Devastam as saladas e põem os nervos à flor da pele: quem tem um jardim conhece bem os viscosos “vingadores” da noite.
De madrugada, entra-se na estufa e as camas parecem ter levado com um vendaval: folhas crivadas de buracos, rastos prateados de muco, plântulas mordiscadas. E muitos jardineiros amadores acabam por chegar ao mesmo dilema: deixar andar e confiar na natureza, ou agir com firmeza para não perder a colheita? A opção mais sensata costuma estar algures no meio.
As lesmas não são apenas pragas
Por mais desagradáveis que sejam os estragos, as lesmas têm um papel definido no ecossistema do jardim. Alimentam-se de restos vegetais mortos, fungos e plantas enfraquecidas. Ao fazê-lo, aceleram a decomposição da matéria orgânica e contribuem para que os nutrientes regressem ao solo.
Além disso, são alimento para muitos animais. Ouriços-cacheiros, sapos, lagartos-sem-patas, carabídeos (besouros corredores) e várias espécies de aves dependem, em parte, delas. Um pormenor curioso: algumas espécies, como a chamada lesma-tigre (Limax maximus), consomem sobretudo matéria vegetal morta - e chegam até a caçar outras lesmas. Eliminar todas indiscriminadamente significa também retirar do sistema possíveis aliados.
"As lesmas irritam os jardineiros, mas fornecem nutrientes ao solo e servem de alimento para muitos auxiliares úteis."
As populações de lesmas regulam-se sozinhas?
A ideia é tentadora: onde há muitas lesmas, com o tempo surgem mais predadores e, a certa altura, instala-se um equilíbrio. Em termos gerais, a dinâmica presa–predador existe na natureza.
No entanto, nos jardins esse balanço falha frequentemente. Uma única lesma pode pôr, por ano, até cerca de 400 ovos. Predadores como ouriços-cacheiros ou sapos têm muito menos descendência e precisam de mais tempo para formar populações estáveis. Acresce que muitos terrenos estão vedados, muito “arrumados” e divididos em pequenas parcelas. Para vários animais, faltam refúgios tranquilos e seguros onde possam fixar-se de forma permanente.
O resultado é simples: as lesmas multiplicam-se mais depressa do que os inimigos naturais conseguem acompanhar. Em anos húmidos, confiar apenas na autorregulação pode acabar, rapidamente, numa cama de cultivo rapada.
Quando deve intervir - e quando não
Quem cultiva com uma abordagem mais próxima da natureza aceita algumas perdas. Como regra prática, quando os danos ficam por volta de 10% a 20% da colheita, é possível tolerá-los. Assim, dá-se tempo para que os predadores se instalem, sem comprometer totalmente a produção.
A situação torna-se crítica quando as plântulas mais tenras desaparecem por completo em uma ou duas noites, ou quando um conjunto inteiro de alfaces é destruído num início de primavera húmido. Pelo menos a partir do momento em que se perde mais de um quinto da colheita planeada, muitos jardineiros consideram que faz sentido intervir.
Importa, porém, a atitude de base: não se procura uma “zona sem lesmas”, mas sim uma população reduzida com a qual o canteiro e os auxiliares ainda consigam lidar.
Nada de venenos - o que resulta mesmo
Por frustração, há quem recorra a granulados coloridos. Produtos com substâncias activas como metaldeído ou methiocarb matam as lesmas depressa, mas também representam risco para animais de companhia, crianças e organismos úteis. Mesmo soluções com fosfato de ferro, permitidas na horta biológica, muitas vezes actuam em larga escala e acabam por afectar igualmente animais que não eram o alvo.
Mais suave para o sistema do jardim é apostar em métodos mecânicos e intervenções dirigidas:
- Apanhar à noite: em fases húmidas, com lanterna de cabeça e luvas, fazer uma volta pelos canteiros pouco depois de anoitecer ou ao romper do dia. Duas rondas por semana costumam bastar para baixar a pressão de forma perceptível. Soltar os animais a pelo menos 10 metros da horta ou colocá-los num compostor fechado.
- Armadilhas com cerveja: enterrar pequenos copos na margem do canteiro e encher com cerca de 100 a 150 mililitros de cerveja. O cheiro atrai as lesmas. Mas este método pode também chamar animais de terrenos vizinhos; por isso, use-o apenas pontualmente, por exemplo em semanas críticas.
- Plantas como isco: ao fim do dia, colocar folhas húmidas de couve, pedaços de abóbora ou folhas de alface entre as culturas. De manhã, costuma haver várias lesmas reunidas por baixo e é fácil recolhê-las. Em geral, uma planta-isca por metro quadrado é suficiente.
- Barreiras de protecção: colar fita de cobre com cerca de três centímetros de largura à volta de vasos e canteiros elevados. Muitas lesmas evitam o contacto directo. Casca de ovo grosseiramente esmagada ou uma camada seca de borras de café pode reforçar a protecção de pequenas áreas.
- Reduzir esconderijos: tábuas soltas, vasos virados ao contrário, camadas grossas de mulch encostadas aos caules - tudo isto é abrigo perfeito. Ao remover estes locais de forma intencional, dificulta-se o refúgio diurno. Ainda assim, mantenha conscientemente zonas para auxiliares numa parte mais resguardada do jardim.
"Quanto mais direcionadas forem as medidas, maior a probabilidade de o jardim continuar vivo - e a colheita, ainda assim, aproveitável."
Como atrair inimigos naturais de forma duradoura
Para ter menos problemas com lesmas a longo prazo, é preciso criar espaço para os seus predadores. Isso começa com estruturas simples:
- Montes de madeira e ramagem: um monte solto de ramos e pedaços de madeira, com cerca de um metro de altura, dá abrigo a ouriços-cacheiros e a muitos insectos. Deve ficar num canto sossegado, e não no centro da zona de brincadeira das crianças.
- Pequenos pontos de água: uma pequena depressão tipo charco, com 30 a 50 centímetros de profundidade, pode ser suficiente para sapos e rãs se estabelecerem. Margens com plantas atraem insectos e aves.
- Cantos menos “limpos”: manter tudo raso com o corta-relva afugenta muitos ajudantes. Alguns metros quadrados com urtigas, flores silvestres e uma sebe densa oferecem alimento e cobertura.
- Rega no momento certo: canteiros regados ao final do dia permanecem húmidos durante a noite - o cenário ideal para as lesmas. Regar de manhã reduz a atractividade da área quando escurece.
- Plantas aromáticas: algumas lesmas evitam aromas intensos. Linhas de tomilho, alecrim ou salva junto à borda do canteiro podem criar alguma “blindagem” para culturas sensíveis.
Mulch: protecção do solo - luxo para as lesmas?
As camadas de mulch conservam a humidade, mantêm o solo fofo, protegem contra a erosão e ajudam a poupar água. Ao mesmo tempo, esse ambiente húmido e sombreado é exactamente o que as lesmas apreciam. Por isso, é necessária alguma sensibilidade.
Materiais secos, como palha, madeira triturada ou agulhas de pinheiro, costumam funcionar melhor do que relva fresca cortada. A relva começa depressa a apodrecer e transforma-se numa “casa” ideal para lesmas. À volta de plântulas mais vulneráveis, convém deixar uma faixa com cerca de dez centímetros sem mulch, para que não encontrem abrigo directo junto ao caule.
Que plantas as lesmas preferem roer
Nem todas as culturas são igualmente visadas. Saber o que elas procuram ajuda a planear melhor. São particularmente sensíveis:
- alfaces jovens e couves
- plântulas de feijão e de ervilha
- zínias e dálias mais tenras
- tagetes e muitas outras ornamentais anuais
Por outro lado, tendem a resistir melhor cebolas, alho, muitas ervas aromáticas, tomateiros a partir de um certo tamanho e várias plantas perenes com folhas mais firmes. Pode usar estas espécies na periferia para “moldurar” variedades mais delicadas.
Combinações práticas no canteiro
Um bom consórcio de plantas reduz a pressão das lesmas. Alguns exemplos:
- plantar alface entre filas de alho ou cebolo (cebola de primavera)
- misturar couves com ervas aromáticas de cheiro forte
- escolher, nas bordas do canteiro, espécies pouco apelativas para lesmas
Em muitos jardins, também resulta uma espécie de “zona tampão”: uma pequena faixa com plantas muito cobiçadas, como algumas tagetes, desvia parte das lesmas e facilita o apanha.
Enquadrar riscos e efeitos secundários
Uma guerra agressiva contra lesmas pode prejudicar rapidamente a vida do jardim como um todo. Lesmas mortas por venenos atraem necrófagos e animais de companhia, que se podem intoxicar ao consumi-las. Além disso, estes moluscos deixam de estar disponíveis como fonte alimentar. Consequência: predadores como o ouriço-cacheiro afastam-se, e o jardim fica, a longo prazo, mais vulnerável a novas vagas de lesmas.
No extremo oposto, quem não faz nada pode ter de aceitar que certas culturas falhem ano após ano. Em áreas pequenas, a paciência esgota-se quando as variedades favoritas desaparecem continuamente. Uma via equilibrada considera ambos os lados: canteiros vivos, onde se tolera algum “petisco”, e ainda assim uma colheita que dê prazer.
Como a paciência e estratégias inteligentes compensam
Quando, ao longo de várias épocas, se investe em diversidade de estruturas, acções de recolha bem apontadas e barreiras suaves, costuma notar-se uma mudança clara. A primeira temporada pode continuar difícil, sobretudo depois de um inverno chuvoso. Mas cada abrigo extra para ouriços, cada canto tranquilo e cada rega mais consciente desloca o equilíbrio um pouco mais.
Ao mesmo tempo, muitos jardineiros passam a ler melhor os seus canteiros: onde surgem as primeiras lesmas, que plantas ficam intactas, em que dias a pressão aumenta. Com o tempo, estas observações convertem-se num sistema muito pessoal. Quem aceita sacrificar algumas folhas e, em paralelo, intervém com inteligência, vê muitas vezes o jardim estabilizar gradualmente - sem recorrer a granulados azuis.
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