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INPs nas nuvens da Antártida são surpreendentemente escassas, revela novo estudo

Pessoa em roupa laranja recolhe amostra do gelo num local gelado com equipamento científico e monitor digital.

A Antártida tem fama de ser um lugar implacavelmente gelado, mas uma investigação recente mostra que, nas suas nuvens, afinal falta um ingrediente essencial para o gelo.

Para que se formem cristais de gelo no interior das nuvens, são necessárias partículas minúsculas suspensas na atmosfera. Estas chamadas partículas nucleadoras de gelo - ou INPs - podem incluir poeiras minerais, solo levantado pelo vento, cinzas, partículas de sal marinho transportadas por aerossóis ou proteínas libertadas por organismos vivos.

Em determinadas condições, o gelo consegue surgir em nuvens que, por si só, não estariam suficientemente frias, graças à cristalização da água à volta dessas partículas em suspensão.

INPs no Oceano Austral: um recurso raro

No entanto, sobre o Oceano Austral em torno da Antártida - o maior deserto de gelo do mundo - os cientistas descobriram que estas partículas são inesperadamente escassas. A conclusão resulta da análise de amostras de ar recolhidas em vários postos avançados antárticos.

"Tanto quanto sabemos, nunca existiu uma série temporal tão longa de filtros a partir dos quais se tenham determinado INPs no continente antártico", afirma a cientista da troposfera Heike Wex, do Instituto Leibniz, na Alemanha.

"Sugerimos que a sua baixa abundância pode dever-se à ausência de fontes biológicas eficientes, presentes noutras regiões do globo, incluindo o Ártico no verão", relatam Wex e a sua equipa no artigo publicado.

Os investigadores recolheram ar apenas nas imediações de três estações antárticas, mas consideram que as baixas concentrações de núcleos de gelo observadas nas duas estações mais a sul poderão também verificar-se noutras áreas do continente gelado. Para esclarecer as zonas ainda sem dados, seriam necessárias mais amostras.

Nuvens anómalas e o papel na reflexão da luz solar

Ainda assim, o estudo contribui para perceber de que forma as nuvens invulgares da Antártida poderão estar a ajudar a proteger o Hemisfério Sul de parte do aquecimento associado às alterações climáticas.

A explicação é que, quando há menos núcleos de gelo no ar, uma maior fracção da água das nuvens permanece no estado líquido, embora super-arrefecido. E nuvens mais carregadas de água líquida reflectem mais luz solar de volta para o espaço do que as nuvens ricas em gelo.

Alterações climáticas e o risco de mais núcleos de gelo

Segundo a cientista da troposfera Silvia Henning, também do Instituto Leibniz, essa protecção proporcionada por estas nuvens ao Hemisfério Sul pode estar em risco.

"A concentração de núcleos de gelo na Antártida poderá aumentar devido ao aquecimento global, à medida que o recuo dos glaciares expõe mais terreno à vegetação e a biosfera pode tornar-se mais activa", explica Henning.

Se mais núcleos de gelo forem injectados na atmosfera, a capacidade reflectora de nuvens, de outra forma, muito húmidas poderá diminuir. Isso poderá, por sua vez, afectar o clima regional ao reforçar um ciclo de retroalimentação do aquecimento.

"Por isso", diz Henning, "determinar o estado actual [das INPs da Antártida] pode ser útil para avaliar os potenciais impactos de mudanças futuras".

A investigação foi publicada na Geophysical Research Letters.

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