Há muito que os cientistas sabem que as pessoas que consomem grandes quantidades de alimentos ultraprocessados enfrentam riscos mais elevados de doença cardíaca, diabetes tipo 2 e alguns cancros.
A peça que faltava era perceber, ao certo, o que estes alimentos fazem dentro do organismo.
Um novo estudo sugere que a resposta pode estar escrita no nosso sangue. Quem ingere mais alimentos ultraprocessados apresenta uma impressão digital química própria, que aponta para um metabolismo das gorduras perturbado e para maior stress a nível celular.
No conjunto, estes resultados fornecem uma das explicações biológicas mais sólidas até agora para a ligação entre padrões alimentares centrados em produtos embalados e fabricados industrialmente e o aparecimento de tantas doenças crónicas.
Ligar a dieta ao sangue
Durante anos, foi possível associar dietas ricas em alimentos embalados e produzidos industrialmente a piores indicadores de saúde, sem que se compreendesse por completo o que acontece entre a refeição e a doença.
Com o objectivo de preencher esse vazio, Jessica Blanco-Lopez, investigadora da Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC), em França, decidiu procurar uma ponte biológica entre a alimentação e os efeitos no organismo.
A equipa analisou amostras de sangue e registos alimentares de 15,200 pessoas participantes num estudo europeu de longa duração.
Para classificar a alimentação de cada participante, os investigadores recorreram ao sistema NOVA, uma escala amplamente utilizada que ordena os alimentos pelo grau de processamento - desde ingredientes frescos até produtos ultraprocessados, em grande parte formulados com aditivos industriais.
Seguir as pistas do metabolismo
Em cada amostra de sangue, foram quantificadas centenas de pequenas moléculas, procurando-se assinaturas químicas que aumentassem ou diminuíssem em função do consumo de alimentos ultraprocessados.
Segundo os autores, esta é a primeira investigação a aplicar metabolómica direcionada - uma abordagem que mede moléculas específicas e já conhecidas no corpo - para estudar estas dietas numa população europeia tão alargada.
Trabalhos anteriores já tinham associado dietas ultraprocessadas a doenças do coração e dos vasos sanguíneos, mas o percurso químico que liga esses alimentos à doença mantinha-se por esclarecer.
Sinais de alerta do organismo
O padrão alimentar ficou reflectido em 22 metabolitos diferentes - compostos intermédios e produtos finais gerados quando o organismo decompõe os alimentos.
Os maiores consumidores destacavam-se claramente: no sangue, apresentavam níveis mais elevados de certos subprodutos gordos que se acumulam quando as células deixam de conseguir queimar gordura de forma eficiente, sugerindo falhas na maquinaria celular responsável pela produção de energia.
Em simultâneo, várias gorduras essenciais de que o corpo depende estavam em queda. Estes lípidos ajudam a formar membranas celulares e a transmitir sinais entre células; a sua diminuição sugere que o processamento normal das gorduras está a perder equilíbrio.
Em conjunto, a leitura aponta para dois problemas em paralelo: por um lado, o corpo parece produzir mais compostos gordos próprios, incluindo colesterol; por outro, revela maior dificuldade em tratar as gorduras pela via considerada saudável.
O desenho encontrado indica que estes alimentos poderão prejudicar em duas frentes - tanto por afastarem opções alimentares de melhor qualidade do prato, como por interferirem directamente com o metabolismo.
“O consumo de alimentos ultraprocessados pode contribuir para riscos para a saúde através da substituição nutricional e da indução de perturbações metabólicas”, afirmou a Dra. Blanco-Lopez.
Gorduras saudáveis começam a alterar-se
O sangue mostrava ainda uma combinação reveladora de 8 ácidos gordos. Entre eles, destacava-se o ácido esteárico, uma gordura saturada que tende a subir com uma alimentação muito rica ou quando o metabolismo entra em dificuldade, surgindo ao lado de valores invulgarmente elevados de gorduras de cadeia longa de um tipo bastante diferente.
Para os investigadores, esta mistura dizia algo que os rótulos não conseguem mostrar: nem toda a gordura adicional tinha origem directa no que as pessoas comiam.
O restante, ao que tudo indica, era produzido pelo próprio organismo a partir de excesso de hidratos de carbono - açúcares refinados e amidos presentes em muitos destes produtos.
Este achado encaixa noutros resultados. Um estudo com milhares de crianças britânicas observou que quem comia muitos destes produtos também apresentava uma assinatura sanguínea própria de alterações nas gorduras, associada ao aumento de gordura corporal ao longo do crescimento.
Além disso, foram detectados vestígios de gorduras industriais, mesmo quando o consumo era baixo.
Associação, não causalidade
Este trabalho não permite demonstrar que os alimentos ultraprocessados causaram as alterações observadas. O retrato foi feito num único momento, em vez de acompanhar cada participante durante anos; por isso, o que se vê é uma associação robusta, não uma relação de causa e efeito.
Antes de aceitarem as conclusões, a Dra. Blanco-Lopez e os seus colegas submeteram os resultados a vários testes e verificações. Esse cuidado reforçou a confiança nas conclusões.
“O que foi particularmente tranquilizador foi que, apesar destas diferentes abordagens, os resultados se mantiveram notavelmente consistentes”, disse a Dra. Blanco-Lopez.
O principal avanço do estudo é oferecer uma explicação biológica clara. Até aqui, os prejuízos associados a dietas ultraprocessadas eram sobretudo visíveis em estatísticas populacionais.
A assinatura no sangue sugere que o organismo pode estar sob dois tipos de stress ao mesmo tempo: a produzir mais gordura do que deveria e, em paralelo, a perder capacidade de proteger as células.
O sangue pode antecipar doença
Outros investigadores já começaram a relacionar estes padrões sanguíneos com doença. Um estudo identificou uma assinatura química ligada à alimentação associada a taxas mais elevadas de perturbações de saúde mental, para além do que os inquéritos dietéticos, por si só, conseguem captar.
Isto dá utilidade prática à impressão metabólica, porque poderá, no futuro, ajudar médicos a detectar danos metabólicos antes de surgirem sintomas.
O passo seguinte será acompanhar estas assinaturas sanguíneas ao longo do tempo, para perceber se as alterações químicas surgem antes do desenvolvimento de doença.
Os resultados sugerem também que dietas que evitam alimentos ultraprocessados deixam no sangue um perfil mais saudável e ajudam a manter, nos níveis adequados, as gorduras que sustentam o funcionamento normal das células.
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