Quando se fala em «alimentação saudável», a maioria das pessoas concentra-se sobretudo no que come.
Isso pode traduzir-se em tentar aumentar o consumo de fruta e hortícolas, reduzir a comida rápida ou até contar calorias.
No entanto, a alimentação saudável vai muito além do que entra no prato: os comportamentos e as atitudes que temos em relação à comida também contam.
Um exemplo é a ortorexia nervosa, uma preocupação obsessiva em consumir apenas alimentos considerados «saudáveis».
Se «alimentação saudável» fosse apenas sinónimo de ingerir alimentos saudáveis, então quem tem ortorexia seria o retrato da saúde.
Mas, na realidade, quem vive com esta perturbação do comportamento alimentar enfrenta frequentemente dificuldades nas relações e relata, entre outros problemas, uma fraca qualidade de vida.
A investigação indica que trocar o foco do alimento em si pela forma como vivemos a experiência de comer pode trazer vários benefícios para a saúde. Vejamos porquê.
Porque estamos tão obcecados com a dieta?
A ideia de que «alimentação saudável» equivale a «dieta saudável» pode ter ganho força no início da década de 1980, quando se instalou o alarme em torno da «epidemia de obesidade» nos países ocidentais - definida como um aumento rápido da prevalência de pessoas com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30.
Ainda assim, as causas da obesidade são complexas e continuam a ser pouco compreendidas, existindo muitas explicações possíveis para além de simplesmente o que a pessoa come. E chamar à atenção quem tem excesso de peso para «comer de forma mais saudável» não reduziu, em nada, as taxas de obesidade na população.
Há também alguma evidência de que esta fixação no peso contribuiu para o aumento de comportamentos alimentares desordenados e de perturbações do comportamento alimentar - situações marcadas por práticas problemáticas à mesa e por atitudes distorcidas em relação à comida, ao peso, à forma corporal e à aparência.
É claro que precisamos de mudar a forma como pensamos a alimentação saudável.
Ouvir o seu corpo
O conjunto de estudos sobre alimentação intuitiva tem vindo a crescer e mostra que esta abordagem pode oferecer vários benefícios para a saúde.
Alimentação intuitiva significa confiar nos sinais internos do corpo que indicam quando comer, o que comer e em que quantidade. Por exemplo, prestar atenção ao estômago a «reclamar» quando está na hora de comer; reparar que já se sente cheio ou satisfeito; ou perceber que pode desejar determinados alimentos porque o corpo procura nutrientes específicos (como proteína após o exercício).
Os estudos sugerem que este modo de comer pode traduzir-se numa melhor saúde física e mental, numa melhor qualidade da alimentação e está associado a IMC mais baixos.
A investigação mostra ainda que fazer refeições em horários regulares e comer acompanhado também se relaciona com melhor saúde global e com uma alimentação de maior qualidade.
Mas, se for difícil para si, não está sozinho
A maioria de nós vive em ambientes alimentares que tornam a alimentação saudável mais complicada.
Ambientes alimentares pouco saudáveis favorecem o excesso de consumo e levam-nos a ignorar os sinais naturais de fome e saciedade.
Quando estamos rodeados de snacks açucarados baratos e fáceis de obter, comida rápida, porções grandes - e muita publicidade - pode ser difícil construir uma relação positiva com a comida.
Este problema é particularmente marcado em comunidades com mais desvantagens sociais e económicas.
Por exemplo, na nossa investigação com australianos de zonas rurais sobre alimentação e hábitos à mesa, a maioria disse querer comer de forma mais saudável, mas considerava isso difícil por várias razões. Entre elas, horários muito preenchidos e o custo de alimentos mais saudáveis.
Os hábitos instalados e a alimentação emocional também podem dificultar escolhas e rotinas mais saudáveis.
Então, o que resulta?
Para a maioria das pessoas, comportamentos e atitudes saudáveis em relação à alimentação significam uma abordagem equilibrada, flexível e sem julgamentos, sem medo de alimentos «maus». Significa também estar atento aos sinais de fome e de saciedade.
Implica, ainda, reconhecer que a comida é uma fonte de ligação social e cultural. Uma atitude saudável perante a alimentação não ignora a informação nutricional - integra esse conhecimento numa forma mais ampla e mais prazerosa de comer.
Eis três sugestões para começar.
1. Reconhecer sinais de fome e de saciedade
Estes sinais variam de pessoa para pessoa. Consegue ouvir o estômago a começar a roncar ou notar uma quebra de energia? Já passou muito tempo desde a última vez que comeu? E, durante a refeição, há um momento em que a fome desaparece e deixa de sentir vontade forte de continuar a comer? Algumas pessoas acham útil recorrer a escalas de fome e saciedade.
2. Reenquadrar os alimentos «maus»
Há algum alimento de que gosta muito, mas que evita por o considerar «mau» ou «proibido»? Experimente incluir uma pequena porção na próxima refeição ou lanche. Pode descobrir que isso aumenta o prazer de comer e, ao mesmo tempo, reduz o poder que esse alimento tem sobre si.
3. Comer em companhia
Se, por norma, come sozinho ou faz refeições «a correr», veja se consegue planear mais tempo para comer e incluir outras pessoas - seja através de mais refeições em família, seja com almoços de grupo com colegas.
Mas algumas pessoas têm de seguir uma dieta específica
Quem tem problemas de saúde que exigem um tipo de alimentação particular - como pessoas com diabetes ou doença celíaca - precisa de seguir essas recomendações. Ainda assim, mesmo dentro dessas limitações, pode ser possível manter comportamentos e atitudes saudáveis em relação à comida.
Por exemplo, um estudo de 2020 com pessoas com diabetes tipo 2 concluiu que quem comia de forma mais intuitiva tinha melhor controlo dos níveis de açúcar no sangue.
O essencial
Assim - se não tiver uma condição médica que o impeça - avance e coma uma fatia daquele bolo de aniversário. Depois, ouça o seu corpo quando ele lhe disser que já chega.
Se sente que tem uma relação pouco saudável com a comida e que isso está a interferir com a sua vida, contacte o seu médico de família para discutir opções. Também pode procurar apoio junto da Butterfly Foundation.
Nina Van Dyke, Professora Associada e Diretora-Adjunta, Mitchell Institute, Victoria University, e Rosemary V. Calder, Professora, Política de Saúde, Victoria University
Este artigo é republicado a partir de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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