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Cerrado: as zonas húmidas esquecidas que guardam carbono e estão em risco

Mulher com bata branca analisa amostra de solo junto a corpo de água em área rural.

Quem pensa em proteção do clima na América do Sul imagina quase sempre, de imediato, as enormes florestas tropicais. No entanto, ao lado da famosa região amazónica existe um gigante discreto que passa despercebido à maioria: o Cerrado. Investigação recente indica que as suas zonas húmidas, à primeira vista pouco impressionantes, estão entre os mais fortes sumidouros de carbono dos trópicos - e encontram-se, neste momento, sob pressão intensa.

Um hotspot de carbono subestimado

O Cerrado é a maior paisagem de savana da América do Sul. Este grande ecossistema ocupa cerca de um quarto do território do Brasil. Florestas secas, campos de gramíneas e matos compõem um mosaico que, visto do ar, parece muitas vezes aberto e árido. Durante muito tempo, essa aparência alimentou um erro com consequências: assumiu-se que, em termos climáticos, o Cerrado teria menos relevância do que a floresta densa da Amazónia.

Uma investigação publicada na revista científica New Phytologist contraria essa ideia de forma clara. Uma equipa de cientistas do Brasil e dos EUA recolheu amostras profundas de solo em sete locais do Cerrado, em alguns casos até quatro metros de profundidade. Os resultados surpreenderam até especialistas.

"Em determinadas zonas húmidas do Cerrado, ficam armazenadas até 1.200 toneladas de carbono por hectare - várias vezes mais do que a vegetação da floresta amazónica consegue reter."

Somando estes pontos húmidos, os investigadores estimam que ali esteja retido aproximadamente um quinto do carbono ligado em toda a região amazónica. Ainda assim, estas áreas praticamente não aparecem em mapas e balanços climáticos.

É precisamente aqui que reside o problema: planos climáticos nacionais e internacionais continuam a apoiar-se em informação incompleta. Se um reservatório desta dimensão fica de fora, o mundo subavalia o contributo dos ecossistemas terrestres - e, ao mesmo tempo, subestima o risco associado à sua destruição.

Como o solo encharcado se torna uma “máquina” de proteção do clima

O funcionamento das zonas húmidas do Cerrado assenta num mecanismo simples, mas extremamente sensível. Durante grande parte do ano, os solos ficam inundados ou totalmente saturados de água, o que reduz drasticamente a disponibilidade de oxigénio.

Com pouco oxigénio, os microrganismos trabalham de forma muito mais lenta. Restos de plantas, raízes e folhas mortas decompõem-se apenas parcialmente. Camada após camada, acumula-se matéria orgânica - num processo comparável ao de turfeiras e outros sistemas de tipo “mato de turfa”.

  • A água satura o solo e isola-o do ar.
  • Menos oxigénio significa decomposição mais lenta.
  • A matéria orgânica acumula-se ao longo de séculos a milénios.
  • O carbono permanece ligado em profundidade - desde que o ambiente continue húmido.

No Cerrado, são típicas as chamadas veredas: depressões húmidas alongadas ao longo de cursos de água, frequentemente marcadas por palmeirais. As raízes fornecem de forma contínua novo material vegetal, alimentando o armazenamento de carbono.

"Estas zonas húmidas são como cofres de carbono criados pela natureza - só funcionam enquanto a ‘chave’ da água não se perder."

Quando o nível de água baixa ou quando o solo é drenado artificialmente, o oxigénio entra em camadas mais profundas. Os microrganismos aceleram, a decomposição intensifica-se e o carbono armazenado liberta-se sob a forma de CO₂ e outros gases com efeito de estufa.

Cerrado: castelo de água e amortecedor climático de um continente

O Cerrado não é apenas um armazém de carbono; é também o principal reservatório de água do interior do Brasil. Nesta savana nascem as cabeceiras de cerca de dois terços dos grandes sistemas fluviais do país - incluindo afluentes importantes da Amazónia.

Intervir aqui na água e no solo altera muito mais do que uma suposta savana “vazia”. As zonas húmidas ajudam a estabilizar os níveis de águas subterrâneas, amortecem episódios de chuva intensa e mantêm água no sistema durante a estação seca.

Se esta rede de solos húmidos colapsar, vários efeitos surgem em simultâneo:

  • mais emissões de CO₂ devido à decomposição de matéria orgânica;
  • secas mais fortes e prolongadas em regiões a jusante;
  • maior risco de incêndio na savana e na floresta;
  • declínio de espécies adaptadas a habitats húmidos.

Por esta via, a destruição do Cerrado ameaça indiretamente a própria floresta amazónica. Menos água proveniente das áreas-fonte da savana significa menos humidade na atmosfera - humidade essa que, mais tarde, se traduz em chuva sobre a Amazónia.

A agricultura avança sobre as zonas húmidas

Há décadas que o Cerrado é encarado como território de expansão para a agroindústria brasileira. Soja, milho, algodão e pastagens para gado continuam a ganhar terreno. Imagens de satélite mostram desmatações extensas e campos agrícolas onde antes existiam mosaicos de mato, gramíneas e manchas húmidas.

Para tornar os solos utilizáveis, agricultores e empresas recorrem a drenagens. Valas e tubagens desviam a água, baixam o lençol freático e permitem a entrada de maquinaria pesada. É precisamente esta prática que desestabiliza os grandes reservatórios de carbono.

"Assim que o solo seca, as zonas húmidas libertam de forma abrupta gases com efeito de estufa - de cofre de carbono passam a fonte de emissões."

Medições indicam que cerca de 70% das emissões de gases com efeito de estufa destes solos ocorrem na estação seca. Quanto mais longas e intensas forem as secas, impulsionadas pelas alterações climáticas globais, mais carbono pode escapar em pouco tempo. A savana aproxima-se de um tipo de ponto de viragem: menos água, mais fogo, mais emissões - e ainda menos vegetação capaz de reter humidade.

Um habitat “sacrificado” com impacto global

Investigadores brasileiros falam já de forma aberta de um Cerrado usado como “zona tampão” para proteger a Amazónia. No debate político e mediático, o foco recai quase sempre na floresta tropical. Leis de proteção mais rigorosas, financiamento internacional e campanhas globais tendem a concentrar-se sobretudo na bacia amazónica.

O resultado é que a expansão agrícola se desloca para a savana, onde as regras são mais frágeis e a atenção pública é menor. À primeira vista, pode parecer um compromisso aceitável, porque estaria a desaparecer “apenas mato”. Os novos dados mostram quão enganadora é essa leitura.

Ao “sacrificar” o Cerrado, corre-se o risco de:

  • perder um reservatório gigantesco de carbono, até agora pouco contabilizado;
  • enfraquecer o abastecimento de água que sustenta a região amazónica;
  • comprometer de forma significativa metas climáticas ambiciosas.

O que a proteção significaria na prática

Do ponto de vista legal, já existem normas para proteger determinadas zonas húmidas. Na prática, porém, essas regras raramente chegam. Muitas vezes, limitam-se a turfeiras bem delimitadas ou a faixas ribeirinhas, deixando de fora o balanço hídrico mais amplo de toda a bacia de drenagem.

"Proteger zonas húmidas não é apenas classificar algumas áreas pantanosas - o decisivo é manter a água em todo o mosaico da paisagem."

Por isso, especialistas defendem várias medidas:

  • Os reservatórios de carbono do Cerrado devem ser incorporados oficialmente em balanços nacionais de emissões.
  • Projetos de drenagem em zonas húmidas sensíveis deveriam ser fortemente limitados ou proibidos.
  • Programas de apoio à agricultura devem orientar a utilização do solo para áreas já desflorestadas, em vez de abrir novas zonas húmidas.
  • Planos regionais de água precisam de gerir savana e floresta tropical de forma integrada, e não como sistemas separados.

Porque estas turfeiras são relevantes para a Europa

Quem, a partir da Europa, olhar para o mapa do Cerrado pode sentir a tentação de considerar o tema distante. No entanto, muitas cargas de soja destinadas a ração animal provêm diretamente desta região de savana. Assim, decisões tomadas no Brasil repercutem-se, através das cadeias de importação, até às prateleiras de supermercados europeus.

Quanto maior for a pressão dos parceiros comerciais por cadeias de fornecimento sem desflorestação, maior será também o incentivo para não mexer nas zonas húmidas. As novas regras da UE sobre desflorestação ainda ficam aquém neste ponto, porque se centram sobretudo em florestas. O Cerrado, com os seus solos encharcados, fica em parte fora do enquadramento.

Conceitos que ajudam a compreender

O que são “solos turfosos” no Cerrado

Quando os investigadores falam de solos turfosos ou orgânicos, referem-se a camadas compostas em grande medida por matéria vegetal parcialmente decomposta. Nas turfeiras europeias, este material é conhecido como turfa. No Cerrado, a estrutura pode ser semelhante, embora varie nas espécies vegetais e na história de formação.

Quando um solo deste tipo é drenado, pode encolher ou mineralizar de forma significativa em poucos anos - e o carbono passa para a atmosfera. Este processo é, na prática, quase impossível de reverter, porque camadas comparáveis só se voltam a formar ao longo de períodos muito longos.

Riscos combinados: seca, fogo, agricultura

A situação torna-se particularmente delicada quando vários fatores de pressão ocorrem ao mesmo tempo. No Cerrado, três tendências estão a convergir:

  • secas mais frequentes e intensas devido às alterações climáticas;
  • áreas ardidas maiores na savana e na floresta;
  • procura crescente por novas terras agrícolas.

Cada fator, por si só, fragiliza o armazenamento de carbono e o regime hídrico. Em conjunto, reforçam-se mutuamente. Solos mais secos ardem com mais facilidade; o fogo destrói a vegetação; com menos plantas, o solo retém menos água - e o verão seguinte de seca chega a uma paisagem ainda mais vulnerável.

É aqui que se percebe a sensibilidade do sistema climático global: o futuro da Amazónia não depende apenas das suas árvores, mas também dos discretos solos húmidos da savana ao lado. Ignorar o Cerrado é fazer contas erradas - tanto no carbono como na água.


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