A teoria da evolução revolucionou a forma como compreendemos os seres humanos - e, no entanto, mais de um século depois de as ideias de Darwin terem transformado a biologia, a forma feminina da nossa espécie continua, em grande medida, por decifrar.
Em comparação com o resto do reino animal, as mulheres humanas são verdadeiramente fora do comum, e os cientistas ainda procuram perceber porquê. Embora cada corpo seja diferente, a vida de muitas mulheres é marcada por estas particularidades da anatomia feminina.
Apesar de sexo e género serem conceitos distintos, grande parte da investigação sobre o corpo das mulheres concentra-se na biologia reprodutiva associada ao sexo feminino - a fisiologia por trás da gravidez, da menstruação e da menopausa.
Alguns investigadores defendem hoje que estas singularidades evolutivas não são meros efeitos secundários do nosso percurso evolutivo - podem ter sido forças determinantes que ajudaram a moldar a própria espécie.
O parto humano é invulgarmente perigoso
Logo no início da vida, a nossa espécie enfrenta um risco pouco comum: o parto. Quando comparado com o de outros primatas, o trabalho de parto humano pode prolongar-se por um tempo surpreendentemente longo (muitas horas ou mesmo dias), e as complicações e os perigos são frequentes.
O canal de parto humano tem uma configuração bastante tortuosa, o que significa que, num parto vaginal, a cabeça do bebé tem de rodar quase 90 graus - como enfiar um pé numa bota. Muitas vezes, a mãe precisa do apoio de outras pessoas para conseguir dar à luz.
Embora seja difícil colocar toda a história humana lado a lado com a realidade moderna, estima-se que, actualmente, o parto obstruído seja directamente responsável por até 30 por cento da morbilidade materna em países em desenvolvimento.
Porque é que o parto humano implica um risco tão elevado para a mãe continua a ser um mistério.
Em comparação com outros primatas, os humanos nascem com o cérebro mais pequeno em relação ao tamanho que terá na idade adulta, pelo que a explicação não pode ser apenas a de que temos cabeças grandes.
Como somos o único mamífero vivo que se desloca habitualmente sobre duas pernas, alguns cientistas colocaram a hipótese de que uma pélvis mais estreita facilita a marcha e a postura erecta.
Este compromisso biológico entre uma anatomia complexa e a facilidade do nascimento é conhecido como o “dilema obstétrico”. Trata-se de uma hipótese controversa, que tem sido alvo de muita análise crítica e cepticismo nos últimos anos, com base em argumentos biomecânicos, metabólicos e bioculturais. Há quem considere que este dilema ignora nuances ligadas à anatomia, à alimentação, aos genes, às hormonas ou às práticas médicas.
Por agora, a única conclusão segura é que o parto humano é singularmente complexo e, de forma curiosa, difícil de explicar - por isso, não se esqueça de agradecer às mulheres que o trouxeram até aqui.
A menstruação humana é abundante e evidente
À medida que o corpo feminino amadurece, o enigma só se torna maior. A menstruação humana parece ser mais abundante e mais visível do que a de qualquer outro mamífero. Na realidade, mais de 98 por cento dos mamíferos nem sequer menstruam.
Então porque é que, durante os anos reprodutivos, os humanos menstruam todos os meses, com alterações generalizadas no cérebro e no corpo? Que valor adaptativo tem isto, se é que tem algum?
Ao longo dos anos, os cientistas apresentaram muitas hipóteses para responder a estas perguntas, mas cada uma tem pontos fracos e, de um modo geral, esta é uma área relativamente pouco estudada.
Uma possibilidade é que os cerca de 85 mamíferos conhecidos por menstruarem (incluindo chimpanzés, bonobos e nós) o façam para preparar o útero para a implantação.
A forma como os embriões humanos se implantam, por exemplo, é bastante agressiva quando comparada com o que os cientistas observaram em ratos de laboratório, e isso pode exigir um tecido mais espesso e mais diferenciado - e, por isso, mais difícil de o organismo “reabsorver”.
A mucosa uterina pode até amadurecer e diferenciar-se o suficiente para “decidir” se aceita ou não um embrião, embora essa ideia continue a ser controversa.
Tal como acontece nos humanos, morcegos que menstruam e musaranhos-elefante também enfrentam riscos de a placenta se fixar demasiado profundamente na parede uterina, o que aponta para um sistema muito maduro e extenso.
É possível que a menstruação tenha surgido apenas como um subproduto do útero a preparar-se para ter descendência. Por enquanto, no entanto, só podemos especular.
A menopausa é um enigma
Mesmo quando a menstruação termina, o enigma evolutivo do corpo feminino não desaparece.
Os humanos estão entre as poucas espécies no mundo que passam pela menopausa. Esta fase é extremamente rara no universo animal e, ainda hoje, ninguém sabe ao certo porque existe.
A maioria dos outros mamíferos mantém actividade reprodutiva ao longo de toda a vida adulta, mas os humanos podem viver décadas depois da última menstruação.
Algumas das poucas espécies comparáveis são as baleias dentadas, como as orcas e as baleias-piloto, e perceber o que temos em comum com elas poderá ajudar a revelar os segredos da menopausa.
Uma das explicações mais populares para a evolução da menopausa em algumas espécies é a chamada hipótese da avó. Em termos simples, as fêmeas mais velhas deixam de ter descendência própria e passam a canalizar energia e recursos para ajudar a criar os netos.
Alguns cientistas evolucionistas defendem que isto ocorre nas baleias dentadas - teriam evoluído a menopausa para prolongar a longevidade sem prolongar os anos reprodutivos.
Para demonstrar essa adaptação nos humanos, seria necessário mostrar que as sociedades pré-agrícolas incluíam um número significativo de mulheres que viveram para lá do seu período reprodutivo e ajudaram os descendentes.
Essa evidência, porém, é difícil de obter. No passado, alguns modelos baseados em grupos modernos de caçadores-recolectores não conseguiram mostrar um benefício suficiente que “compensasse o custo evolutivo de cessar a reprodução”, segundo teóricos da evolução.
Há até um cientista que defende que a menopausa se explica não pela matriarca, mas pelo patriarca. A hipótese do patriarca propõe que “quando os machos se tornaram capazes de manter elevado estatuto e acesso reprodutivo para além do seu pico de condição física, a selecção favoreceu o prolongamento da duração máxima de vida”.
Se estes genes de longevidade estivessem no cromossoma X, em vez de no cromossoma Y, a duração de vida também aumentaria nas fêmeas, permitindo-lhes, possivelmente, esgotar todos os óvulos viáveis ao longo da vida.
Por outras palavras, a menopausa pode ter sido um subproduto de uma maior esperança de vida nos machos. O que isto não explica é porque é que as fêmeas, em média, parecem viver muito mais do que os machos. Além disso, assenta numa suposição que ainda não foi provada: a de que genes-chave de longevidade não existem no cromossoma Y.
Sem menstruação e gravidez, os humanos não existiriam; e sem menopausa, é possível que a nossa espécie não tivesse sido tão bem-sucedida.
Mais de 150 anos depois de a teoria da selecção natural ter sido proposta pela primeira vez, a evolução do corpo feminino continua a ser um dos maiores enigmas por resolver.
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