Desde que se percebeu o efeito da penicilina, os antibióticos passaram a ser vistos como uma verdadeira arma milagrosa. No entanto, décadas de utilização prolongada - muitas vezes pouco criteriosa - tiveram um custo: cada vez mais microrganismos quase não se deixam afetar pelos medicamentos de primeira linha. Para responder a este desafio, equipas de investigação estão a recorrer a sistemas de AI capazes de fazer, em poucas horas, tarefas que antes ocupavam laboratórios durante anos.
Quando os antibióticos falham: uma pandemia silenciosa
Os antibióticos mudaram a medicina de forma radical. Sem eles, cirurgias de rotina, tratamentos oncológicos e até infeções aparentemente banais voltariam a ser potencialmente fatais. Esse alicerce, porém, está a enfraquecer: as bactérias adaptam-se, sofrem mutações e tornam-se resistentes a substâncias que, durante muito tempo, foram consideradas seguras.
Os dados são inquietantes: todos os anos, cerca de 1,1 milhões de pessoas morrem em todo o mundo devido a infeções em que os antibióticos mais comuns já não resultam. Especialistas admitem que, até 2050, o número possa chegar a oito milhões de mortes por ano - ultrapassando o total atribuído a todos os tipos de cancro em conjunto.
A Organização Mundial da Saúde considera a resistência aos antibióticos uma das maiores ameaças à saúde do século XXI.
Há agentes patogénicos que já hoje parecem quase impossíveis de controlar. Dois exemplos são bem conhecidos por praticamente qualquer médica ou médico de infeções:
- Neisseria gonorrhoeae: bactéria responsável pela gonorreia (tripper), atualmente em grande parte resistente aos antibióticos de primeira escolha.
- Staphylococcus aureus: normalmente um habitante inofensivo da pele, mas variantes resistentes (como o MRSA) podem desencadear infeções graves e, por vezes, fatais.
E estes são apenas a parte visível do problema. Atrás deles cresce uma lista de bactérias que, passo a passo, vai neutralizando o nosso arsenal terapêutico, enquanto a criação de novos fármacos não consegue acompanhar.
Porque quase não chegam novos antibióticos ao mercado
Entre 2017 e 2022, apenas doze novos antibióticos obtiveram autorização a nível mundial. Quase todos assentam em famílias de substâncias já conhecidas - o que significa que muitas bactérias já dispõem de mecanismos de defesa mesmo antes de os medicamentos chegarem ao uso hospitalar.
Criar um antibiótico verdadeiramente inovador tende a exigir mais de uma década de trabalho e investimentos de milhares de milhões. Ao mesmo tempo, profissionais de saúde procuram prescrever os fármacos mais recentes com grande prudência, para atrasar o aparecimento de resistências. Para as farmacêuticas, isto traduz-se num modelo de negócio pouco atrativo: custos elevados, horizonte de retorno incerto e regras apertadas.
A indústria retirou-se em grande medida da investigação em antibióticos - precisamente no momento em que a necessidade médica dispara.
O resultado é um impasse perigoso. Enquanto as bactérias evoluem praticamente de hora a hora, a investigação avança lentamente, estudo após estudo. É aqui que ganha força, nos últimos anos, uma estratégia alternativa: a utilização de AI.
AI no laboratório: de AlphaFold a modelos AMR
Na biomedicina atual, há várias ferramentas de AI a acelerar o combate aos agentes resistentes:
- AlphaFold prevê a estrutura tridimensional de proteínas - componentes essenciais que desempenham funções vitais nas bactérias. Assim, torna-se mais fácil identificar, com maior precisão, potenciais alvos para novos fármacos.
- Modelos de AI de AMR (Antimicrobial Resistance) analisam dados clínicos e laboratoriais para antecipar como a resistência se pode disseminar e que combinações de medicamentos ainda poderão manter eficácia.
Ao absorverem enormes volumes de conhecimento biológico e químico, estes sistemas extraem padrões que, muitas vezes, escapariam ao olhar humano. Por exemplo, conseguem inferir que características uma estrutura molecular precisa de ter para danificar bactérias de forma fiável - e, ao mesmo tempo, ser tão bem tolerada quanto possível pelo organismo humano.
A abordagem de Boston: 45 milhões de moléculas em modo acelerado
No Massachusetts Institute of Technology, uma equipa liderada pelo investigador em biotecnologia James Collins levou esta lógica mais longe. O raciocínio é simples: se as bactérias evoluem muito mais depressa do que a nossa capacidade tradicional de investigação, então a medicina precisa de uma ferramenta capaz de acompanhar esse ritmo.
Para isso, os investigadores alimentaram um modelo de AI com o conhecimento que a farmacologia acumulou ao longo de cerca de cem anos sobre antibióticos, incluindo:
- estruturas de substâncias já conhecidas;
- mecanismos de ação e alvos nas bactérias;
- efeitos secundários típicos e perfis de toxicidade.
Desta forma, o sistema aprendeu a reconhecer padrões na disposição espacial dos átomos que sugerem potencial antibacteriano. Depois, os cientistas lançaram a AI numa espécie de exploração virtual do “espaço químico”.
45 milhões de estruturas químicas não foram avaliadas no tubo de ensaio, mas no computador - em pouco tempo, em vez de décadas.
Para cada variação, a AI calculou a probabilidade de conseguir atacar bactérias. Com múltiplas rondas e pequenos ajustes em candidatos promissores, foram sendo construídas bibliotecas moleculares de dimensão gigantesca.
Dois acertos em 36 milhões - e porque isso é um sucesso
No final, o processo gerou 36 milhões de novos compostos. Uma parte foi selecionada, sintetizada em laboratório e testada contra bactérias reais. Dois candidatos destacaram-se: mostraram atividade contra estirpes resistentes e atuaram por mecanismos totalmente diferentes dos antibióticos conhecidos.
À primeira vista, dois acertos em 36 milhões de tentativas pode soar desanimador. Na prática do desenvolvimento de medicamentos, porém, é um resultado notável: muitos projetos convencionais prolongam-se por anos e terminam sem que uma única substância chegue sequer à fase de ensaios clínicos.
| Critério | Investigação tradicional | Abordagem com apoio de AI |
|---|---|---|
| Número de moléculas testadas | Dezenas de milhares | Dezenas de milhões |
| Tempo até aos primeiros candidatos | Muitos anos | Horas a poucos dias para o rastreio |
| Tipo de seleção | Ensaios laboratoriais, intuição, experiência | modelos estatísticos, reconhecimento de padrões |
Estes dois candidatos ainda estão muito longe de uma autorização de utilização. Precisam de passar por testes de toxicidade, resistir a ensaios clínicos e competir com outras abordagens. Ainda assim, demonstram que o maior obstáculo pode não ter sido apenas biológico - mas também a forma como a investigação tem sido organizada.
O que a AI pode fazer - e o que não pode
A AI não vai fazer desaparecer, por magia, o problema da resistência aos antibióticos. Mesmo perante novos fármacos, as bactérias acabarão por reagir e adaptar-se. E mantém-se o risco de um uso irrefletido de novos medicamentos acelerar novamente o aparecimento de resistências.
Ainda assim, a AI altera a posição de partida. Três aspetos são determinantes:
- Velocidade: ideias de fármacos podem ser geradas em dias, e não em anos.
- Amplitude: os sistemas conseguem explorar zonas do espaço químico que dificilmente seriam consideradas de forma dirigida por investigadores.
- Precisão: os modelos filtram desde cedo moléculas com maior probabilidade de sucesso, reduzindo custos laboratoriais em fases posteriores.
Em paralelo, a AI também pode apoiar hospitais e clínicas na gestão do uso dos antibióticos existentes. Modelos analíticos conseguem, a partir de dados de doentes, identificar que terapias falham com maior frequência para determinados agentes e em que situações faz sentido alterar o esquema terapêutico.
O que as doentes e os doentes devem saber agora
A perspetiva de uma nova geração de antibióticos apoiados por AI não deve fazer esquecer onde está, hoje, a proteção mais eficaz: a utilização responsável dos medicamentos disponíveis. Cada prescrição desnecessária aumenta a pressão evolutiva sobre as bactérias e favorece o aparecimento de resistências.
- Tomar antibióticos apenas quando forem explicitamente prescritos por médicas e médicos.
- Cumprir rigorosamente a duração do tratamento, sem interromper mais cedo por iniciativa própria.
- Não utilizar sobras antigas de receitas anteriores “por conta própria”.
Ao mesmo tempo, as equipas de investigação continuam a clarificar os mecanismos por detrás das resistências. Termos como “multirresistente” ou “antibiótico de reserva” aparecem cada vez mais em relatórios clínicos. “Multirresistente” significa que um microrganismo se tornou insensível a várias classes de fármacos comuns. Já os antibióticos de reserva são medicamentos destinados apenas a situações de último recurso, para preservar a sua eficácia pelo maior tempo possível.
Aqui, a AI pode ter um papel de apoio, por exemplo ao interpretar mais rapidamente dados laboratoriais e ao indicar precocemente se um microrganismo já pertence ao grupo particularmente problemático. Assim, a decisão de usar - ou não - um fármaco de reserva pode ser tomada com base mais sólida.
A combinação de uma gestão rigorosa da higiene nos hospitais, regras estritas de prescrição e novas ferramentas de AI dá à medicina uma segunda oportunidade no combate aos agentes resistentes. Se será suficiente, não depende apenas de algoritmos avançados nos bastidores, mas também do grau de responsabilidade com que a sociedade e o sistema de saúde lidarem com esta nova geração de substâncias terapêuticas.
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