Uma nova investigação conclui que 96 % dos brinquedos comprados em plataformas de comércio eletrónico a vendedores terceiros de fora da Europa não cumprem as regras. O mais preocupante é que estes artigos podem pôr em risco a vida das crianças.
Contexto: investigação da UFC-Que Choisir
Há poucas semanas, a UFC-Que Choisir divulgou uma análise muito crítica aos produtos vendidos por revendedores terceiros na Shein e na Temu. Depois de avaliar 54 carregadores USB e 54 brinquedos destinados a crianças com menos de três anos, a associação - em conjunto com entidades europeias semelhantes - verificou que apenas 4 % dos carregadores obedeciam às normas em vigor no continente europeu.
Nos brinquedos, o cenário era semelhante: peças que se soltam com demasiada facilidade, compartimentos de pilhas que abrem com um simples toque de unha e até níveis de substâncias tóxicas cinco vezes acima dos limites permitidos. Os riscos são, naturalmente, imediatos. Entretanto, um novo estudo, desta vez conduzido pela Toy Industries of Europe (TIE) e pela Federação Francesa das Indústrias de Brinquedos e Puericultura (FFJP), apresenta um retrato igualmente inquietante.
Constatação alarmante
Para o estudo, as organizações compraram 70 brinquedos a vendedores terceiros de fora da União Europeia, maioritariamente na China, através de sete plataformas de e-commerce populares: AliExpress, Amazon, Cdiscount, Fruugo, Joom, Shein e Temu. Em seguida, os produtos foram submetidos a testes por um laboratório independente - com resultados que dão que pensar.
96 % dos brinquedos falham os requisitos europeus de segurança e 86 % são classificados como perigosos. Os problemas repetem-se de forma consistente: componentes muito pequenos que podem ser engolidos e provocar lesões internas graves; pilhas e ímanes simples de retirar; elementos tóxicos; mecanismos frágeis; montagens mal executadas. A isto juntam-se, em alguns casos, informações do vendedor contraditórias, o que torna a rastreabilidade praticamente inexistente.
Principais falhas de segurança observadas
- Peças minúsculas com risco de ingestão e danos internos graves
- Pilhas e ímanes que se removem com facilidade
- Presença de componentes tóxicos
- Estruturas frágeis e mecanismos pouco resistentes
- Assemblagens deficientes
- Dados do vendedor incoerentes, dificultando a rastreabilidade
A situação torna-se ingovernável na Europa
Estas conclusões surgem numa altura em que a Shein já está no centro de uma polémica em França, depois de o Governo ter iniciado um procedimento para suspender a plataforma na sequência da deteção de produtos proibidos, incluindo facas e bonecas sexuais com aparência infantil.
O desafio é gigantesco. As autoridades aduaneiras europeias estão claramente sobrecarregadas, com 4,6 mil milhões de encomendas a entrarem na UE todos os anos, 90 % das quais provenientes da China. Com um volume desta magnitude, os controlos acabam inevitavelmente por ser limitados. O resultado é que produtos literalmente perigosos continuam a passar entre as malhas da fiscalização.
Responsabilidade das plataformas e regras em vigor
Acresce que as próprias plataformas não são, por lei, responsáveis pelos bens vendidos por revendedores terceiros. E, ao que tudo indica, as regras mais recentes que exigem a existência de um «operador económico responsável» na UE pouco alteram este cenário.
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