gestão n.º 139 (maio de 2024) como o n.º 142 (abril de 2025) registam exactamente o mesmo nível de avanço físico: 9,13%.
De acordo com a Chefia de Gabinete, este progresso corresponde a trabalhos preliminares, movimentação de terras e construção da plataforma para uma das oficinas navais. A execução financeira comunicada totaliza aproximadamente 2.500 milhões de pesos, com pagamentos discriminados em materiais, mão de obra e ajustamentos paritários.
Em Abril de 2025, o Ministério da Defesa confirmou que não estavam previstas novas despesas orçamentais para esse exercício, o que reforça a ideia de uma desaceleração significativa do projecto nesse período.
Em Julho de 2025, o Ministério da Defesa anunciou a conclusão da laje que servirá de base a um armazém modular do novo centro logístico antártico. Segundo o comunicado oficial: “Tandanor llevó adelante esta obra destinada a alojar un galpón modular en la Base Naval Integrada Ushuaia. Una estructura clave para que el Comando Conjunto Antártico cuente con un espacio propio, moderno y funcional desde donde organizar las campañas antárticas”.
O anúncio representa um avanço concreto, ainda que limitado, e enquadra-se numa narrativa oficial que procura firmar Ushuaia como porta de entrada para a Antártida.
Ushuaia, Chile e a competição logística regional
Um dos temas recorrentes no debate sobre a Base Naval Integrada é a comparação com Punta Arenas, no Chile. Enquanto esse pólo conseguiu atrair mais de vinte programas antárticos internacionais por meio de um modelo logístico-comercial com forte participação privada, Ushuaia registou uma presença mais limitada, sobretudo em operações aerotransportadas.
Várias análises sustentam que esta diferença resulta de decisões históricas de política pública e de uma visão mais restritiva do papel do sector privado na logística antártica argentina, em contraste com práticas adoptadas noutros países do Sistema do Tratado da Antártida.
Conclusão
No início de 2026, a Base Naval Integrada de Ushuaia encontra-se numa fase de avanço físico reduzido, com infra-estrutura básica parcialmente concluída e sem um calendário público detalhado para as etapas seguintes. O projecto mantém relevância estratégica e continua a ocupar lugar central no discurso oficial, mas evidencia uma distância clara entre anúncios políticos e execução no terreno.
A participação dos Estados Unidos aparece sobretudo no plano político, diplomático e de cooperação estratégica, mais do que através de compromissos financeiros ou concessões formais.
A Base Naval Integrada de Ushuaia é um projecto de elevado valor estratégico para a Argentina, quer pela projecção antártica, quer pela sua inserção na competição geopolítica no Atlântico Sul. O seu desenvolvimento atravessou diferentes governações, abordagens e prioridades, permanecendo condicionado por tensões entre os níveis nacional e provincial, bem como por limitações orçamentais.
No plano internacional, a aproximação aos Estados Unidos coloca o projecto como elemento relevante no equilíbrio regional, em particular face à presença chinesa na Patagónia. Ainda assim, o progresso efectivo continua a ser gradual e limitado, levantando dúvidas sobre o ritmo de execução no curto e no médio prazo.
Imagem de capa a título ilustrativo.
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