Nos últimos anos, medicamentos como o Mounjaro geraram um entusiasmo raro: vários estudos apontam efeitos muito expressivos no peso, na glicemia e no risco cardiovascular. Uma análise alargada sobre a substância activa tirzepatida coloca, porém, uma questão incómoda: será que grande parte do ganho se perde na prática assim que o tratamento termina?
O que a tirzepatida faz no organismo - e porque é que o peso desce tão depressa
A tirzepatida integra uma nova geração de fármacos que nasceu no contexto da terapêutica da diabetes. Actua em receptores de duas hormonas intestinais (GIP e GLP‑1), envolvidas no controlo da fome, da saciedade e do açúcar no sangue. Em termos simples: o apetite reduz-se de forma marcada, o organismo passa a gastar energia de forma mais “poupada” e o pâncreas tende a funcionar com maior estabilidade.
No grande ensaio SURMOUNT‑4, adultos com obesidade ou excesso de peso significativo utilizaram o medicamento durante 36 semanas. Em simultâneo, tiveram aconselhamento alimentar e um programa estruturado de actividade física. O resultado foi:
- em média, cerca de 20% de redução do peso corporal
- melhoria dos valores de glicemia
- perfil lipídico mais favorável, incluindo no colesterol LDL (“mau”)
- valores de tensão arterial mais baixos
"Para muitas pessoas, uma perda de peso desta magnitude não se traduz apenas em tamanhos de roupa menores, mas também num risco claramente mais baixo de enfarte, AVC e diabetes."
Perante estes dados, muitos especialistas passaram a encarar a tirzepatida como um potencial ponto de viragem no tratamento da obesidade. Ainda assim, faltava o teste decisivo: o que acontece quando se interrompe a injecção?
A segunda fase do estudo: interromper vs. continuar
Terminada a primeira fase, a equipa de investigação dividiu os participantes em dois grupos. Um continuou a receber tirzepatida; o outro passou a receber apenas um placebo sem efeito - e, em ambos os casos, ninguém sabia quem estava a receber o quê. Este desenho “duplamente cego” reduz a possibilidade de as expectativas influenciarem os resultados.
A pergunta central era directa: o benefício mantém-se quando o fármaco é suspenso ou o corpo regressa, na prática, ao ponto de partida?
Perda rápida - e recuperação igualmente rápida
A resposta foi pouco animadora. No grupo placebo, surgiu um padrão claro: a maioria voltou a ganhar peso de forma perceptível.
- 82% recuperaram pelo menos um quarto do peso que tinham perdido.
- Uma parte dos participantes voltou a ganhar até três quartos dos quilogramas.
- Tudo isto no espaço de cerca de um ano após o fim do tratamento.
Com o aumento de peso, regressaram também vários riscos: o colesterol LDL subiu, a tensão arterial voltou a aumentar e a glicemia piorou. Entre quem recuperou mais peso, muitos indicadores aproximaram-se novamente dos valores iniciais - como se a redução de 20% nunca tivesse acontecido.
"Quanto mais peso os participantes recuperavam após interromper o tratamento, mais se degradavam os seus parâmetros metabólicos - uma marcha-atrás directa e mensurável."
Para os especialistas, este retrato encaixa no que há muito se observa na obesidade: o excesso de peso tende a elevar glicemia, tensão arterial e gorduras no sangue. Quando o peso desce, os valores melhoram; quando volta a subir, os riscos aumentam novamente.
Obesidade como doença crónica - será que uma injecção chega?
Os resultados colocam o actual optimismo em torno das “injecções para emagrecer” numa perspectiva diferente. A obesidade é reconhecida há muito como uma doença crónica - comparável à hipertensão ou à diabetes. E, nessas condições, raramente se considera que um medicamento se torne “dispensável” ao fim de alguns meses.
Por isso, várias sociedades científicas discutem abertamente se substâncias como a tirzepatida devem ser encaradas como terapêutica de longa duração. Isso implica, entre outros pontos:
- necessidade de acompanhamento e ajuste a longo prazo para doentes
- pressão de custos muito elevados para os sistemas de saúde ao longo de anos
- selecção mais rigorosa por parte de médicos e médicas sobre quem beneficia realmente
Em paralelo, psicólogas como Jane Ogden alertam para outro risco: durante o tratamento, muitas pessoas quase não alteram os seus comportamentos. Se a injecção corta a fome, pode haver menos motivação para cozinhar, planear refeições ou criar rotinas - e a pessoa passa a depender totalmente do medicamento. Quando esse “escudo farmacológico” desaparece, a estrutura também desaparece.
"Sem mudanças duradouras no dia a dia, o medicamento transforma-se numa muleta - quando a tiramos, o corpo tropeça e regressa a padrões antigos."
Porque é que interromper sem plano é tão arriscado
O estudo evidencia não só um desafio clínico, mas também um desafio organizacional. Vários especialistas defendem um plano claro para a fase pós-interrupção, caso esta venha a acontecer. Entre as medidas apontadas, incluem-se:
- controlo de peso frequente e próximo
- programas alimentares adaptados a cada pessoa
- actividade física orientada, como programas de reabilitação ou grupos cardíacos
- apoio psicológico quando a alimentação está fortemente ligada a emoções
Os primeiros meses após o fim do tratamento são vistos como um período particularmente crítico. Sem suporte, é fácil cair num efeito ioiô - com as consequências conhecidas para o coração e para o metabolismo.
Questões financeiras e éticas
O uso prolongado destes medicamentos implica custos elevados. Seguradoras, serviços de saúde e hospitais têm de ponderar: quantos enfartes, AVC e casos de insuficiência renal com necessidade de diálise se conseguem evitar ao longo do tempo? Como muda a mortalidade se as pessoas com maior risco mantiverem uma redução de peso sustentada? Só com períodos longos de observação se perceberá se uma utilização alargada é economicamente compensadora.
Acrescem dilemas éticos: faz sentido manter indefinidamente um fármaco muito caro em pessoas para quem o problema é sobretudo “cosmético”, sem risco clínico elevado? Ou deve ser reservado para quem já enfrenta elevada probabilidade de complicações graves?
Situações específicas: desejo de engravidar, gravidez e grupos sensíveis
Os investigadores referem ainda indicações vindas de outros trabalhos: quando mulheres interrompem o medicamento pouco antes de uma gravidez, parece existir um risco aumentado de diabetes gestacional e de certas complicações no parto. A evidência ainda é limitada, mas muitos especialistas recomendam hoje integrar o desejo de ter filhos o mais cedo possível no planeamento terapêutico.
Em pessoas muito jovens ou muito idosas, a questão da tolerabilidade a longo prazo torna-se ainda mais relevante. E há também grupos em que médicas e médicos tendem a avaliar com especial cautela, como quem tem doenças prévias do estômago, intestino ou pâncreas.
O que quem pondera a tirzepatida pode aprender com os dados actuais
Para quem considera a tirzepatida ou fármacos semelhantes, este estudo não deve ser lido como um alerta contra o medicamento, mas sim como um alerta contra expectativas irrealistas. O efeito é forte - mas, ao que tudo indica, depende de o fármaco continuar “em jogo”.
Um plano realista poderia, por exemplo, seguir estes passos:
- iniciar o tratamento numa consulta ou clínica especializada
- em paralelo, construir rotinas novas: horários fixos para comer, mais movimento, redução do stress
- monitorização regular de tensão arterial, glicemia e lípidos no sangue
- só depois de mudanças comportamentais estabilizadas, considerar uma redução gradual da dose - se fizer sentido
Usar o medicamento como “solução rápida” e, depois, voltar ao mesmo estilo de vida tende a reproduzir o padrão das dietas radicais: o peso regressa, muitas vezes com agravamento, e o metabolismo paga a factura a dobrar.
A longo prazo, é provável que se imponha um modelo combinado: medicamentos como a tirzepatida como ferramenta potente, mas inseridos num programa bem acompanhado de alimentação, exercício e apoio psicológico. Assim, aumenta a probabilidade de que não seja apenas a balança a beneficiar, mas também o coração e os vasos sanguíneos de forma sustentada.
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