Um bebé em desenvolvimento capta muitos sinais do ambiente que rodeia a mãe. Durante a gravidez, tudo aquilo que ela respira, come ou toca pode circular no seu organismo e chegar ao feto em crescimento.
Nesse ambiente entram também os químicos sintéticos. Estão presentes nos plásticos, nos pesticidas, nas fragrâncias e em inúmeros produtos que enchem as prateleiras de quase todas as casas de banho.
Um novo estudo de grande escala traçou agora um mapa de quantos destes compostos surgem durante a gravidez. Os resultados apontam para a possibilidade de alguns influenciarem o momento do parto e o peso com que o bebé nasce.
Exposição a químicos durante a gravidez
Os investigadores acompanharam 5,318 mães e os seus filhos em vários locais dos Estados Unidos, com nascimentos entre 2000 e 2021.
Cada participante forneceu uma única amostra de urina a meio da gestação. Nessa amostra, a equipa procurou 113 químicos - ou produtos da sua degradação - organizados em 10 grandes classes.
Essas classes incluíram suspeitos conhecidos e outros menos falados: ftalatos e plastificantes de substituição, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs), pesticidas, bisfenóis, parabenos e fenóis halogenados.
Uma média de 45 químicos por amostra
O volume de exposições foi um dos aspetos mais marcantes. Em média, cada mulher apresentava vestígios de 45 químicos diferentes, e numa das amostras chegaram a ser detetados 64.
Alguns compostos surgiram quase universalmente. Elementos das 10 classes apareceram em pelo menos 70% das amostras.
Evitar este tipo de químicos é difícil: podem chegar ao organismo através da alimentação, da água, da poluição do ar e de bens domésticos usados no dia a dia.
“Estes químicos são difíceis de evitar porque estão presentes numa ampla variedade de produtos que usamos todos os dias. Pode ser difícil saber se os produtos os contêm e, mesmo quando sabemos, temos um controlo limitado sobre as exposições”, afirmou Jessie Buckley, professora de epidemiologia na Escola Gillings.
Associados a partos mais cedo e bebés mais pequenos
Depois, os investigadores avançaram para uma questão mais exigente: estas exposições relacionavam-se com a forma como a gravidez terminava?
Vários ftalatos e plastificantes alternativos estiveram associados a partos mais precoces e a maiores probabilidades de nascimento prematuro. Um conjunto de produtos de degradação de ftalatos, por exemplo, foi ligado a uma idade gestacional ligeiramente menor e a um aumento do risco de prematuridade.
As mesmas famílias de químicos, em conjunto com os PAHs, também foram associadas a menor peso à nascença quando ajustado à idade gestacional do bebé. O padrão incluiu ainda compostos pouco estudados, como fenóis halogenados e um par de bisfenóis específicos.
A idade gestacional e o peso à nascença não são pormenores. Ambos estão fortemente ligados à saúde da criança muito para lá dos primeiros meses de vida.
Novos riscos químicos na gravidez
Há um resultado que merece atenção especial. Os ftalatos são frequentes em corredores de produtos para bebé, surgindo em brinquedos, cremes para a muda da fralda, champôs e muito mais.
Em 2017, a Comissão de Segurança dos Produtos de Consumo dos Estados Unidos proibiu de forma permanente ou limitou de forma acentuada oito ftalatos comuns em brinquedos e produtos para crianças. Contudo, essa medida não abrangeu muitos outros bens, incluindo os usados durante a gravidez.
Perante isso, a indústria passou a recorrer a plastificantes mais recentes. Ainda assim, o estudo concluiu que várias destas alternativas se comportaram de modo muito semelhante aos químicos que pretendiam substituir.
“O nosso estudo destaca a necessidade de políticas mais fortes para proteger as pessoas de químicos tóxicos”, disse Tracey Woodruff, professora de epidemiologia e saúde da população na Universidade de Stanford.
Woodruff, de Stanford, sublinhou que alguns substitutos mais novos também se revelaram prejudiciais, motivo pelo qual defende que os químicos de substituição devem ser devidamente avaliados antes de chegarem ao mercado.
Porque pequenas diferenças contam
Uma alteração de meio dia na duração da gravidez pode parecer irrelevante. Para uma família em particular, pode mesmo não ter impacto.
No entanto, quando se olha para uma população inteira, pequenas variações acumulam-se. Podem empurrar muitos mais bebés para a categoria de prematuridade ou de baixo peso à nascença, sobretudo em comunidades que já enfrentam riscos mais elevados.
É essa dimensão que preocupa os investigadores: efeitos diminutos ao nível individual podem converter-se em custos reais para a saúde pública.
O argumento para regras mais rígidas
Para os autores, a mensagem para os reguladores é inequívoca. Os químicos já amplamente utilizados precisam de muito mais investigação - e o mesmo se aplica às alternativas que os substituem.
“As pessoas grávidas estão em risco de exposição a químicos através de múltiplas fontes, muitas delas fora do seu controlo”, afirmou Woodruff.
“Os governos e as empresas precisam de fazer um melhor trabalho na redução de químicos nocivos nos produtos do dia a dia e em garantir que novos químicos são seguros, o que levará a crianças e famílias mais saudáveis.”
Reduzir a exposição a químicos na gravidez
Ainda assim, as escolhas individuais podem ajudar, mesmo que de forma limitada. Ler rótulos, optar por produtos sem fragrância e evitar aquecer alimentos em plástico pode reduzir algumas exposições.
Segundo a equipa, a solução mais eficaz está mais a montante.
“Embora existam alguns passos práticos que as pessoas podem tomar, reduzir os químicos nocivos na origem é a forma mais eficaz de proteger crianças e famílias”, disse Buckley.
O trabalho foi liderado por cientistas da Universidade da Carolina do Norte (UNC), na Escola Gillings de Saúde Pública Global, da Universidade de Stanford e do Instituto Woods para o Ambiente.
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