As canetas emagrecedoras - fármacos muito usados no tratamento da obesidade e da diabetes tipo 2 - podem ter um efeito adicional que está a despertar interesse na comunidade científica. Um novo trabalho identificou uma associação entre a utilização dos chamados agonistas do receptor de GLP-1 e um menor risco de cancro colorrectal em pessoas com doença inflamatória intestinal.
O estudo foi apresentado no congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), um dos mais relevantes encontros internacionais da especialidade, e avaliou doentes considerados particularmente vulneráveis ao desenvolvimento deste tipo de tumor.
População de maior risco
A investigação centrou-se em pessoas com diagnóstico de doenças inflamatórias intestinais, incluindo a doença de Crohn e a rectocolite ulcerosa. Estas patologias geram inflamação crónica no tubo digestivo - um factor que, ao longo dos anos, pode aumentar a probabilidade de alterações celulares e, por consequência, de cancro colorrectal.
Para explorar a possível ligação entre estes medicamentos e o risco da doença, os cientistas recorreram a dados da plataforma TriNetX, que agrega informação de saúde de mais de 150 milhões de doentes.
De entre mais de 1,1 milhão de pessoas com doença inflamatória intestinal identificadas na base de dados, cerca de 70 mil estavam a ser tratadas com medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1.
Redução expressiva nos casos de cancro
Depois de compararem doentes com perfis semelhantes, os investigadores encontraram diferenças relevantes entre os grupos.
Num intervalo de cinco anos, a incidência de cancro colorrectal foi de 0,20% entre utilizadores destes fármacos, enquanto atingiu 0,43% entre quem não recorria a esta classe terapêutica. De acordo com os autores, isto equivale a uma redução de aproximadamente 51% na probabilidade de desenvolver o tumor.
O mesmo padrão foi observado em doentes que, além de doença inflamatória intestinal, também tinham diabetes tipo 2. Nesse subgrupo, a incidência de cancro colorrectal foi de 0,31% nos utilizadores de agonistas de GLP-1, face a 0,57% nos não utilizadores - uma redução de 46% no risco de diagnóstico.
O que pode explicar o resultado?
Embora o desenho do estudo não permita determinar as causas desta associação, os autores apontam algumas hipóteses.
Uma possibilidade é que estes medicamentos contribuam de forma indirecta através da perda de peso, de um melhor controlo da glicemia e da diminuição de processos inflamatórios no organismo. Estes elementos são frequentemente ligados a uma melhor saúde metabólica e podem influenciar o aparecimento de doenças crónicas.
Ainda assim, permanece por esclarecer qual o mecanismo envolvido e se o benefício observado resulta directamente da acção dos medicamentos.
Achado promissor, mas ainda preliminar
Apesar do interesse gerado pelos dados, os autores sublinham que se trata de um estudo observacional. Ou seja, identifica uma associação estatística, mas não demonstra uma relação de causa-efeito.
Na prática, os resultados sugerem que as pessoas que utilizavam agonistas de GLP-1 tiveram menos casos de cancro colorrectal, mas não permitem concluir que os fármacos foram os responsáveis por essa diminuição.
Por esse motivo, especialistas realçam a necessidade de novos estudos para confirmar estes achados e perceber melhor os mecanismos subjacentes.
Até existirem provas mais robustas, as canetas emagrecedoras mantêm indicação apenas para as utilizações aprovadas, como obesidade e diabetes tipo 2, sempre com acompanhamento médico.
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