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Estudo de Eduardo Maeda mostra que a desflorestação na Amazónia meridional aproxima o ponto de viragem da chuva com as alterações climáticas

Homem com equipamentos de medição observa desmatamento e queimadas numa floresta tropical.

Agricultores na Amazónia meridional passaram décadas a derrubar floresta para abrir espaço a culturas agrícolas.

Um novo estudo sugere que esse processo pode estar a comprometer o próprio suporte de que dependem - e que as alterações climáticas estão a agravar a situação, e mais depressa do que se previa.

A investigação foi coordenada por Eduardo Maeda, cientista do sistema terrestre na Universidade de Helsínquia.

Como as florestas fazem chover

Há um ponto que costuma surpreender: na Amazónia, cortar árvores não significa, por si só, menos chuva de forma imediata. Em pequenas proporções, pode até produzir o efeito inverso.

Quando se limpa uma parcela de floresta, o solo aquece mais. Esse ar mais quente sobe e “puxa” a humidade das árvores em redor para a atmosfera, onde depois condensa e cai sob a forma de precipitação.

Assim, uma clareira pequena, rodeada por floresta intacta, pode acabar por receber mais chuva do que recebia antes.

O problema surge quando isto é ampliado. A partir de determinado nível, já não existe floresta suficiente para continuar a alimentar o sistema com humidade.

“Se desflorestar 80% de uma pequena quinta, mas ela estiver rodeada por floresta, não é um grande problema. Mas se desflorestar 80% de todo o estado, então terá um impacto enorme”, disse Maeda.

O momento em que o sistema passa de “mais chuva” para “menos chuva” é aquilo a que os investigadores chamam um ponto de viragem. A principal conclusão do estudo é que as alterações climáticas estão a empurrar esse ponto de viragem para mais perto - fazendo com que apareça com níveis cada vez mais baixos de desflorestação.

O que os investigadores descobriram

A equipa aplicou um modelo de simulação meteorológica a várias combinações de cenários de desflorestação e aquecimento, com foco na Amazónia meridional - uma zona de forte expansão agrícola, onde a floresta recua de forma contínua há décadas.

Em condições semelhantes às observadas entre 2005 e 2014, a precipitação numa área de 90 por 90 quilómetros começa a diminuir quando cerca de metade da superfície já foi limpa.

Nesse enquadramento, a desflorestação projectada até 2050 reduz a precipitação anual em cerca de 1.7%. É desconfortável, mas ainda administrável.

Quando se soma o aquecimento de um futuro de baixas emissões, o quadro muda de forma clara. O ponto de viragem chega quando apenas 45% do território está sem árvores, e a precipitação pode cair quase 14% até 2050.

Num cenário de elevadas emissões, basta que 10% da área fique sem cobertura arbórea para a descida começar - quase menos 11% de chuva a meio do século.

No pior cenário de aquecimento, os investigadores estimam que, para estabilizar a precipitação em áreas superiores a 210 quilómetros quadrados, seria necessário limitar a desflorestação a 10% do território.

A lei brasileira permite actualmente limpar até 20%.

“Isso não chega”, afirmou Maeda. “Precisamos de fazer mais.”

Uma armadilha sem saída fácil

O que torna este caso especialmente difícil - e não apenas mais um exemplo de uso do solo com visão curta - é o ciclo de retroalimentação no centro do problema.

A agricultura que incentiva a desflorestação precisa de precipitação estável para se manter. Porém, a própria desflorestação vai minando, de forma gradual, essa estabilidade.

As alterações climáticas apertam ainda mais o sistema, tornando-o mais sensível a cada hectare adicional que se limpa. E quanto mais tempo isto continuar, mais estreito fica o caminho de saída.

As consequências económicas não são teóricas. Uma quebra de 4% na precipitação anual pode reduzir as produtividades da soja amazónica em até 8%.

Numa região que construiu grande parte da sua identidade agrícola em torno da soja, trata-se de um valor significativo.

“Vejo isto como a cobra a comer a própria cauda”, disse Maeda. “Os nossos resultados demonstram aos produtores do sul da Amazónia que as suas actividades estão a afectar os seus lucros e o seu futuro.”

O que pode realmente ajudar

Maeda não defende que a agricultura deva parar. Cerca de um quinto da floresta amazónica já foi derrubada nos últimos 50 anos, e as pessoas que dependem dessas terras para viver não vão simplesmente desaparecer.

A ideia, portanto, não é abandonar a actividade - é melhorar a forma como se usa o que já foi aberto e travar novas limpezas.

Um caminho prático é a agroflorestação - sistemas agrícolas que voltam a integrar árvores nativas no meio das culturas.

Não substituem uma floresta primária, mas conservam parte do que mantém o sistema a funcionar: reciclagem de humidade, regulação da temperatura e um certo grau de estabilidade ecológica que campos nus não conseguem oferecer.

“Já temos muitas áreas desflorestadas, por isso o argumento é que não precisamos de mais”, disse Maeda. “Só precisamos de tornar estas áreas mais produtivas e produzir de uma forma que esteja melhor integrada no ecossistema.”

As florestas, por outras palavras, não são apenas aquilo que se remove para dar lugar à agricultura. São também uma componente do que torna a agricultura possível.

E os agricultores da Amazónia poderão ser quem melhor percebe isso - porque serão os primeiros a dar conta quando a chuva deixar de chegar.


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