Uma das estratégias em que os cientistas apostam para melhorar os tratamentos do cancro passa por capacitar melhor o próprio sistema imunitário do organismo para combater a doença - e um novo estudo aponta um interruptor molecular capaz de o fazer.
Como o TAK1 ajuda as células cancerígenas a escapar ao sistema imunitário
Depois de um processo de rastreio amplo, em que vários genes de células cancerígenas cultivadas em laboratório foram “desligados” para se perceber o impacto de cada um, os investigadores concluíram que um gene responsável pela produção da proteína TAK1 era determinante para que as células cancerígenas evitassem o ataque imunitário.
Em seguida, testes adicionais com células cancerígenas em ratinhos com sistemas imunitários normais confirmaram a importância do TAK1 para o cancro: os tumores em ratinhos sem esta proteína cresceram de forma mais lenta e, em média, os animais viveram mais tempo.
A equipa, que reúne instituições da Austrália e da Irlanda, considera que estes resultados podem contribuir para o desenvolvimento de futuras terapias. Em teoria, fármacos poderiam visar diretamente a produção de TAK1 e “virar” este interruptor molecular.
“É sabido que o TAK1 promove a sobrevivência das células cancerígenas e bloqueia a morte celular”, afirma a bióloga de células cancerígenas Anne Huber, do Olivia Newton-John Cancer Research Institute (ONJCRI), na Austrália.
“No entanto, não sabíamos que as células cancerígenas usam esta tática para evitar ser eliminadas pelo sistema imunitário.”
O papel das células T CD8⁺ e das citocinas
Para perceber melhor o que está por detrás deste efeito, Huber e os seus colegas analisaram com mais detalhe os mecanismos envolvidos. Em particular, o TAK1 protege as células cancerígenas da ação das células T CD8⁺ - células do sistema imunitário que removem células danificadas e destroem invasores perigosos, como as próprias células tumorais.
Uma das formas pelas quais estas células T CD8⁺ são eficazes é através da libertação de sinais químicos conhecidos como citocinas, que conseguem alcançar os seus alvos com maior facilidade quando o TAK1 não está presente.
Compreender este processo ao pormenor pode ajudar os cientistas a tirar melhor partido dele em tratamentos contra o cancro. Quando o TAK1 é retirado, as células cancerígenas ficam, na prática, a tentar sobreviver sem um dos seus melhores “guarda-costas”.
Implicações para a imunoterapia e limites do estudo
Importa sublinhar que este trabalho foi realizado com células cancerígenas desenvolvidas em laboratório e tumores em modelos de ratinho. Há motivos para pensar que os resultados possam vir a aplicar-se em humanos, mas isso ainda terá de ser demonstrado e alargado a um conjunto mais abrangente de cancros (neste estudo, o foco foi sobretudo o melanoma).
Ainda assim, os dados são encorajadores. Uma das vantagens das abordagens de imunoterapia no combate aos tumores é dependerem mais das defesas do próprio organismo, em vez de recorrerem principalmente a fármacos de quimioterapia ou a radiação.
A segurança do doente continua a ser uma preocupação central sempre que se falam de tratamentos anticancro.
Bloquear a produção de TAK1 poderá ser uma possibilidade no futuro, mas será necessário apurar eventuais efeitos adversos para o resto do corpo e compará-los com os benefícios.
“Bloquear o TAK1 poderia tornar as imunoterapias atuais mais eficazes ao retirar aos tumores esta proteção”, diz o biólogo médico Tirta Djajawi, do ONJCRI.
“O TAK1 é como um amortecedor que permite às células cancerígenas sobreviver aos golpes mais duros do sistema imunitário. Retire-o, e o tumor colapsa sob a força do ataque imunitário.”
A investigação foi publicada na revista Cell Reports.
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